Por Fernando Maciel Vieira 

O curioso — e aqui está o dado que ninguém gosta de ouvir — é que o Brasil não falta em diagnóstico. Sobra. Temos relatórios, pesquisas, comparações internacionais, especialistas, congressos, seminários e simpósios sobre o que está errado e o que precisa mudar. O que o Brasil pratica com perfeição olímpica é o espaço entre saber e fazer. Esse intervalo generoso onde a intenção dorme, o mandato passa e o próximo gestor chega com um plano novo que resolve tudo — e começa do zero, porque continuidade é conceito que a política educacional brasileira trata como ameaça.

Existe uma categoria rara de pesquisadora que passa a vida inteira estudando o que faz a educação funcionar de verdade, publica livro atrás de livro com dados, comparações internacionais e conclusões tão óbvias que chegam a ser constrangedoras, e mesmo assim ninguém no poder parece ter lido nem a orelha. Linda Darling-Hammond é essa pesquisadora. Professora emérita de Stanford, referência mundial em formação docente, política educacional e avaliação, ela dedicou décadas a uma pergunta simples e devastadora: por que alguns países ensinam bem e outros ficam décadas prometendo que vão melhorar? O Brasil leu essa pergunta, entendeu perfeitamente e respondeu com outro plano decenal.

Darling-Hammond olhou para Finlândia, Cingapura, Coreia do Sul — esses países que aparecem sempre no topo do PISA com aquela cara de quem não está nem um pouco surpreso — e encontrou um padrão irritantemente simples: onde a educação funciona, professor é profissão respeitada, bem formada, bem paga e com autonomia de verdade. Não é segredo. Não é feitiçaria nórdica. É política pública com continuidade, financiamento e a radical ideia de que quem ensina merece ganhar mais do que quem estaciona carro. O Brasil leu isso também. Concordou em nota oficial. Aplaudiu em congresso educacional. E depois foi renovar o contrato temporário do professor substituto que cobre a vaga que não foi preenchida porque o concurso foi cancelado por corte de verba. Três vezes seguidas.

O que torna Darling-Hammond particularmente insuportável para quem gosta de desculpa fácil é que ela não aceita o argumento da pobreza como destino. Ela mostrou, com dados que doem, que países sem petróleo, sem território generoso e sem história de estabilidade política construíram sistemas educacionais de primeira linha porque decidiram que iam construir. Decisão. Essa palavrinha miúda que o Brasil substitui por intenção, que substitui por diretriz, que substitui por matriz curricular, que substitui por sigla nova a cada gestão. Temos o SAEB, o IDEB, a BNCC, o PNE, iniciais suficientes para ganhar no bingo e insuficientes para ensinar uma criança a ler com fluência até os oito anos — meta que o próprio país estabeleceu para si mesmo e não cumpriu com uma desenvoltura que só pode ser admirada.

A questão da avaliação, então, é onde Darling-Hammond fica mais elegantemente furiosa — e ela tem razão de ser. Ela argumenta que um sistema que usa prova padronizada para medir o desempenho de crianças que estudam em escola sem telhado e depois pune essa escola pelos resultados não está avaliando aprendizado, está avaliando desigualdade e fingindo que é mérito. O Brasil faz isso com maestria. Aplica o ENEM para o filho da escola pública de periferia e para o filho do cursinho de elite, coloca os dois na mesma fila e depois se surpreende com a diferença. É como organizar uma corrida de cem metros, colocar metade dos participantes com sapatilha e a outra metade com sandália de borracha, dar a largada e depois publicar relatório sobre o talento natural dos que chegaram primeiro.

E o professor brasileiro, no meio de tudo isso? Resiste. Compra pincel do próprio bolso. Xeroca apostila com dinheiro do próprio salário. Planeja aula no domingo à noite depois de um fim de semana que não foi de descanso. E ainda produz gente boa saindo dessas salas — não por causa do sistema, mas apesar dele, com uma teimosia pedagógica que deveria ser estudada como fenômeno científico. Darling-Hammond diria, com toda a gentileza de Stanford, que isso não é glória — é escândalo. Porque sistema que depende de heroísmo individual não é sistema, é aposta. E o Brasil leva décadas apostando na abnegação de quem ensina como se isso fosse política educacional. Não é. É transferência de responsabilidade com discurso de gratidão.

Linda Darling-Hammond nos deixa, no fim, com uma conclusão que é quase cruel na sua simplicidade: educação de qualidade não é sorte, não é cultura, não é genética escandinava. É escolha. É o que um país decide fazer quando decide de verdade — não em discurso, não em lei que não é financiada, não em meta que não tem prazo real — mas de verdade, com dinheiro, com tempo e com a seriedade de quem entendeu que nenhum outro investimento tem o retorno que esse tem.

O Brasil sabe disso. Sabe faz tempo. E talvez seja exatamente essa a parte mais brasileira dessa história — a gente sabe, a gente explica muito bem, a gente faz apresentação linda sobre o assunto, e aí o sinal bate, a aula acaba e a gente vai embora sem ter mudado nada, mas muito satisfeito com a discussão.

Na próxima gestão, a gente retoma.

Fernando Maciel Vieira é professor da rede pública estadual.