Por Fernando Maciel Vieira1

Existe um esporte nacional mais praticado que o futebol e menos honesto que o carnaval: falar mal da escola pública enquanto seu filho passa oito horas por dia com o celular na mão, sem horário para dormir, sem limite para nada, e com um pai que acha que “trauma” é qualquer coisa que acontece quando alguém diz não. É um esporte olímpico de projeção, esse. E o brasileiro, convenhamos, tem talento nato.

Você já parou para reparar quem são os campeões dessa modalidade? São exatamente aqueles que mais deveriam se olhar no espelho antes de abrir a boca: o político que cortou verba da merenda, o líder religioso que confunde educação com catequese, o pai de família que nunca assinou uma agenda escolar mas tem tese pronta sobre doutrinação, e a mãe que foi à reunião de pais uma vez em três anos — justamente para reclamar da professora. Há algo de muito conveniente em tornar a escola o grande vilão da história. Afinal, quando o bode expiatório está na lousa, ninguém precisa se olhar na vitrine.

E então a criança chega à escola. E a escola, que ainda insiste em existir com suas regras, seus horários, sua exigência de que se sente, que se esforce, que espere sua vez — a escola comete o imperdoável: diz não. Reprova. Chama os pais. Pede postura. E aí acontece o milagre invertido: aquele pai que em casa nunca disse não, que resolveu cada conflito do filho com um presente ou um elogio vazio, esse pai se transforma em guerreiro da liberdade pedagógica. A escola vira doutrinadora. O professor vira algoz. A coordenadora vira inimiga. É uma inversão tão absurda que seria cômica se não fosse trágica — e se não custasse tão caro para quem está na lousa todos os dias tentando fazer algo com o que a família mandou sem manual.

A verdade — essa palavra tão pronunciada e tão pouco habitada — é que estamos diante de uma falência dupla e silenciosa. A família, aquela instituição sagrada que aparece em todo discurso de palanque e em todo versículo de ocasião, abandonou faz tempo uma de suas funções mais essenciais: a de dizer não. Não com crueldade, não com autoritarismo, mas com amor firme, com presença, com a coragem de desagradar quem você mais ama porque sabe que é isso que ele precisa. Esse não sumiu. Evaporou junto com o jantar em família, com a conversa sem tela, com o adulto que tinha tempo de ser referência e não apenas provedor de conforto e wi-fi.

Jean Piaget, que entendia de desenvolvimento humano bem mais do que a maioria dos influenciadores de parentalidade, já dizia que o principal objetivo da educação é criar pessoas capazes de fazer coisas novas — não simplesmente repetir o que outras gerações fizeram. Mas criar pessoas assim exige fricção. Exige limite. Exige a experiência de querer algo e não ter, de errar e responder por isso, de conviver com a frustração sem que um adulto ansioso apareça correndo para eliminá-la. A frustração, essa grande vilã dos tempos modernos, é na verdade o primeiro laboratório moral da criança. Retirá-la da infância não é proteção. É amputação.

E então a criança chega à escola. E a escola, que ainda insiste em existir com suas regras, seus horários, sua exigência de que se sente, que se esforce, que espere sua vez — a escola comete o imperdoável: diz não. Reprova. Chama os pais. Pede postura. E aí acontece o milagre invertido: aquele pai que em casa nunca disse não, que resolveu cada conflito do filho com um presente ou um elogio vazio, esse pai se transforma em guerreiro da liberdade pedagógica. A escola vira doutrinadora. O professor vira algoz. A coordenadora vira inimiga. É uma inversão tão absurda que seria cômica se não fosse trágica — e se não custasse tão caro para quem está na lousa todos os dias tentando fazer algo com o que a família mandou sem manual.

O filósofo Edgar Morin escreveu que “a educação deve contribuir para a autoformação da pessoa”. Mas autoformação pressupõe um eu que foi formado em algum lugar antes de chegar à escola. E esse lugar chama-se família. Quando a família terceiriza essa responsabilidade — e terceiriza de verdade, não apenas no tempo, mas na autoridade, na afetividade, na presença — ela entrega para a escola uma missão impossível e depois a condena por não cumpri-la. É como não regar uma planta por meses, entregá-la murcha para um jardineiro de plantão e voltar na semana seguinte para reclamar que ele não tem competência.

Os líderes, então — políticos, pastores, celebridades, formadores de opinião de todos os tamanhos e palanques — esses merecem um capítulo à parte nessa história. Há algo profundamente revelador no fato de que quem mais fala mal da escola pública seja exatamente quem menos investiu nela, quem mais a sucateou, quem transformou cargo eletivo em trampolim pessoal enquanto assinou cortes orçamentários com a mesma mão que depois apontou o dedo para o professor. Falar mal da escola dá voto. Falar mal da família não dá. Essa equação eleitoral é antiga, cínica e muito eficiente. O professor virou personagem político — e personagens políticos existem para ser culpados, não para ser respeitados.

Não se trata aqui de santificar a escola ou de fingir que ela não tem problemas reais, sérios, urgentes. Ela tem. A escola pública brasileira sobrevive com recursos vergonhosos, com professores mal pagos e sobrecarregados, com estrutura que envergonha qualquer comparação internacional. Mas existe uma diferença fundamental entre criticar uma instituição para transformá-la e atacá-la para se livrar da culpa. A primeira nasce do compromisso. A segunda nasce da covardia.

O que estamos fazendo, coletivamente, é um movimento de desonestidade civilizada: projetamos na escola tudo aquilo que não conseguimos fazer dentro de casa, e projetamos na família tudo aquilo que não conseguimos fazer dentro da escola, e enquanto os dois lados se acusam mutuamente, a criança real — de carne, de dúvida, de necessidade — fica no meio dessa guerra de narrativas sem que ninguém pergunte seriamente o que ela precisa. Freud chamaria isso de projeção. Os gregos chamariam de hybris. Eu chamo de covardia com nome bonito.

A pergunta que fica — e que eu deixo aqui não como retórica, mas como incômodo genuíno — é simples e devastadora: se a escola está em falência e a família está em falência, quem faliu primeiro? E mais importante: quem tem coragem, hoje, de olhar para si mesmo antes de olhar para a lousa?

Porque no fundo, no fundo mesmo, todo mundo sabe a resposta. Só não quer dizer em voz alta. Afinal, é muito mais confortável culpar o professor do que ser o pai que aparece.

  1. Fernando Maciel Vieira é professor da rede pública estadual. ↩︎