Quem está mais em crise — a Escola ou a Família no processo de formação dos jovens?
26 março 2026 às 16h27

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Por Fernando Maciel Vieira*
Agora, com a brutalidade que o tema merece: nenhum dos dois está bem. A família brasileira atravessa uma crise de presença que nenhum aplicativo de controle parental resolve. Segundo dados do IBGE (2022), mais de 30% das crianças brasileiras vivem em lares monoparentais, majoritariamente chefiados por mulheres que trabalham em média 54 horas semanais quando somados trabalho remunerado e doméstico — conforme aponta o relatório Estatísticas de Gênero do próprio instituto. Essa mãe que chega em casa às 20h, depois de três conduções, não é negligente: ela é exausta. Mas a escola que recebe esse aluno às 7h da manhã e o trata como número de chamada também não é solução — é parte do problema com outros títulos. Jogar isso na cara uns dos outros sem olhar para a estrutura que produziu esse colapso simultâneo é, no mínimo, uma desonestidade intelectual com diploma emoldurado na parede.
O aluno, enquanto isso, vive uma experiência que nenhuma geração anterior viveu com essa intensidade: ele é hiperconectado ao mundo e profundamente desconectado dos adultos ao redor. A pesquisa TIC Kids Online Brasil (2023), do Cetic.br, mostra que 95% dos jovens entre 9 e 17 anos acessam a internet diariamente, e boa parte deles passa mais tempo com algoritmos do que com figuras de referência humana. O TikTok conhece os gostos do adolescente melhor do que o pai. O YouTube explica mais sobre a vida do que a escola. E aí, com toda a seriedade que o absurdo merece, a gente se surpreende com a crise de autoridade e de sentido que acomete essa geração? A questão não é a tecnologia em si — é o vácuo de presença adulta que ela vem preencher. Natureza, como se sabe, não admite vácuo. Algoritmo, também não.
E o professor? Ah, o professor. Esse profissional que a sociedade ama homenagear em outubro com aquela caixinha de bombom e odeia em fevereiro quando pede reajuste salarial. O Brasil forma, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), professores que ganham em média 40% menos que outros profissionais com formação equivalente. Pede-se a esse ser humano que seja pedagogo, psicólogo, assistente social, mediador de conflitos, especialista em inclusão, mestre em tecnologia educacional e ainda sorria para a foto do Dia dos Professores. Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia (1996), escreveu que “ensinar exige alegria e esperança.” Com todo o respeito ao mestre, fica difícil sustentar a esperança quando o teto da sala está caindo — às vezes literalmente. Segundo o Censo Escolar de 2023, mais de 40% das escolas públicas brasileiras não têm biblioteca e quase 30% não têm acesso à internet banda larga. A gente pede transformação social para uma instituição que não tem papel higiênico no banheiro.
Mas não pensemos que a família sai ilesa dessa análise. Há um fenômeno relativamente recente e delicioso em sua ironia que os pesquisadores chamam de parentalidade helicóptero — pais que sobrevoam cada milímetro da vida do filho, protegendo-o de qualquer frustração, e que ao mesmo tempo terceirizam integralmente a formação de valores, limites e caráter para a escola. É o pai que liga para reclamar da nota, mas nunca foi a uma reunião. É a mãe que exige que o professor entenda o filho, mas não sabe o nome da melhor amiga dele. A pesquisadora Diana Baumrind identificou décadas atrás que o estilo parental autoritativo — aquele que combina afeto com limites claros — é o que consistentemente produz jovens com maior resiliência, autoestima e desempenho escolar. Não é o estilo permissivo que confunde amor com ausência de consequências, nem o autoritário que confunde respeito com medo. É presença. E presença, infelizmente, não tem substituto tecnológico, pedagógico ou político.
Existe uma cena que se repete com uma regularidade quase cômica nos conselhos de classe, nas reuniões de pais e nas conversas de sala dos professores pelo Brasil afora: a escola culpa a família, a família culpa a escola, e o aluno, esse ser esquecido no meio do ringue, aproveita o caos para olhar o celular. É o espetáculo mais longo em cartaz no país — já passou de novela, virou saga, e ainda não tem previsão de encerramento. Enquanto os dois lados afinam os argumentos para a próxima rodada de acusações mútuas, a geração inteira escorrega pelo vão entre uma instituição e outra como moeda entre almofadas de sofá. E o melhor: todo mundo acha que está certo. A escola jura que educa apesar da família. A família jura que cria apesar da escola. E a criança, essa testemunha silenciosa de dois adultos brigando pelo controle remoto, cresce achando que o mundo é exatamente isso — um lugar onde os responsáveis nunca assumem responsabilidade.
A ciência, essa senhora que raramente é convidada para essas reuniões de pais, tem coisas interessantes a dizer. O psicólogo Urie Bronfenbrenner, com sua Teoria Bioecológica do Desenvolvimento, nos lembrava ainda nos anos 1970 que a criança não se desenvolve em um vácuo nem em uma única instituição — ela cresce na interação entre microssistemas, e quando esses sistemas entram em conflito, quem paga a conta é o desenvolvimento humano em si. Não é metáfora bonita para palestra de autoajuda: é dado. Quando escola e família operam como rivais em vez de parceiros, os efeitos cognitivos, emocionais e sociais sobre os jovens são mensuráveis e graves. Um estudo publicado no Journal of Educational Psychology (Jeynes, 2012) demonstrou que o envolvimento familiar consistente na vida escolar dos filhos aumenta o rendimento acadêmico de forma mais significativa do que qualquer método pedagógico isolado. Em outras palavras: o melhor currículo do mundo não substitui um adulto presente. Mas, convenhamos, ninguém quer ouvir isso quando está ocupado demais elaborando a próxima justificativa para a ausência.
Chega de apontar o dedo. Essa frase parece ingênua, mas carrega uma radicalidade que poucos querem enfrentar. Assumir corresponsabilidade significa que a escola precisa parar de esperar que a família chegue pronta, e a família precisa parar de esperar que a escola faça o que ela não quer fazer em casa. Significa que o Estado precisa parar de usar essa briga como desculpa para não investir em nenhum dos dois lados — porque, convenhamos, nada é mais conveniente para o poder público do que duas instituições ocupadas demais se culpando para cobrar o que é devido. Significa, também, que precisamos de políticas públicas que reconheçam a realidade das famílias brasileiras — diversas, sobrecarregadas, muitas vezes sozinhas — em vez de legislar com base em uma família de novela dos anos 1980 que nunca existiu de verdade.
John Dewey, o pai da educação progressiva, dizia que “a escola não é preparação para a vida — a escola é a própria vida.” Bonito. Mas a vida, no Brasil de 2026, é complexa, contraditória, cansada e cheia de WhatsApp de grupo. A escola que quiser ser a própria vida precisa aprender a conversar com a família que existe, não com a que ela gostaria que existisse. E a família que quiser participar da formação do filho precisa entrar pela porta da escola sem achar que isso é rendição — é civilização. O ringue está armado há tempo demais. Os únicos que perderam pontos até agora são as crianças. E elas, diferente de nós, não escolheram os adversários no canto delas.
*Fernando Maciel Vieira é professor da rede estadual de educação
