Por: Fernando Maciel Vieira

A questão do professor que “vira palhaço” é mais complexa do que parece e merece um olhar sem crueldade. Há professores que genuinamente acreditam que a única forma de engajar alunos da geração Z é através de estímulos constantes, novidades ininterruptas e recompensas imediatas. E há uma razão para isso: parte da literatura pedagógica dos últimos vinte anos incentivou exatamente esse caminho, às vezes sem o rigor necessário para distinguir engajamento superficial de aprendizagem profunda. Os jogos tradicionais e os jogos digitais podem ter impactos tanto positivos quanto negativos de acordo com diferentes situações — e o grande desafio relacionado ao design de jogos educativos é o planejamento e a implementação de jogos que sejam capazes de proporcionar aprendizagem ao mesmo tempo que sejam persuasivos e engajadores.  Engajamento sem aprendizagem é entretenimento. Aprendizagem sem nenhum engajamento é tortura. O equilíbrio é a arte — e a arte exige formação, não apenas boa vontade e uma conta no TikTok.

Havia um tempo, não tão distante assim, em que entrar numa sala de aula era um ato quase solene. O professor chegava, abria o livro, e a turma — com maior ou menor entusiasmo — entendia que estava diante de algo sério: o conhecimento. Hoje, há professores que precisam de três malabarismos, dois efeitos sonoros e uma música de fundo para conseguir que um adolescente de quinze anos olhe por dois minutos seguidos para a lousa sem verificar o Instagram. Se você é professor e se reconheceu nessa descrição, saiba que não está sozinho — e tampouco está errado em sentir que algo, em algum lugar, saiu profundamente dos trilhos.

A questão que este artigo propõe não é simples, e merece ser feita sem eufemismos: estamos confundindo educação com entretenimento? Estamos formando alunos que aplaudem, sorriem, participam das dinâmicas, ganham pontos no Kahoot e saem da sala sem ter aprendido absolutamente nada de substancial? E mais grave ainda: estamos culpando os professores que se recusam a virar animadores de auditório?

Para entender o fenômeno, é preciso ir além da queixa de corredor. Neil Postman, sociólogo e crítico de mídia americano, já alertava em 1985, em seu livro “Amusing Ourselves to Death” — que em tradução direta seria algo como “Nos Divertindo até a Morte” — que toda a cultura americana estava se rendendo ao entretenimento como forma máxima de discurso público. A política, a religião, as notícias e a própria educação estavam assumindo progressivamente a forma de entretenimento.  Postman não viveu para ver o TikTok, mas se vivesse, provavelmente escreveria um segundo volume — e seria mais pessimista que o primeiro. Seu argumento central era que as faculdades necessárias para o raciocínio crítico são simplesmente enfraquecidas pelo consumo passivo de imagens, enquanto a leitura exige envolvimento intelectual intenso, ao mesmo tempo interativo e dialético. Em outras palavras: quem lê pensa. Quem apenas assiste… assiste.

Na mesma direção, o filósofo francês Guy Debord cunhou, em 1967, o conceito de “Sociedade do Espetáculo”. Para Debord, a sociedade moderna é governada por um espetáculo que não se limita ao entretenimento ou às apresentações visuais, mas abrange um conjunto de imagens, representações e mensagens que intermediam as interações humanas e moldam como as pessoas veem o mundo ao redor delas. O que Debord talvez não esperasse é que esse espetáculo chegaria dentro das salas de aula com datashow, caixinha de som bluetooth e professor fantasiado de Super-Herói da Motivação. As funções sociais desempenhadas pelo espetáculo podem ser verificadas no âmbito educacional, na medida em que o “sucesso” e o “progresso” tornam-se pretextos para práticas que não permitem ao aluno apropriar-se do conhecimento, impedindo o exercício da práxis e promovendo uma superficialização do ensino. Dito de outro modo: o espetáculo pedagógico pode ser muito bonito no vídeo que o professor posta nas redes sociais, mas os alunos continuam sem saber o que é uma equação do segundo grau.

