Tocantins e a janela rara da terceira via
28 janeiro 2026 às 10h28

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Rafael Rezende
A política não tolera vazios: ela os transforma em oportunidade. O Tocantins atravessa um momento singular em sua história recente. Instabilidades institucionais, erros estratégicos acumulados e os limites naturais do ciclo de sucessão abriram espaço para algo incomum na política estadual: a possibilidade real de consolidação de uma terceira via competitiva ao Palácio Araguaia.
O governador Wanderlei Barbosa mantém índices relevantes de aprovação, mesmo após períodos de turbulência política e afastamentos judiciais temporários. Esse capital político decorre de uma característica central de sua gestão: a atuação multissetorial do Executivo. Wanderlei investiu simultaneamente em infraestrutura, fortalecimento da relação com prefeitos, presença constante no interior, diálogo com o funcionalismo público e estímulo ao turismo. A ampliação da temporada de praias, a melhoria de acessos rodoviários a regiões turísticas e a valorização de eventos regionais ajudaram a construir uma popularidade transversal no Estado.
O ponto sensível, contudo, não está na aprovação pessoal do governador, mas na capacidade de transferência desse capital eleitoral. A experiência recente demonstra que o apoio formal do governo, isoladamente, tem se revelado insuficiente para eleger candidatos a cargos majoritários, sobretudo nos principais centros urbanos. Em municípios estratégicos como Palmas, Paraíso do Tocantins, Porto Nacional e Araguaína, candidaturas associadas a arranjos políticos tradicionais — ainda que respaldadas pelo Executivo estadual — enfrentaram resistência do eleitorado. Não por rejeição direta ao governador, mas pela fadiga crescente com projetos percebidos como fruto de negociações de bastidor, sem identidade própria ou narrativa autônoma.
Durante o afastamento de Wanderlei, o governo interino exercido por Laurez Moreira teve uma oportunidade rara de se afirmar politicamente — oportunidade que, do ponto de vista eleitoral, foi pouco aproveitada. A agenda priorizada concentrou-se na reorganização das contas públicas, na contenção de despesas e no enfrentamento administrativo da crise da saúde, com revisão de contratos e passivos financeiros. Sob a ótica técnica, tratava-se de uma pauta correta. Politicamente, contudo, mostrou-se inadequada ao contexto de um governo interino, marcado por incerteza jurídica e horizonte reduzido de permanência.
O erro central não foi de diagnóstico administrativo, mas de leitura do tempo político. Um governo interino não dispõe do luxo de apostar apenas em políticas de médio e longo prazo. Exige entregas simbólicas, gestos claros de liderança e sinais inequívocos de valorização social — especialmente do funcionalismo público, segmento sensível e numericamente relevante no Tocantins. A manutenção de uma estratégia excessivamente focada em restrição orçamentária reforçou a percepção de continuidade burocrática, e não de protagonismo político.
Esse ponto ganha ainda mais relevância diante de um cenário que pode se materializar em breve. Caso Wanderlei Barbosa opte por disputar outro cargo eletivo em 2026 — seja o Senado ou a Câmara Federal — a legislação eleitoral exige sua renúncia até abril do ano eleitoral. Nessa hipótese, Laurez Moreira reassumiria o governo, não mais como interino de curtíssimo prazo, mas como chefe do Executivo com meses decisivos pela frente. Trata-se de uma segunda oportunidade política, qualitativamente distinta da primeira.
Diferentemente do período anterior, uma nova assunção exigiria mudança clara de estratégia. Se insistir no mesmo modelo — centrado apenas em contenção fiscal e gestão defensiva — Laurez tende a consolidar um desgaste definitivo. Se, porém, ajustar sua atuação, pode alterar o tabuleiro político.
