O seminarista que está fazendo o Texas rezar diferente — e o que o Brasil tem a aprender antes que a bênção vire…
23 março 2026 às 14h46

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Por: Fernando Maciel vieira
E aqui chegamos ao Brasil, caro leitor. A maior nação católica do planeta por séculos — um país que exportava Papas, Nossa Senhoras e procissões de quarenta graus. Hoje, os evangélicos serão maioria da população antes de 2030. Não é uma revolução espiritual silenciosa. É uma revolução política com altar, microfone, bancada no Congresso e advogado tributarista.
Imagine a cena: Texas, 2026. Um Estado que não elege um senador democrata desde 1988 — quando Tina Turner ainda estava no topo e ninguém sabia o que era internet. De repente aparece um sujeito de 36 anos, filho de mãe solteira, ex-professor de sexta série, seminarista presbiteriano, com mestrado em teologia e a santa audácia de citar o Evangelho de Mateus para defender saúde pública. No mesmo Estado onde os caras colocaram os Dez Mandamentos nas escolas públicas e acharam que isso, por si só, já os tornava cristãos.
Seu nome é James Talarico. E ele está aqui para roubar a Bíblia de volta.
Em fevereiro de 2026, Stephen Colbert o convidou para o Late Show. A rede CBS cancelou a entrevista alegando pressão da FCC — a agência reguladora que, convenientemente, virou braço político da Casa Branca em janeiro. O episódio vazou para o YouTube. O Texas acordou indignado. Em 24 horas, Talarico arrecadou US$ 2,5 milhões em doações.
O que os republicanos não perceberam — e raramente percebem — é que censurar um pastor é péssimo marketing. Toda a história cristã foi construída sobre mártires. Você prende um apóstolo, ele vira santo. Você censura um seminarista texano, ele vira viral. O Espírito Santo tem algoritmo próprio, e o alcance orgânico dele é impressionante.
Agora, Talarico diz em público que o nacionalismo cristão é antiamericano. O que é exatamente o tipo de frase que faz um senador republicano engasgar com o próprio café da manhã de inspiração bíblica.
A sacada dele é simples e quase irritantemente eficaz: ele não fugiu da religião. Invadiu o território. Não disse “separo fé e política.” Disse que usar o nome de Cristo para cortar o seguro saúde dos pobres é heresia. Resultado: o adversário não sabe reagir quando você fala mais Bíblia do que ele. É como tentar ganhar uma briga de faca de um cara que fabrica as facas.
E enquanto o campo democrata apostava na base, Talarico foi ao podcast de Joe Rogan — que sugeriu que ele concorresse à presidência. Rogan. O homem que entrevistou Trump com a mesma energia de quem convida o sogro para o churrasco. Quando Joe Rogan começa a torcer por um democrata seminarista, algo muito estranho — ou muito evangélico — está acontecendo no universo.
O argumento central dele também não é sobre esquerda versus direita. É cima contra baixo. “Os bilionários querem que a gente brigue entre si para não olhar para eles.” Isso funciona porque é verdade — e porque um fazendeiro republicano do interior do Texas consegue concordar antes de perceber que está aplaudindo um democrata. Aí já é tarde. A semente foi plantada. Aleluia.
A diferença crucial entre o que acontece no Texas e o que acontece aqui é de direção. Talarico usa a fé para apontar para cima, para os bilionários, para o poder. Aqui, boa parte do evangelismo político usa a fé para apontar para baixo — para o dízimo, para o inimigo cultural da semana, para o vizinho de costumes suspeitos. É uma teologia de combate que escolheu brigar com quem não tem nada, em nome de quem tem tudo.
O resultado aparece na votação nominal. Aborto virou pauta penal num país onde o estupro vitimiza mais de 65 mil mulheres por ano. O casamento civil entre pessoas do mesmo sexo vive sob ameaça permanente de retrocesso. A educação laica sofre pressão de currículos com viés confessional. E políticos que nunca pisaram numa favela defendem, em nome de Deus, pautas que empobrecem exatamente o eleitorado fiel que os sustenta nas urnas.
Isso tem nome. Chama-se nacionalismo cristão. E não é heresia só nos Estados Unidos.
O povo evangélico brasileiro, porém, não é monolítico — e esse é o ponto que a política insiste em ignorar. Existe um evangelismo periférico, antirracista, de base, que cresce nas favelas e nas quebradas e que não se reconhece nem um pouco nos pastores de jet particular e terno italiano. Esse eleitorado está ali, disponível, sem representação adequada, sendo cortejado pela direita com medo e pela esquerda com desprezo. É um campo aberto. É uma missão.
A única saída inteligente é entrar na conversa com honestidade — teológica e política. Não xingar quem crê. Não ignorar a fé como se fosse detalhe folclórico. E, principalmente, não tentar ganhar o debate bíblico sem ter lido o livro.
Talarico ainda tem que vencer a primária, depois o candidato republicano, depois convencer o Texas inteiro. As chances são pequenas. Mas em 1988 também eram.
Afinal, como dizia alguém muito citado ultimamente em Austin: com Deus, nada é impossível.
Amém. Ou não. Dependendo de quem está lendo.
E de quanto você deu de dízimo esse mês.