É preciso ser justo, no entanto. A gamificação — o uso de elementos de jogos em contextos educacionais — não é, em si mesma, uma catástrofe. Fundamentada em teorias de aprendizagem como o behaviorismo e o construtivismo, a gamificação demonstrou benefícios significativos, incluindo aumento da motivação, melhora na retenção do conhecimento e desenvolvimento de habilidades socioemocionais.  Há estudos sérios sobre o tema. Segundo dados publicados na Science Direct, alunos que vivenciaram uma experiência de aprendizado gamificada tiveram desempenho 89,45% superior ao de estudantes que aprenderam o mesmo conteúdo por meio de palestras tradicionais.  Número impressionante. Que merece, também, uma leitura crítica: palestras tradicionais mal conduzidas são um parâmetro de comparação muito baixo. Comparar a gamificação com uma aula expositiva sem preparação, sem interação e sem sentido é como comparar um sanduíche de mortadela com uma pedra — claro que o sanduíche ganha.

O problema não é a gamificação. O problema é a gamificação como substituta do conteúdo. É a dinâmica como fim em si mesma. É o professor que passa cinquenta minutos organizando uma gincana sobre a Revolução Francesa e os alunos saem da aula sabendo o nome do time que ganhou, mas sem a menor ideia de por que as pessoas foram à guilhotina. A eficácia da gamificação depende de uma implementação adequada, que leve em conta os desafios tecnológicos e a necessidade de formação docente.  Ou seja: não é qualquer jogo, não é qualquer dinâmica. É uma estratégia pedagógica rigorosa, intencional, alinhada a objetivos de aprendizagem claros. Quando isso não acontece, o que se tem é circo — e nem mesmo um circo muito bem organizado.

Vygotsky, o grande psicólogo soviético do século XX, nos oferece uma chave essencial para entender o que está em jogo. A Zona de Desenvolvimento Proximal — ZDP — refere-se ao espaço entre o que o aluno consegue realizar sozinho e o que pode alcançar com a ajuda de alguém mais experiente, sendo que as tarefas devem ser suficientemente desafiadoras para estimular o progresso, mas acessíveis o bastante para que, com apoio, os estudantes consigam superar as dificuldades.  Traduzindo para o português da sala de aula: aprender exige desconforto. Não sofrimento, não humilhação, não crueldade — mas o esforço genuíno de enfrentar aquilo que ainda não se sabe. Para Vygotsky, a “boa” aprendizagem e o “bom” ensino deveriam sempre operar sobre níveis superiores de desenvolvimento proximal, e o ensino tem papel fundamental na mudança das condições do desenvolvimento — não se confundindo com uma perspectiva “espontaneísta” que apenas respeite os níveis atuais do aluno sem uma visão prospectiva.  Em outras palavras: o professor que nunca exige nada além do que o aluno já sabe não está sendo gentil. Está sendo omisso.

E é aqui que chegamos ao coração do problema contemporâneo. Há um fenômeno crescente nas escolas — e qualquer professor honesto que leia este texto vai reconhecer — em que a exigência virou vilã. O professor que passa dever de casa recebe reclamação dos pais. O professor que cobra leitura de um texto de três páginas é chamado de antiquado. O professor que aplica uma prova com questões que exigem raciocínio — e não apenas a reprodução mecânica de um conteúdo decorado — recebe e-mails da coordenação com o gentil pedido de “calibrar a dificuldade”. Calibrar para quê? Para a mediocridade confortável?

Os dados não mentem, mesmo quando queremos que mentissem. No PISA 2022, o Brasil alcançou 379 pontos em matemática, 410 em leitura e 403 em ciências — e menos de 50% dos alunos conseguiram atingir o nível mínimo de aprendizado em matemática e ciências. Para ter uma noção da dimensão do problema: em ciências, o Brasil está com pelo menos quatro anos de atraso em relação à média dos países da OCDE. Quatro anos. E Singapura, o país melhor colocado, tem resultados equivalentes a três a cinco anos de escolaridade a mais que a média internacional. Quatro anos de defasagem acumulada. Enquanto isso, nas redes sociais, circulam vídeos de professores com fantasias, danças e jogos, recebendo dezenas de milhares de curtidas e comentários do tipo “que professor incrível!” — e ninguém pergunta se aqueles alunos aprenderam a calcular uma porcentagem.

