Estudar hoje é para os corajosos — e ninguém avisou que ia ser assim
01 março 2026 às 10h22

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Por Fernando Maciel vieira
Vamos ser honestos de uma vez, com a honestidade que dói e que liberta ao mesmo tempo: pedir a um jovem brasileiro de hoje que se sente numa cadeira escolar, abra um livro e pense no futuro é, em muitos casos, um ato de crueldade disfarçado de expectativa. É como pedir que alguém aprecie a paisagem enquanto está se afogando. O jovem que entra numa sala de aula carrega nas costas um peso que nenhuma mochila foi projetada para suportar — e a sociedade, com sua capacidade olímpica de fingir que não vê, continua perguntando por que ele não se concentra, por que ele não se esforça, por que ele não tem sonhos. Como se sonhar fosse um ato simples. Como se sonhar não custasse nada.
Esse jovem acorda cedo — quando acorda, porque muitos não dormiram de verdade — enfrenta transporte público que envergonha qualquer comparação civilizada, chega numa escola que às vezes não tem água no banheiro, senta numa cadeira que já viu três gerações passar, abre o celular porque a aula compete com o mundo inteiro em tempo real, e ainda recebe de brinde a cobrança de que não está fazendo o suficiente. Por fora, ele parece distraído. Por dentro, ele está gerenciando uma crise existencial que a maioria dos adultos ao redor nunca teve coragem de admitir que não sabe resolver. E nós, com toda a nossa sabedoria acumulada, oferecemos a ele um currículo. Como se isso bastasse.
A droga não aparece na vida do jovem porque ele é fraco. Aparece porque é eficiente. Essa frase vai incomodar muita gente, e precisa incomodar, porque é verdade. Num mundo onde a dor é real, imediata e sem endereço para ser entregue, qualquer coisa que prometa dois minutos de alívio vai ter fila. A neurociência é direta nesse ponto: o cérebro adolescente, ainda em formação, ainda construindo os circuitos do julgamento e da consequência, é biologicamente mais vulnerável à dependência do que o cérebro adulto. Não é escolha moral. É anatomia. E quando esse mesmo cérebro vive sob estresse crônico — fome, violência, abandono, humilhação — ele vai buscar o que alivia, porque sobreviver é o primeiro instinto, bem antes de qualquer projeto de vida que a escola tente oferecer.
O sexo na adolescência — outro assunto que os adultos adoram tratar em voz baixa, como se o sussurro tivesse algum efeito pedagógico — é parte da mesma equação. O jovem que não recebeu afeto consistente vai buscar pertencimento onde encontrar. O jovem que nunca ouviu que é valioso vai aceitar qualquer prova de que alguém o quer, mesmo que essa prova dure uma noite e deixe consequências que duram uma vida. A gravidez na adolescência não é acidente de descuido. É, na maioria das vezes, o resultado previsível de um jovem que não recebeu informação, não recebeu limite, não recebeu presença adulta suficiente para aprender que o corpo tem história e que escolhas têm peso. Simone de Beauvoir escreveu que não se nasce mulher, torna-se. Acrescentaria: não se nasce responsável, aprende-se. E aprender exige alguém que ensine — com paciência, com franqueza, com o respeito de tratar o jovem como ser pensante e não como problema a ser contido.
A falta de dinheiro, essa velha conhecida que ninguém convida mas sempre aparece, transforma o ato de estudar num exercício de resistência que beira o heroísmo. Estudar com fome é uma experiência que quem nunca teve não consegue imaginar de verdade — pode tentar, pode ter empatia, mas não sabe o peso real de tentar conjugar verbo enquanto o estômago faz barulho e a cabeça gira. O economista Amartya Sen demonstrou que pobreza não é apenas ausência de renda: é ausência de liberdade, de capacidade de escolha, de possibilidade real de projetar um futuro diferente do presente. Quando um jovem pobre olha para a escola e tenta enxergar nela uma saída, ele está fazendo um ato de fé que deveria ser reconhecido como extraordinário — e não tratado como obrigação banal.
E os sonhos? Os sonhos foram para onde? Essa talvez seja a ferida mais funda de todas, porque é a mais silenciosa. Não tem sintoma visível, não tem diagnóstico fácil, não aparece em estatística de evasão escolar. Mas está lá: uma geração que aprendeu muito cedo que sonhar é perigoso, porque sonho que não se realiza dói mais do que nunca ter sonhado. O jovem que cresce vendo promessas quebradas — de adultos, de políticos, de instituições, de Deus às vezes — aprende a encolher o desejo antes que ele se forme por completo. É uma estratégia de sobrevivimento emocional. É também uma tragédia coletiva que a sociedade prefere chamar de apatia, como se o problema fosse do jovem e não do mundo que ele herdou.
Viktor Frankl, que sobreviveu ao que há de mais cruel na experiência humana e ainda assim escreveu sobre sentido e esperança, dizia que o ser humano pode suportar qualquer como se souber o porquê. O problema da juventude contemporânea não é falta de capacidade. É falta de porquê. É a ausência de uma narrativa que faça sentido, que conecte o esforço de hoje com alguma recompensa possível amanhã. Quando o futuro parece uma palavra vaga demais, o presente imediato — a tela, a substância, o prazer rápido, a ilusão acessível — vence sem dificuldade. Não por fraqueza de caráter. Por lógica de quem aprendeu que o longo prazo é uma promessa que os adultos raramente cumprem.
As ilusões, essas sim, abundam. Abundam nas redes sociais que vendem estilo de vida como se fosse o padrão, no influenciador que ficou rico mostrando que não precisa de estudo, na narrativa de que o esforço é opcional e o talento nato resolve tudo. A ilusão é sedutora exatamente porque poupa o custo da realidade. E a realidade — com suas frustrações, seus prazos, suas exigências de persistência — nunca foi boa vendedora de si mesma. A escola tenta vender realidade num mercado dominado pela fantasia, e ainda se pergunta por que perde clientes. Não é que o jovem seja ingênuo demais para ver através da ilusão. É que a ilusão, muitas vezes, é a única coisa bonita que lhe ofereceram.
Estudar hoje, portanto, é um ato político. É uma teimosia quase revolucionária. O jovem que insiste em aprender, que atravessa tudo isso e ainda assim aparece, ainda assim tenta, ainda assim acredita que o conhecimento tem valor numa sociedade que desvaloriza o conhecimento — esse jovem é, objetivamente, mais corajoso do que qualquer discurso de palanque que finge se importar com ele a cada quatro anos. Ele não precisa de condescendência. Precisa de condição. Precisa de escola com estrutura, professor valorizado, prato de comida, saúde mental levada a sério, e de adultos que apareçam não para cobrar, mas para perguntar — com genuína curiosidade e sem agenda — como ele está.
Porque no fundo, o que o jovem mais precisa não está em nenhum currículo, em nenhuma reforma pedagógica, em nenhum projeto de lei. Está numa pergunta simples que custa zero e vale tudo: alguém, hoje, olhou para ele e perguntou — não pelo desempenho, não pela nota, não pelo futuro abstrato — mas por ele, agora, como está? Se a resposta for não, então o problema não é o jovem que não quer estudar. O problema somos nós, que ainda não aprendemos o básico.
