Por: Fernando Maciel Vieira

Era uma vez um país onde caiu um raio. Não um raio qualquer, desses que partem árvores e apagam a luz do bairro. Não. Este tinha endereço certo, plateia garantida e, melhor ainda, câmeras em alta resolução. Caiu bem ao lado de um candidato em plena manifestação. E então, meus caros, começou o verdadeiro espetáculo.

A direita viu a mão de Deus. A esquerda viu a mão do fotógrafo. Teólogos de Instagram debateram versículos. Meteorologistas de sofá apresentaram laudos técnicos. Filósofos de comentário analisaram ontologia do fenômeno elétrico. Enquanto isso, o sistema de saúde seguia em frangalhos, a educação patinando, a economia no improviso e a infraestrutura… bem, a infraestrutura ao menos tem buracos suficientes para escoar a água da chuva que trouxe o raio.

Viramos uma nação de hermeneutas climáticos. Exegetas da voltagem. Enquanto Berlim planeja ser carbono zero em 2040 e Seul expande seu metrô, nós estamos aqui, adultos diplomados, discutindo se um raio era recado divino ou apenas um raio sendo… raio. Coisa que raios fazem desde que inventaram o céu.

A política virou isto: um jardim de infância onde a professora saiu e as crianças estão discutindo quem viu o unicórnio primeiro. “Eu vi!” “Não, eu vi!” “Era azul!” “Era rosa!” Enquanto isso, a escola está pegando fogo. Mas que importa? O unicórnio era azul.

Direita e esquerda, que deveriam disputar como construir pontes, disputam de que cor pintar as nuvens. O país precisa crescer, criar empregos, educar crianças, cuidar de idosos, pavimentar estradas, despoluir rios. Mas não. Nós temos coisa mais importante: decifrar a semiótica do raio.

Perdemos o senso do ridículo. E quando uma sociedade perde isso, perde junto o rumo civilizatório. Porque civilização se faz com esgoto tratado, não com interpretação de fenômenos atmosféricos. Com escola que funciona, não com teologia de ocasião. Com projetos de longo prazo, não com mitologia fabricada para consumo imediato das redes sociais.

O raio, coitado, já virou cinza no ar. Mas nós seguimos aqui, acampados na infância da razão, transformando meteorologia em batalha épica, enquanto o mundo real – esse com gente de verdade, com fome de verdade, com dor de verdade – segue esperando que os adultos voltem para a sala.

Talvez outro raio caia. Quem sabe desta vez acerte o alvo certo: nossa capacidade de acreditar em fábulas quando deveríamos estar resolvendo contas.