Por Fernando Maciel Vieira

Se eu pudesse sentar por um instante ao lado de Jesus Cristo — não em um altar distante, mas em uma calçada qualquer, dessas onde a vida de verdade acontece — eu não pediria riquezas, nem poder, nem sequer justiça imediata. Eu pediria algo mais simples, mais difícil e mais urgente: amor.

Não esse amor que se posta, que se digita, que se declara em letras maiúsculas. O amor que age. Que levanta. Que suporta sem fazer barulho. Aquele que Coríntios descreve como paciente, benigno, que não inveja e não se irrita fácil. Um amor que não cabe em discurso, porque só aparece mesmo na prática silenciosa do dia a dia.

Porque, sendo honesto: está faltando amor.

Falta no trânsito, onde a buzina chega antes de qualquer gesto de empatia. Falta na fila, onde o outro é sempre um obstáculo e nunca um semelhante. Falta dentro de casa, onde às vezes dividimos o mesmo teto, mas não o mesmo cuidado.

E ao mesmo tempo sobra discurso sobre amor. Nunca se falou tanto, nunca se viveu tão pouco. É como se estivéssemos todos matriculados em um curso de boas intenções, mas com uma taxa de abandono enorme na hora da prática.

Agostinho dizia, com uma simplicidade que ainda assusta: “Ama e faze o que quiseres.” Mas acho que entendemos errado. Transformamos o amar em um sentimento conveniente, quando ele é, na verdade, uma exigência. Amar não é sentir vontade — é agir certo mesmo quando a vontade não aparece.

E nisso ele não está sozinho. No budismo, a compaixão também não depende de gostar do outro. Depende de reconhecê-lo como alguém que sofre, assim como você. É quase um convite a amar especialmente quando não há afinidade. Principalmente nesses casos.

Agora pensa no contrário. Não um país perfeito — um país atento. Onde alguém segura a porta não por automatismo, mas por consideração real. Onde o professor se importa com quem aprende, não só com o que ensina. Onde discordar não precisa destruir. Onde viver junto não é competir o tempo todo, mas coexistir com alguma dignidade.

A diferença entre esses dois mundos não está na economia. Está no modo como tratamos uns aos outros no detalhe invisível, no gesto que ninguém aplaude.

E aqui mora a ironia mais incômoda de todas: queremos um país melhor, mas não queremos ser melhores no miúdo. No minuto sem plateia.

Porque terceirizamos o amor. Esperamos que o outro ame primeiro. Que o governo ame. Que a sociedade mude. Que Deus resolva. E enquanto isso, adiamos o nosso turno indefinidamente.

Mas amor não funciona por delegação.

Ele começa quando alguém decide não devolver a grosseria. Quando alguém escuta antes de julgar. Quando alguém ajuda sem calcular o retorno. Pequenas coisas. Quase invisíveis. Mas são elas que mudam o ar de um lugar.

Porque no fim, a pergunta certa não é se o amor está faltando no mundo.

É se ele está faltando em mim, em você, em nós — hoje. E essa resposta não depende de ninguém além de quem a responde.