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Thiago Barbosa Soares

É com grande entusiasmo que apresentamos o livro “Discursos do Norte: projeções identitárias, apagamentos e interpelações em redes de dizeres sobre o Tocantins”, publicado em dezembro de 2023, pela Pontes Editores. Esta obra, de autoria dos professores Thiago Barbosa Soares (UFT/CNPq) e Damião Francisco Boucher (UFT), representa uma investigação profunda e abrangente das complexas dinâmicas discursivas que envolvem o Tocantins, explorando as projeções identitárias, os apagamentos históricos e as interpelações culturais que convergem para criar uma narrativa multifacetada sobre esta região tão esquecida por muitos setores da sociedade brasileira.

O Estado do Tocantins, apesar de sua jovem existência, carrega consigo uma rica tapeçaria de culturas, histórias e perspectivas. No entanto, essas narrativas são frequentemente moldadas por fatores históricos, políticos e sociais que nem sempre refletem a diversidade discursiva conflagrada na complexidade da região. Este livro, “Discursos do Norte”, busca preencher as lacunas abertas por tais atravessamentos, oferecendo um exame crítico e esclarecedor das projeções identitárias, dos apagamentos e das interpelações presentes nos discursos que orbitam o Tocantins, uma das regiões mais estratégicas do Norte brasileiro.

Para compor o traçado epistemológico dos capítulos desta obra, convocamos uma potente teoria discursiva. A aplicação da Análise do Discurso no livro “Discursos do Norte: projeções identitárias, apagamentos e interpelações em redes de dizeres sobre o Tocantins” desempenha um papel fundamental na compreensão e desvelamento das camadas adjacentes de significados presentes nas narrativas que cercam essa região. A abordagem analítica proporciona uma lente crítica e reflexiva que permite explorar de maneira profunda e abrangente as complexas dinâmicas discursivas que moldam a percepção do Tocantins e suas projeções identitárias.

A abordagem analítica também permite a identificação de silenciamentos e apagamentos presentes nas narrativas discursivas sobre o Tocantins. Ao escavar as montanhas dos discursos, é possível destacar as vozes marginalizadas, histórias omitidas e elementos regionais sub-representados. Essa análise crítica auxilia no resgate das partes da identidade do Tocantins que foram negligenciadas ao longo do tempo, contribuindo para uma compreensão mais completa e inclusiva da região.

Feito essa explicação inicial, passamos a uma breve apresentação dos capítulos desta obra. O capítulo I, Fundação e criação: sentidos à deriva no discurso do ex-governador José Wilson Siqueira Campos, analisa o discurso político em duas ramificações distintas: o discurso fundador e o discurso de resistência. Para fazer isso, depreende-se o funcionamento das redes de sentidos da fundação do Tocantins como um processo disruptivo, que afeta os sentidos de “criação” e de “fundação”. Como percurso teórico-metodológico, adota-se os referenciais da Análise do Discurso, aplicada a um recorte discursivo de Siqueira Campos, ex-governador do Tocantins, proferido na Câmara dos Deputados, no dia 5 de maio de 2004.

O capítulo II, Dizeres sobre a fundação do Tocantins: uma análise das placas do monumento aos Pioneiros de Palmas, à luz das noções da Análise do Discurso, objetiva descrever e interpretar os efeitos de sentidos e de sujeitos presentes na Placa de Proclamação do Monumento aos Pioneiros de Palmas, na Praça dos Girassóis, como parte do funcionamento do discurso fundador do Estado do Tocantins. Para a organização argumentativa deste texto, têm-se as seguintes seções descritas: Aparato teórico-metodológico, cujo recenseamento das noções de condições de produção, relações de sentidos, formação discursiva, interdiscurso, processamento parafrástico e silêncio constitutivo faz-se necessário; Análise: memórias da fundação da capital do Tocantins, na qual os dispositivos de análise expostos são aplicados, com objetivo de examinar a discursividade investida na Placa de Proclamação, marco fundador da capital definitiva do Estado do Tocantins, em 20 de maio de 1989.