Comparando o PISA 2022 com os dados de 2018, o Brasil caiu cinco pontos em matemática, três em leitura e um em ciências, ficando na 64ª, 52ª e 61ª posição entre as 81 nações avaliadas — atrás de países latino-americanos como Chile, Uruguai, México e Costa Rica.  Não é um dado ideológico. É uma medição objetiva de habilidades básicas. E o Brasil coleciona essas posições há décadas. Talvez seja hora de perguntar se as metodologias que prometiam salvar a educação brasileira realmente entregaram o que prometeram — ou apenas entregaram conteúdo para o YouTube.

Há também um componente que poucos ousam nomear diretamente: a infantilização da relação pedagógica. Quando um aluno vai à coordenação reclamar que a tarefa está difícil demais, e a resposta institucional é pedir ao professor que reduza a exigência, o que se está ensinando a esse aluno? Que o desconforto deve ser evitado. Que o esforço é opcional. Que a dificuldade é um erro de planejamento do professor — e não uma etapa natural e necessária de qualquer processo de crescimento intelectual. Estamos, sem perceber, criando uma geração com anemia intelectual crônica: jovens que sabem onde clicar, mas não sabem o que fazer com o que encontram; que têm acesso a toda informação do mundo na palma da mão e não conseguem construir um argumento coerente de dois parágrafos.

O professor que se recusa a virar palhaço — que insiste em ensinar, em exigir, em propor desafios que causem o saudável desconforto da Zona de Desenvolvimento Proximal de Vygotsky — é frequentemente retratado como o vilão da história. É o “professor chato”, o “ultrapassado”, o que “não sabe se comunicar com os jovens de hoje”. Mas há uma diferença fundamental entre não saber se comunicar e se recusar a transformar a comunicação num espetáculo vazio. Um médico que insiste em prescrever o remédio correto em vez do que o paciente pediu não é necessariamente um médico que não sabe se comunicar. É, possivelmente, um médico que ainda leva a sério o seu ofício.

Não se trata de defender a aula expositiva monótona, a decoreba sem sentido ou a pedagogia do terror que marcou gerações de estudantes. Trata-se de defender que estudar é difícil. Que aprender exige esforço. Que noventa e nove por cento do processo é luta — é a frustração de não entender, seguida do esforço de tentar de novo, seguida da satisfação real e duradoura de finalmente compreender. O um por cento restante, esse sim pode ser diversão. Pode ser o Kahoot, pode ser a dinâmica, pode ser o jogo bem planejado que consolida o que foi ensinado. Mas só funciona se os noventa e nove por cento anteriores tiverem acontecido de verdade.

Estamos presenciando a prevalência da ignorância, do desconhecimento, da superficialidade. As pessoas leem cada vez menos, e quando leem, optam pela leitura fácil, pelo texto curto que não exige muito da compreensão.  Isso não é apenas uma observação cultural pessimista. É o resultado de décadas de uma cultura que confundiu facilitação com facilitismo, que confundiu metodologia ativa com ausência de exigência, que confundiu o aluno no centro do processo com o aluno como único árbitro do que deve ou não ser aprendido.

O professor que quer dar sua aula, que se preocupa com o conteúdo, que cobra leitura e produção intelectual, que devolve a prova com comentários ao invés de estrelinhas coloridas — esse professor não é o problema da educação brasileira. Esse professor é, muitas vezes, a única coisa que ainda está tentando fazer alguma coisa funcionar dentro de um sistema que, progressivamente, convenceu a si mesmo de que a escola deve ser agradável acima de tudo. A escola deve ser muita coisa: justa, acolhedora, estimulante, significativa. Mas agradável a cada segundo? Isso não é escola. Isso é parque de diversões com nota fiscal.

A pergunta que este artigo faz no título — o professor virou palhaço? — não é uma acusação. É um alarme. Porque palhaços são profissionais talentosíssimos que fazem algo extraordinariamente difícil: fazem pessoas rirem. Mas ninguém vai ao circo para aprender física quântica. E a escola, por mais que tente se reinventar com ferramentas digitais, dinâmicas de grupo e plataformas gamificadas, continua sendo — ou deveria continuar sendo — o lugar onde o conhecimento humano acumulado ao longo de séculos é transmitido com seriedade, rigor e cuidado para as próximas gerações.

Se não for isso, é circo. E circo, como sabemos, tem lotação esgotada — mas a plateia vai embora sem ter aprendido nada que não sabia quando entrou.