Por: Antônio Egno do Carmo Gomes

Neste breve texto desenvolvo um aspecto da intertextualidade relacionado à influência de escritores sobre outros e o consequente desenvolvimento daquilo que o crítico Antonio Candido chamou de sistema literário. Procuro mostrar que – 1) – por uma série de razões históricas, os romancistas tocantinenses foram privados do acesso aos textos mais diversos (romances, relatórios, cartas, biografias, relatos de viagens etc.) que representavam, desde o século 18, o espaço vital (geográfico e humano) do Tocantins; 2) por desconhecerem os autores e textos do passado, os escritores do Tocantins se viram sem uma herança literária e, finalmente, sem uma literatura para desenvolver; 3) desconectados com o passado e desprovidos de textos com os quais dialogar e reinventar, os escritores do Tocantins se encontraram desde 1988 e se encontram até a atualidade presos ao ineditismo, empatados por um verdadeiro monólogo artístico

Para apresentar o meu ponto vou dividi-lo em seis teses curtas.

  1. A primeira tese – A literatura tocantinense (e, no interior dela, a produção romanesca tocantinense) vive um ocaso. Para confirmar, basta conferir que dos cinco sentidos que o dicionário atribui à palavra ocaso –  1) o aparente declínio de um astro no horizonte; 2) o lado do horizonte onde o Sol parece esconder-se; 3) fim, final, limite; 4) diminuição ou perda de prestígio; descrédito, desprestígio;  5) enfraquecimento que leva à destruição; perda de influência, de poder; decadência – desses, apenas o termo fim nos parece pessimista, ou seja, exagerado. Pois não parece ser o caso de se afirmar categoricamente que o romance tocantinense tenha chegado ao seu fim. 

Mas é inegável que o romance brasileiro tocantinense perdeu brilho desde sua estreia fulgurante com Pium, em 1949. Agora, esse romance está escondido, com seus principais frutos fora de circulação e sumidos das estantes e das livrarias; trata-se de uma produção que não logra grande prestígio junto à crítica e ao público, nem local nem nacional; perdeu bastante de sua influência, pois não se sabe de muita gente lendo e se deixando influenciar por essa literatura fora dos círculos pragmáticos (como o da sala de aula). Trata-se, ainda que o nome nos assuste, de uma decadência, afinal de contas. Trata-se, portanto, queiramos ou não, de um ocaso. O ocaso da literatura e do romance brasileiro tocantinense. Essa a primeira tese. E ela é diagnóstico de um problema.

  1. A segunda tese tem a ver com a procura pelas causas do problema: por que o romance tocantinense veio a se encontrar nesse ocaso, ostracismo ou decadência? Com perdão da aparente afoiteza – pois o tempo desse ensaio curto não nos permite demonstrar com mais vagar – mas as causas do problema parecem estar no hiato ou na descontinuidade entre o passado e a contemporaneidade, fissura essa que acabou se agravando no interior dessa produção. Os romancistas tocantinenses desconhecem e/ou ignoram (no sentido de fingir que não se conhece ou se desprezar o conhecido) seu passado intelectual mais amplo e sua anterior produção romanesca. Antes de se falar sobre as consequências pontuais dessa falta de diálogo (já sugeridas na tese 1), seria válido discutir as causas dessa causa, ou as razões pelas quais os autores do Tocantins vieram a deixar de ler os textos dos seus colegas escritores do passado.
  2. Minha terceira tese é a de que isso – esse queimar a ponte que nos ligava com a nossa outra margem histórica – se deu em razão da emancipação política do Tocantins em relação a Goiás, com a consequente “necessidade”, criada durante o longo processo histórico em que essa emancipação se consolidou e efetivou, de fazer crer, a todo custo, que “o tocantinense não era goiano” – para usar uma expressão bastante significativa. Ao desmembrar o território, em 1988, o irmão liberto, Tocantins, sentiu ainda necessidade de amputar sua história comum e com ela a cultura (e, no interior desta, a literatura) que há mais de três séculos era patrimônio comum desses dois irmãos siameses.  
  3. Ainda em estilo parentético – isso me leva à quarta tese: “o sertão”, descrito por Saint-Hilaire, representado ficcionalmente por Bernardo Guimarães, relatado pelos governadores gerais de Vila Boa, percorrido de ponta a ponta por Lysias Ribeiro, radiografado por Carlota Carvalho e finalmente visitado pelos romances de Bernardo Élis, Leolídio Caiado, Eli Brasiliense e Mario Rizério Leite, dentre outros – o sertão goiano (ou do norte goiano) é o mesmo sertão tocantinense. A realidade geográfica, linguística, histórica e cultural do Goiás, preservada nesses autores e obras, é, sob certos aspectos, a mesma e serve para representar o homem e o território habitado antes e depois da emancipação política e administrativa de 1988. 

Em suma: o Tocantins já foi Goiás. Romper com esse passado é desprezar (no duplo sentido de desconhecer e fingir desconhecer) sua própria metade. É uma amputação drástica com gravíssimas consequências simbólicas e culturais. A prova disso é que, passados cerca de quarenta anos desde a divisão territorial, o Tocantins ainda não conseguiu criar uma identidade literária. Ainda não conseguiu curar a ferida da amputação. Nossa tímida produção romanesca evidencia que, apagado nosso passado comum com Goiás, não conseguimos ainda criar um futuro tocantinense próprio. Estamos condenados a reinventar o sertão, a falar sozinhos, ao solilóquio simbólico e literário.   

  1. E isso nos leva à penúltima tese – e que era, de fato, a tese a ser levantada nesse breve ensaio. O crítico Antonio Candido afirmou, em sua Formação da Literatura Brasileira, que para merecer ser chamada de literatura uma produção cultural precisa, além do público e dos textos literários em si, da ligação entre autores e obras, que se leem e visitam, que se comunicam e interagem entre si, gerando temas comuns, gerando uma tradição literária. Eu não chegaria ao ponto de, a partir daí, concluir, como o fez meu colega José Manuel Sanches, da UFNT, que não temos uma literatura no Tocantins. Pois nós temos público (ainda que pouco) e obras (ainda que poucas e mal visibilizadas) e temos até mesmo autores produzindo e conversando entre si. O que lamento é que seja um diálogo exclusivo entre coetâneos. O que nos falta apenas é retomar o passado, ler os romancistas do passado, os romances anteriores a 1988.
  2. Assim, minha sexta e última tese é de que temos um romance brasileiro no Tocantins (chamo-o assim pois ele é/foi goiano e nacional antes de ser tocantinense). Esse romance precisa ser lido e retomado pelos atuais escritores para que se fortaleçam os temas, se avive a herança comum, se proponham diálogos, retomadas, recuperações, paródias, paráfrases, alusões – intertextualidade, enfim, com nosso próprio cabedal de textos já produzidos sobre o espaço vital (geográfico e humano) do Tocantins. 

Com essas teses espero ter preparado as condições para mostrar as vertentes ainda inexploradas daqueles romancistas que mencionei acima. Alguns deles são quase desconhecidos entre nós, mas são todos muito promissores, produtores de obras cuja leitura e redescoberta poderia renovar a produção romanesca no Tocantins, quem sabe colocando-a em maior evidência no cenário cultural local e nacional. 

Mas indicar essas obras e discorrer sobre elas, mostrando como cada uma pode contribuir para renovar a produção romanesca do Tocantins, retirando-a do ocaso em que se encontra atualmente – bem, isso fica para um próximo trabalho.