O capítulo III, O discurso fundador do Tocantins: uma análise da placa do Palácio Araguaia, descreve e interpreta, à luz do consagrado instrumental interpretativo da Análise do discurso, os efeitos de sentidos e de sujeitos presentes na placa do Palácio Araguaia, cede do governo do Tocantins, de 9 de março de 1991 e, desse modo, compreende parte do funcionamento do discurso fundador do Estado. Para organizar a disposição dos integrantes do edifício argumentativo deste texto, têm-se as seguintes seções delineadas: Aparato teórico-metodológico, na qual são recenseadas, de maneira contribuitiva tanto para esta pesquisa quanto para outras com objetos e escopos similares, as noções de condições de produção, formação discursiva e interdiscurso; Análise: o discurso fundador do Tocantins, na qual os vetores analíticos anteriormente expostos são aplicados, com objetivo de examinar a discursividade investida na placa do Palácio Araguaia de 9 de março de 1991.

Analisa-se neste capítulo IV, Metáforas e hiperbolização no pronunciamento de posse da prefeita Cinthia Ribeiro, a materialidade enunciativo-discursiva do pronunciamento de posse da prefeita de Palmas, TO, Cinthia Ribeiro. Nesse percurso investigativo, busca-se examinar o funcionamento dos processamentos metafóricos e suas implicações para a manutenção das formações imaginárias, sobretudo as projeções geradoras do sucesso político nos discursos de posse. Para executar tal esforço perquiridor, lança-se mão das noções de interdiscurso, de intradiscurso, bem como das noções de sucesso, de memória discursiva, de metáfora e de hipérbole para descrever e interpretar o acontecimento discursivo “pronunciamento de posse”, da prefeita de Palmas, Tocantins, Cinthia Ribeiro, no dia 1º de janeiro de 2021.

Neste capítulo V, “Humor”, ódio político e apagamento do Tocantins em Paulo Vieira, o objetivo é rastrear e analisar sentidos acerca da região do Norte brasileira, a fim de tornar acessível à compreensão de como funcionam tais redes de dizeres e como estas afetam sentidos e sujeitos circulantes na sociedade brasileira. Direcionados pelos referenciais teóricos e metodológicos da Análise do Discurso, sobretudo pelos princípios e procedimentos que redimensionam a própria noção de língua, de sujeito e de história, visa-se debruçar sobre um corpus heterogêneo e interseccionado nos campos humorístico e político, constituído pela mídia. O objeto desta análise consiste na materialidade discursiva manifestada em um meio de comunicação de grande circulação, o G1, a partir do acontecimento discursivo enunciado em forma de piada por Paulo Vieira, humorista tocantinense, no dia 25 de dezembro de 2022, na premiação dos Melhores do Ano, transmitida pera Rede Globo, no programa Domingão com Huck.

O capítulo VI, Sucesso e apagamento dos sujeitos nortista e nordestino na manutenção das relações de poder, analisa uma das várias redes de dizeres sobre o Norte e Nordeste e os sujeitos nordestino e nortista. Utiliza-se como corpus os dizeres de Raiam Santos, influenciador e proprietário do Canal no YouTube, “Raiam Santos”, proferidos em 11 de novembro de 2020, de um internauta anônimo apresentado pelo site Yahoo em 2018 e de Flávia Aparecida Moraes, enunciados em 5 de outubro de 2022, originalmente postados em um vídeo em seu Instagram e posteriormente difundidos por diversas plataformas do YouTube. Verificando-se os possíveis efeitos e suas prováveis contribuições para a construção das formações imaginárias sobre o nordestino e o nortista, através do arcabouço teórico-metodológico da Análise do Discurso, sobretudo pelas noções de sucesso e de silêncio constitutivo, nele, entende-se como estes, nordestino e o nortista, são interpelados em sujeito inútil, parasitário e como seus espaços geográficos são discursivizados como sendo lugares sociais e culturalmente inócuos.

