Retirada do comando de Cinthia Ribeiro do PSDB expõe limites do poder feminino na política tocantinense
24 fevereiro 2026 às 15h56

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Por Rafael Rezende
A política partidária brasileira opera por códigos não escritos. Um dos mais conhecidos é simples: ex-prefeitos de capital são ativos estratégicos. Têm visibilidade, densidade eleitoral, experiência executiva e capacidade de articulação. Quando um partido desautoriza uma liderança com esse perfil, o gesto não é neutro — ele comunica prioridades, valores e limites.
Foi esse sinal que o PSDB emitiu ao retirar o comando do diretório estadual do Tocantins da ex-prefeita Cínthia Ribeiro e entregá-lo ao deputado federal Vicentinho Júnior. A decisão pode até ser formalmente válida, mas é politicamente ruidosa — e seus efeitos ultrapassam o limite de uma reorganização interna.
Cínthia governou Palmas, venceu eleições majoritárias, enfrentou crises administrativas e políticas e deixou o cargo com capital político próprio. Independentemente de avaliações sobre sua gestão, esse lastro existe. Em ambientes partidários maduros, ele costuma ser preservado, não descartado. Ao ignorá-lo, o PSDB fragiliza a própria lógica de valorização do mérito e da competitividade eleitoral.
A pergunta que emerge não é retórica, é estrutural: se Cínthia fosse um ex-prefeito homem de capital, a intervenção teria ocorrido da mesma forma?
A experiência política brasileira indica que mulheres, mesmo quando alcançam o topo do poder executivo local, seguem mais vulneráveis a rearranjos abruptos, substituições e enquadramentos que raramente recaem com a mesma intensidade sobre lideranças masculinas em posição equivalente.
É necessário fazer um esclarecimento fundamental. O episódio não revela ausência de mulheres fortes na política tocantinense. Elas existem e ocupam posições centrais. A senadora Dorinha Seabra Rezende, pré-candidata ao governo, é uma das figuras mais relevantes do Estado no cenário nacional. A deputada estadual Janad Valcari construiu votação expressiva em Palmas e consolidou protagonismo local. Há, portanto, liderança feminina — e de peso.
O ponto sensível é outro. Nem mesmo mulheres com densidade eleitoral, mandato ou trajetória executiva estão plenamente protegidas quando ocupam espaços de comando partidário. O afastamento de uma ex-prefeita de capital cria um precedente que não atinge apenas quem foi diretamente removida — atinge todas, inclusive aquelas que hoje se encontram em posição de destaque, ainda que sejam adversárias políticas.
Há um aspecto raramente dito, mas essencial: a eventual candidatura de Cínthia Ribeiro não enfraqueceria outras mulheres na disputa política tocantinense — ao contrário, ampliaria o espaço feminino no debate estadual. Seria um fato inédito no Tocantins: uma mulher ex-prefeita de capital reposicionando-se para novos embates majoritários. Isso não reduz o protagonismo de outras lideranças femininas; fortalece o campo, amplia o repertório democrático e normaliza a presença de mulheres em disputas de alto nível.
Por isso, mesmo que adversárias não tenham se manifestado publicamente, o impacto do episódio as alcança. O golpe simbólico não foi apenas contra Cínthia, mas contra a ideia de permanência feminina no poder partidário. Quando uma mulher com esse histórico é afastada sem reação institucional relevante, a mensagem implícita é perigosa: o espaço existe, mas a estabilidade nele não é garantida.
Do ponto de vista estratégico, o PSDB também se fragiliza. Ao reduzir o protagonismo de uma liderança com capilaridade urbana e experiência executiva, o partido abdica de um ativo importante num cenário já competitivo. Do ponto de vista simbólico, o custo é ainda maior: reforça-se a percepção de que mulheres precisam provar mais — e, mesmo assim, contam com menos garantias — para ocupar e manter posições de comando.
Paradoxalmente, a manobra pode produzir o efeito inverso. Ao tentar enquadrar Cínthia Ribeiro, o partido a projeta. Ao tentar reduzir sua centralidade, amplia o debate sobre gênero, poder e democracia interna. Não se trata de vitimização, mas de leitura política: quem sofre uma intervenção desse porte passa a representar algo maior do que si mesma.
Hoje foi Cínthia. Amanhã pode ser qualquer outra mulher que ocupe o centro do tabuleiro político tocantinense. É esse precedente — e não apenas uma troca de comando — que deveria preocupar quem acredita em partidos fortes, democracia interna e igualdade real de condições na política.
Rafael Rezende é servidor público estadual e diretor jurídico sindicalista.