Algumas estratégias seriam fundamentais para que essa nova oportunidade seja efetivamente aproveitada:
Primeiro, reposicionar a relação com o funcionalismo público. Em um Estado onde parcela expressiva do eleitorado está direta ou indiretamente ligada ao serviço público, não é politicamente sustentável governar sem uma agenda clara de valorização institucional. Isso não implica irresponsabilidade fiscal, mas sim previsibilidade: cronogramas transparentes, pactuação de avanços possíveis, gestos simbólicos de reconhecimento e comunicação clara.
Segundo, combinar responsabilidade fiscal com entregas visíveis. Mesmo com limitações orçamentárias, há espaço para ações de alto impacto político e baixo custo relativo: programas de manutenção urbana, retomada de obras paralisadas, fortalecimento de serviços essenciais e políticas de presença territorial. Governo precisa ser visto — e sentido.
Terceiro, assumir protagonismo político. Um governo interino prolongado não pode se comportar como administração de transição permanente. É preciso narrativa própria, discurso claro e capacidade de liderar o debate público estadual. Neutralidade excessiva, nesse contexto, tende a ser lida como fragilidade.
Esse elemento é decisivo porque o cenário eleitoral do Tocantins segue aberto. Territorialmente, embora o Estado tenha 139 municípios, a disputa pelo governo se estrutura em dois polos centrais: de um lado, Palmas e seu entorno imediato; de outro, Araguaína e o norte do Estado, com forte influência sobre o Bico do Papagaio. Perder simultaneamente nesses dois eixos costuma inviabilizar qualquer projeto majoritário.
Nesse tabuleiro, alguns nomes conhecidos apresentam limites claros. Ronaldo Dimas, reconhecido por sua atuação em infraestrutura, enfrenta resistência junto ao funcionalismo público. Amélio Cayres, embora institucionalmente forte como presidente da Assembleia Legislativa, ainda possui projeção concentrada no ambiente legislativo, com baixa popularidade espontânea fora dele.
Dorinha Seabra Rezende dispõe de ampla estrutura partidária, capilaridade institucional e apoio relevante de prefeitos em diversas regiões do Estado. Esse capital organizacional é expressivo, mas aparenta ter alcançado um limite de conversão em identificação espontânea junto ao eleitorado em escala estadual, sobretudo fora dos círculos políticos e administrativos. Trata-se de uma força mais estruturada do que popular.
É nesse contexto que a chamada terceira via encontra espaço. Para ser viável, ela precisa reunir três atributos essenciais: apelo popular direto, especialmente nos polos de Palmas e Araguaína; discurso equilibrado, capaz de dialogar tanto com obras quanto com gestão de pessoas; e histórico administrativo crível.
Nesse sentido, a ex-prefeita de Palmas Cinthia Ribeiro apresenta um perfil que merece atenção. Com experiência executiva consolidada na capital, base eleitoral própria e gestão multissetorial — incluindo infraestrutura urbana, políticas sociais, atenção ao funcionalismo e uso estratégico do turismo e de eventos como vetor econômico — Cinthia reúne atributos raros no atual cenário. Seu desafio, caso avance para a disputa estadual, será transformar força local em capilaridade regional, especialmente no norte do Tocantins.
Outro nome que aparece como fator de imprevisibilidade é o do deputado federal Vicentinho Júnior. Com trajetória sólida no Legislativo e forte articulação partidária, mas sem experiência no Executivo, sua viabilidade dependerá da capacidade de construir narrativa de gestão crível e ampliar apoio territorial.
A eleição para o governo do Tocantins, portanto, permanece em aberto. O governador mantém aprovação pessoal elevada, mas enfrenta limites na transferência de votos. O período interino anterior foi uma oportunidade perdida. Um eventual novo governo de Laurez Moreira poderá ser decisivo — para se afirmar como alternativa real ou para encerrar definitivamente essa possibilidade. E, nesse cenário fluido, a terceira via existe: é real, estratégica e exige leitura fina do tempo político.
Na política, as grandes viradas raramente são anunciadas.
Elas acontecem quando alguém entende o cenário antes dos outros.
* Rafael Rezende é servidor público do Estado do Tocantins e diretor jurídico sindical.
