Fernando Maciel Vieira 

Havia, num reino não tão distante assim — talvez na distância de um espelho —, um povo que descobrira o segredo da felicidade eterna: nunca olhar para dentro. Chamavam aquele lugar de Vale dos Mil Reflexos, onde cada habitante carregava consigo um saco de sombras que insistiam em negar como suas.

O sábio do vilarejo, um velho mercador de ilusões chamado Mestre Projeção, ensinava: “Se a sombra é tua, jogue-a no vizinho. Se o defeito mora em ti, plante-o no outro. Assim viverás leve como pluma” — e o povo aplaudia, exausto, sem perceber que carregava não apenas suas próprias sombras, mas também as de todos os outros.

Naquele vale, floresciam negócios extraordinários. Havia a Escola do Milagre Instantâneo, onde ensinavam a enriquecer gastando (“Invista em você! Aquele curso de R$ 3.997 vai te fazer milionário!”), a emagrecer comendo (“Esta pizza de brócolis com borda de couve tem calorias negativas!”), e — a mais popular de todas — a Arte de Amadurecer Sem Crescer.

O Templo de Peter Pan era o mais frequentado. Ali, monges vestidos de adolescentes eternos ministravam o mantra sagrado: “Amadurecer é para amanhã. Hoje, vivamos como se responsabilidade fosse uma doença contagiosa que se evita com memes e séries intermináveis.”

Um dia, uma jovem chamada Cansaço — pois seus pais, irônicos, a batizaram com o nome do sentimento que melhor definia sua geração — perguntou ao Mestre Projeção:

— Senhor, por que estamos todos tão esgotados se seguimos à risca seus ensinamentos?

O velho mercador sorriu com a sabedoria de quem vende areia no deserto:

— Minha cara, é simples: estão cansados porque ainda não compraram o curso completo. Falta o módulo de “Como Descansar Trabalhando 18 Horas Por Dia” e o workshop de “Meditação Enquanto Dirige no Trânsito”. Apenas R$ 12 vezes de R$ 497!

Cansaço olhou ao redor. Via pessoas correndo em círculos, cada uma apontando o dedo para a outra, numa dança frenética de acusações. “O problema é dele!”, “A culpa é dela!”, “Eu não, você que é assim!” — e enquanto dançavam, tropeçavam nas próprias sombras que negavam, caindo e levantando, caindo e levantando, num balé de exaustão infinita.

Havia o Mercado das Mágicas Velhas, onde vendiam as mesmas promessas com embalagens diferentes: “Novo! Agora o mesmo truque de sempre com 30% mais glitter!”. E o povo comprava, porque acreditar que desta vez seria diferente doía menos que admitir que talvez o truque fosse olhar para dentro.

No centro da praça, erguia-se a estátua do Santo Procrastinador, padroeiro daquele povo. Em sua base, lia-se a inscrição sagrada: “Crescer dói. Amadurecer machuca. Portanto, deixemos para o amanhã que nunca chega. Amém.”

Cansaço, porém, começou a desconfiar. Observou que quanto mais as pessoas fugiam de suas sombras, mais sombrias se tornavam. Quanto mais projetavam seus defeitos nos outros, mais defeituosos se sentiam. Quanto mais buscavam milagres externos, mais miraculosamente vazios ficavam por dentro.

— Mestre — ela insistiu —, não seria mais simples apenas… crescer?

O Mestre Projeção estremeceu. Aquela palavra era proibida no reino.

— Crescer? — ele sussurrou, aterrorizado. — Mas crescer implica reconhecer que a sombra é minha, que o defeito habita em mim, que não há atalho mágico, que gastar não enriquece, que comer não emagrece, que amadurecer… dói.

— Exatamente — disse Cansaço, e pela primeira vez em anos, esboçou um sorriso que não era de exaustão.

— Mas se crescermos — balbuciou o mercador —, o que será de mim? De meus cursos? De minhas promessas?

— Tornar-se-ão desnecessários — ela respondeu, suavemente. — E talvez, só talvez, possamos finalmente descansar de verdade.

E assim termina a parábola do Vale dos Mil Reflexos, onde o povo ainda dança, ainda aponta dedos, ainda compra milagres em liquidação. Mas há, dizem as lendas, alguns poucos que acordaram do sono de Peter Pan.

Eles carregam suas próprias sombras — não sem dor, mas com dignidade. Amadurecem um pouco a cada dia — não sem medo, mas com coragem. E quando alguém lhes oferece a fórmula mágica de enriquecer gastando ou emagrecer comendo, eles simplesmente sorriem.

Sorriem porque descobriram o único milagre real: que crescer dói menos que viver fugindo para sempre.

Mas isso, é claro, só para amanhã decidiremos acreditar.


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* Fernando Maciel Vieira é professor da rede pública estadual.