O capítulo VII, Tocantinense em representação: discurso sobre o Norte, investiga como determinados discursos constituem o sentido de tocantinense. Nessa iniciativa de empreender um percurso descritivo-interpretativo acerca de uma das várias redes de dizeres sobre a região Norte do Brasil, utiliza-se mais uma vez o arcabouço teórico-metodológico da Análise do Discurso com o intuito de averiguar como os discursos sobre o nortista produzem determinados efeitos e, consequentemente, promovem a manutenção de certas formações imaginárias que constituem o “desenho” do sujeito nortista e, especificamente, do tocantinense. O corpus deste estudo é instituído pelos dizeres de Paulo Vieira, humorista tocantinense, e pelos comentários de Victor Camejo, Rominho Braga, Osmar Campbell e Murilo Couto, humoristas paraenses e integrantes do canal no YouTube de grande circulação nacional e internacional, “Em Pé na Rede”. Os dizeres são veiculados no vídeo “Comentando Histórias #20 – um coroinha no Superpop”, de 15 de março de 2019.

Em toada semelhante à anterior, o capítulo VIII, A representação da imagem tocantinense em Paulo Vieira, analisa a imagem que a mídia faz do nortista. Utilizando-se do mesmo arcabouço teórico- metodológico da Análise do Discurso, Utiliza-se como corpus os dizeres de Paulo Vieira, de Antonio Tabet e de Fábio Porchat, humoristas tocantinense e cariocas respectivamente, integrantes do canal no YouTube de grande circulação nacional e internacional, Porta dos Fundos. Os dizeres são veiculados no vídeo “Promovido” e na entrevista com Paulo Vieira denominada “Paulo Vieira – Que história É Essa, Porchat?”, ambos exibidos pelo canal GNT, em 3 de outubro de 2019, nos quais a imagem construída é representativa dos costumes nortistas, especificamente do sujeito tocantinense.

O capítulo IX, Uma análise dos dizeres sobre a voz de sucesso em sites do Tocantins, analisa o discurso do sucesso, especificamente, os efeitos de sentidos nos pré-construídos “nacional” e “nacionalmente”. Tenciona-se depreender o que se diz sobre as vozes tocantinenses e como se diz, na perspectiva da Análise do Discurso. Para a sistematização dos dispositivos argumentativos deste percurso analítico, o capítulo é organizado nas seguintes seções: Aparato teórico-metodológico, cuja mobilização das noções, de pré-construído de sucesso, silêncio constitutivo, de interdiscurso e de outras noções faz-se necessário; Análise: sucesso e apagamento da voz tocantinense, na qual mecanismos analíticos expostos são aplicados para examinar os efeitos das projeções midiáticas em três notícias de sites tocantinenses. O corpus é composto pelos textos “Conheça o cantor e compositor tocantinense que vem se destacando no senário nacional” (2022), publicada no site de notícias Diário Tocantinense, “Produção da música tocantinense é valorizada na I Mostra Premiada” (2014) e “Fábio Jr, Melim e Zezo são atrações confirmadas para o 16º FGT” (2022), ambas publicadas no site oficial da Prefeitura de Palmas, Tocantins.

Por fim, o capítulo X, Sentidos e sujeitos nas projeções midiáticas de espacialidades discursivas do Tocantins, descreve e interpreta uma das várias redes de dizeres sobre os espaços urbanos tocantinenses, a saber, o Aeroporto Brigadeiro Lysias Rodrigues e a Estação de ônibus Apinajé, também à luz dos princípios e procedimentos teóricos e metodológicos da Análise do Discurso. O corpus desta investigação é composto por duas notícias, uma veiculada no Portal da Infraero (2016) e a outra no Portal O Coletivo (2012). Ao final deste percurso, espera-se compreender o cingir dessas redes midiáticas na projeção e manutenção de formações imaginárias que estabelecem também a projeção dos espaços urbanos e sentidos circulantes nas espacialidades discursivizadas do Tocantins.

Feito esse sobrevoo pelos textos que formam os capitulos desta obra, “Discursos do Norte: projeções identitárias, apagamentos e interpelações em redes de dizeres sobre o Tocantins”, esperamos contribuir para novos estudos, exames e investigações acerca das relações de poder existentes no interior dos discursos do Norte e sobre o Norte. Além disso, desejamos que as análises empreendidas neste livro demonstrem o potencial interpretativo de fenômenos sociais presentes na região Norte, em especial no Tocantins, com menor atenção do poder público e menor visibilidade em sua produção intelectual. Sem mais delongas, agradecemos a todos os envolvidos neste projeto e ao Jornal Opção pelo espaço de exposição.

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