O barema me barrou, mas não me calou: confissões de um professor pesquisador em busca do santo graal acadêmico
07 fevereiro 2026 às 10h15

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Por Fernando Maciel Vieira
Permitam-me apresentar: sou Fernando Maciel Vieira, professor, pesquisador amador (no sentido etimológico: aquele que ama o que faz, não porque seja ruim no que faz) e candidato profissional a mestrando. Profissional porque já estou na segunda tentativa, e quando você erra uma vez na academia, automaticamente se torna especialista em processos seletivos – mesmo que seu barema discorde.
Decidi escrever este artigo para compartilhar minha saga épica rumo ao mestrado em Educação pela UFT de Palmas. Não se trata de um desabafo (tá bom, talvez um pouquinho), mas de um relato de sobrevivência acadêmica em terras brasileiras, onde sonhar com pós-graduação sendo professor temporário é quase como acreditar que vai sobrar dinheiro no fim do mês.
O Glamour do Contrato Temporário (ou: Como Viver de Esperança e Miojo)
Por mais de 15 anos, vivi a experiência única e emocionante do contrato temporário. Para quem não conhece esse universo paralelo, funciona assim: você trabalha dezembro inteiro, celebra o Natal, torce para o Ano Novo, espera janeiro passar, fevereiro também, e lá por março – se houver orçamento e boa vontade divina – recebe pelos dias trabalhados.
É tipo aqueles programas de milhagem de companhia aérea: você acumula pontos (dias trabalhados) e resgata depois (se lembrar da senha, se o sistema não cair, se a prefeitura/estado não quebrar). Nesse contexto, estudar para mestrado era tão viável quanto comprar um iate. Afinal, fazer pós-graduação exige três coisas que professor temporário não tem: dinheiro, tempo e estabilidade emocional para não surtar quando o contracheque atrasa.
Mas a vida dá voltas – e eu dei tantas que fiquei tonto. Aos 46 anos (idade em que deveria estar dando conselhos sábios, não pedindo referências bibliográficas), passei no concurso público do estado do Tocantins. Estudei até doer. Literalmente. Minhas costas ainda reclamam das horas debruçado sobre apostilas e minha vista nunca mais foi a mesma após a maratona de PDFs em letra miúda.
A Ilusão da Estabilidade e o Chamado do Mestrado
Passei no concurso e, em vez de relaxar como qualquer pessoa sensata, pensei: “Agora vai! Vou fazer mestrado!” Minha família me apoiava (bênção!), e finalmente a vida financeira permitia. Resolvi fazer uma disciplina como aluno especial para testar as águas. Resultado? Me encantei mais do que adolescente no primeiro amor.
Preparei projeto de pesquisa, organizei tudo, tive ajuda de todos (porque ninguém entra no mestrado sozinho, exceto gênios e mentirosos), fiz a inscrição e… aí veio ELE.
O Barema: O Vilão que Ninguém te Conta nos Contos de Fada Acadêmicos
Para os não iniciados nos mistérios da seleção de mestrado: existe uma criatura mitológica chamada BAREMA. Ele pontua suas publicações em revistas científicas e “outras coisinhas mais” (leia-se: tudo que você não tem quando mais precisa).
Eu tinha escrito aproximadamente cinco artigos. Cinco! Mandei para revistas científicas com a esperança de quem joga na Mega-Sena. E as respostas? Invariavelmente a mesma: “Seu artigo está fantástico! Incrível! Revolucionário! Mas… precisa de um doutor junto para publicar.”
Um doutor. Junto. Para. Publicar.
É o famoso Catch-22 acadêmico: para fazer mestrado, você precisa de publicações. Para publicar, você precisa de um doutor. Para conhecer um doutor disposto a coassinar seu artigo, você precisa… bem, de sorte, networking ou ser parente de alguém importante na academia.
Eu não tinha nada disso. Resultado? Meu barema ficou em módicos 0,5 de 10 pontos válidos. Só contaram meus anos de experiência como docente – que, aparentemente, valem menos que publicar “Análise epistemológica da educação fenomenológica pós-estruturalista” em revista Qualis A1.
A Entrevista: Quando Tiro 10 e Ainda Assim Perco
Mas sou valente (ou teimoso, dependendo do ponto de vista). Fui para a entrevista apresentar meu projeto. E fui verdadeiro com os professores da banca. Falei que meu projeto expressava a luta de um professor pesquisador que, após anos estudando e lutando, viu brotar aquela proposta de pesquisa.
Tirei 10 de 10 na entrevista!
Dez!
Perfeito!
Nem classificado fui.
Foi ali que aprendi uma lição valiosa: a vida acadêmica não é justa e definitivamente não é para os fracos de coração. Ou de barema.
Round 2: A Vingança do Professor Pesquisador
Este ano, volto com tudo. Estou escrevendo um novo projeto sobre políticas públicas, especificamente sobre o PNE (Plano Nacional de Educação) e sua relação com o SNE (Sistema Nacional de Educação) no período de 2016-2025. Sou basicamente Rocky Balboa da academia: apanhei, mas voltei para a luta.
Estou estudando como louco, mandando artigos para todo mundo (se você é doutor e está lendo isso, meu WhatsApp está aberto para coautorias – aceito até revisão de gramática em troca de uma assinatura). Cada tempinho que tenho, estou lendo, escrevendo, buscando.
Meus colegas professores devem me achar completamente insano. Em toda folga, estou lendo, ouvindo videoaulas, correndo para cumprir minhas obrigações como docente e depois estudar mais. Em casa, minha esposa deve estar reavaliando suas escolhas matrimoniais. Pilhas de papel por todo lado, e se sobra um tempinho, lá estou eu no computador, lendo e escrevendo, revisando e citando.
A Moral (Questionável) Dessa História
Sei que é um momento trabalhoso. Sei que pode não dar certo de novo. Mas também sei que, se não der, valeu pelo estudo. Porque eu acredito – ingenuamente, talvez – no poder transformador do conhecimento.
E para você que está lendo este artigo e se identificou com essa saga: estude. Vale a pena. Acredite em você, mesmo quando seu barema não acreditar. Mesmo quando as revistas exigirem um doutor que você não conhece. Mesmo quando a vida financeira apertar e o prazo da inscrição se aproximar.
Porque no final das contas, não fazemos mestrado só pelo título. Fazemos porque somos professores. E professores, por definição, são eternos estudantes. Ou eternamente loucos. Ou ambos.
Se gostou deste texto, compartilhe. Se não gostou, provavelmente é porque você já tem mestrado e doutorado e não lembra mais do sofrimento.
Nos vemos no mestrado. Ou na terceira tentativa.
Fernando Maciel Vieira é professor efetivo da rede estadual do Tocantins, pesquisador independente, especialista em resiliência acadêmica e detentor do recorde pessoal de 0,5 pontos no barema. Acredita que um dia as revistas científicas aceitarão artigos de professores sem exigir doutores de plantão.
