“A televisão me deixou burro, muito burro demais.” Agora reclama do seu celular
30 janeiro 2026 às 13h15

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Por: Fernando Maciel Vieira
Titãs Avisou em 1986. Ninguém Quis Ouvir.
“A televisão me deixou burro, muito burro demais.” A frase foi cantada há quase 40 anos. Quatro décadas atrás a crítica já estava na mesa, mastigada, servida em bandeja de prata. Mas ninguém deu bola. Estavam ocupados demais vendo o que passava na tela.
E agora, essa mesma geração que ignorou o aviso, que se entorpeceu voluntariamente, que fez da TV o centro gravitacional da casa, vem com discurso pronto sobre “os perigos da tecnologia” e “o vício das telas”.
É de um cinismo tão refinado que beira a arte.
Porque o padrão se repete. Sempre. Nos anos 1920, os pais diziam que o rádio estava destruindo a juventude. Nos anos 1950, a TV ia acabar com a leitura. Nos anos 1980, videogame criaria uma geração violenta. Nos anos 2000, a internet mataria a socialização. E agora o celular é o apocalipse portátil que carregamos no bolso.
Cada geração encontra seu entorpecente. Cada geração afunda nele. E cada geração, ao envelhecer, aponta o dedo para a próxima fazendo exatamente a mesma coisa, só que com tecnologia diferente.
Cena cotidiana: você está no almoço de domingo, dá uma olhada rápida no celular, e seu pai dispara a frase que já virou patrimônio cultural da hipocrisia brasileira: “Essa juventude não desgruda desse telefone!”. Ele diz isso enquanto a televisão berra ao fundo. Ele diz isso sem piscar. Ele diz isso como se tivesse autoridade moral. Como se não tivesse passado literalmente décadas da vida dele sentado em frente a uma caixa iluminada, em transe, absorvendo tudo que saía dali como se fosse verdade absoluta.
A memória seletiva da humanidade é uma obra-prima da natureza.
Porque ninguém — absolutamente ninguém — quer lembrar que organizou a rotina inteira ao redor da grade de programação. Almoço tinha hora marcada. Jantar era sincronizado. Final de semana sem maratona de filme na sessão da tarde? Nem pensar. E qualquer um que ousasse falar durante o programa levava um “SHHHH!” tão agressivo que parecia ameaça física.
Mas isso não era vício, não. Isso era “cultura”. Isso era “se informar”. Isso era “lazer em família” — mesmo que a família inteira estivesse sentada em silêncio absoluto, olhando para a mesma direção feito plateia hipnotizada.
Aí chegou o celular, e de repente todo mundo virou especialista em saúde mental e equilíbrio emocional.
O Problema Nunca Foi a Tela. Foi o Espelho.
Sabe o que realmente incomoda na geração do celular? É que ela expõe, sem dó, o que a geração anterior fingia não ver: nós, seres humanos, somos péssimos em equilíbrio. Sempre fomos. Não sabemos lidar com prazer. Não sabemos dosar nada. Encontramos uma fonte de dopamina e mergulhamos de cabeça até o pescoço, até virar dependência, até virar rotina, até virar identidade.
A diferença é que a televisão tinha o aval social. Era aceita. Era “normal”. Você podia passar seis horas por dia vendo qualquer coisa — e digo qualquer coisa mesmo — que ninguém questionava. Mas experimentar passar duas horas no celular que o tribunal moral se reúne.
Por quê? Porque o celular é individual. É interativo. É incontrolável. E isso assusta quem cresceu acreditando que entretenimento de qualidade era aquele escolhido por outra pessoa, numa grade fixa, num horário determinado, sem direito a pausa ou avanço rápido.
O celular deu autonomia. E quem controlava a narrativa odiou isso.
A Questão Não É a Ferramenta. É a Nossa Incapacidade Crônica de Equilíbrio.
Aqui mora o ponto que ninguém quer encarar: o problema nunca foi a televisão. Não é o celular. Não será a próxima tecnologia que vier. O problema é que nós, como espécie, somos absolutamente incompetentes em moderação.
Dá prazer? A gente usa até não dar mais. Dá conforto? A gente mergulha até esquecer como é viver sem. Dá dopamina? A gente aperta o botão até gastar o dedo.
Seu pai não era menos viciado que você. Ele só era viciado em algo mais lento, mais passivo, mais chancelado socialmente. A mesma compulsão que te faz rolar feed infinito às três da manhã, fazia seu pai mudar de canal por horas sem parar, mesmo reclamando que “não tem nada pra ver”.
A ansiedade é a mesma. O vazio é o mesmo. A incapacidade de ficar em silêncio com os próprios pensamentos é a mesma.
Só que reconhecer isso seria reconhecer que talvez — só talvez — a culpa não seja da juventude mimada, da tecnologia diabólica, da geração perdida. Seria reconhecer que somos todos iguais nessa incompetência fundamental de saber quando parar.
E isso dói demais no ego.
Então Seguimos no Ciclo Infinito da Hipocrisia
A geração do controle remoto critica a geração da tela touch. Daqui a vinte anos, você vai reclamar do seu filho grudado em alguma tecnologia que ainda nem existe. Ele vai te achar ultrapassado. Você vai dizer que “no seu tempo era diferente”. E o ciclo recomeça, eternamente, porque ninguém aprende nada.
Ninguém quer admitir que o vício sempre esteve aqui. Que a necessidade de anestesia sempre existiu. Que cada época só encontra uma nova forma de fugir do tédio, da solidão, da realidade inconveniente de estar vivo e consciente.
Seus pais fugiram pela TV. Você foge pelo celular. Seus filhos vão fugir por algo que você ainda vai chamar de “o fim da civilização”.
E no fundo, nenhum de nós aprendeu a simplesmente estar. Sem tela. Sem distração. Sem fuga.
Porque equilíbrio é chato. Equilíbrio não dá views. Equilíbrio não vicia.
E talvez seja exatamente por isso que ninguém quer.
Euclides falou pra mãe que a televisão deixou ele burro demais. Ele estava certo. A gente só trocou de tela. A burrice continua a mesma.
