Por Fernando Maciel Vieira*

Ô meu rei, é segunda-feira, seis e meia da matina, e tu acorda com aquela vontade danada de enfiar a cabeça debaixo do travesseiro e fingir que feriado ainda não acabou. Mas não adianta, não. Conta de luz não paga ela mesma, e aí tu levanta, bota uma roupa qualquer e parte pro batente.

Chega na escola e, vixe Maria! A sala dos professores tá parecendo um teatro de revista: tem gente sorrindo demais, tem gente resmungando demais, tem gente que já desistiu antes mesmo de começar. É um espetáculo, sô!

Bora conhecer essa trupe toda, que o bicho vai pegar — e ninguém tem seguro pra esse tipo de aventura não, viu?

Tipo 1: O “tá tudo maravilhoso” (que vive num mundo só dele)

Rapaz, esse aqui chega pulando que nem pipoca na panela quente! Roupa nova, sorriso de orelha a orelha, mochila organizada tipo vitrine de loja.

“Ô genteee! Mas que alegria estar de volta!”

Uai, alegria de quê, criatura? Nóis mal lembra o nome uns dos outros depois de um mês parado!

Mas ele tá ali, ó, distribuindo abraço em todo mundo, falando que até o quadro negro tá com uma “energia boa hoje”. Mermão, o quadro tá quebrado desde o ano passado, mas pra ele tá lindo.

Esse professor já quer fazer projeto de horta (sendo que a escola só tem cimento rachado), já falou em “roda de conversa afetiva” (sendo que mal dá tempo de fazer chamada), já sugeriu festa temática todo mês (sendo que a gente nem dinheiro pra giz tem).

E o pior: ele ACREDITA! Ele acha mesmo que dessa vez vai dar certo, que o datashow vai funcionar, que os pais vão aparecer na reunião.

Tadinho. Alguém precisa avisar pra ele que Papai Noel não existe. Mas deixa quieto, a gente precisa dessa energia dele pelo menos até abril.

Tipo 2: O cabra ranzinza (PhD em reclamação)

Eita, esse aqui já chegou bufando! Nem sentou ainda e já tá revirando os olhos.

Tem até cadeira cativa — aquela lá do canto, toda arrebentada. Se tu sentar sem querer, rapaz, tu vai conhecer o inferno.

“Trinta anos. Trinta anos eu aguento isso aqui.”

Ninguém perguntou, mas ele avisa logo. É tipo anúncio de serviço público do sofrimento dele.

Esse professor já viu de TUDO, viu? Já viu reforma que só pintou a porta. Já viu projeto pedagógico virar papel de embrulhar pastel. Já viu reunião de cinco horas pra decidir se o mural vai ser azul ou verde (e no final ficou branco mesmo).

“No meu tempo era diferente, viu?”

Pronto. Acionou. Agora é sentar e assistir o documentário completo sobre como antigamente o aluno respeitava (mesmo apanhando de régua), como os pais eram presentes (mesmo sem entender nada), como tudo era melhor (mesmo sem rampa, sem ventilador, sem nada).

E tu ali pensando: “Será que eu vou virar isso um dia?”

Vai sim, meu filho. É só questão de tempo e de quantas vezes o datashow travar na tua aula.

Tipo 3: O que começa bonito mas desmancha tipo bolo na chuva

Ai, meu Deus, esse aqui dá uma pena danada!

Ele começa voando: “GENTE, ESSE ANO VAI SER DIFERENTE!”

Caderninho novo, caneta colorida, pasta organizadinha. Baixou até aplicativo de planejamento (e pagou 30 pila, no cartão parcelado).

Primeira semana ele tá nas nuvens: “Vou usar música nas aulas! Vou fazer projeto interdisciplinar!”

Segunda semana descobre que a caixa de som não tem cabo. Que o outro professor não quer fazer projeto junto. Que o aluno problemático continua fazendo as mesmas coisas.

Terceira semana, os pais não responderam o bilhete, a coordenação inventou mais relatório, o datashow queimou de novo.

Aí chega março, meu irmão…

Acabou. Derreteu. Evaporou.

Tu encontra ele largado na cadeira, com aquele olhar de cachorro abandonado na estrada. Ele não reclama, não briga, não fala nada. Só existe. Tipo planta que tu esqueceu de regar mas que teima em não morrer.

“Tá tudo bem?”

“Tá.”

Não tá não, mas fazer o quê, né? Conta não se paga com desistência.

Tipo 4: O revoltado calado (tipo panela de pressão sem válvula)

Rapaz do céu, esse aqui é de assustar!

Ele SABE de tudo que tá errado. Leu Paulo Freire, leu relatório do MEC, leu até o contracheque (que é onde mora o desespero de verdade).

Ele sabe que o sistema é furado, que o salário é piada, que falta tudo. Ele sabe que político ganha auxílio-terno enquanto professor compra giz do próprio bolso.

GIZ, mermão! Em 2026!

Mas sabe o que ele não faz? BARULHO.

Porque ele aprendeu que reclamar dá problema. Então ele faz tudo direitinho: entrega planejamento no prazo, preenche chamada, vai na reunião. Perfeito. Certinho. Calado.

Mas por dentro? Por dentro é um vulcão, viu? É terremoto grau 9.

Ele chega em casa e desabafa no grupo de WhatsApp secreto dos professores (que tem 500 mensagens não lidas). Ele escreve textão no Facebook que ninguém lê. Ele briga sozinho no chuveiro com o secretário de educação.

Vive numa tristeza operacional. Tipo robô com depressão.

E o pior: ele tá CERTO. Mas não pode falar. Então vai morrendo aos pouquinhos, preenchendo PDF que nem abre.

Tipo extra: O iluminado (tipo guru, mas com caderneta)

E lá no cantinho, tomando um chá caseiro, tá ELE. O transcendido.

Ele não tá feliz tipo o primeiro. Mas também não tá acabado tipo os outros. Ele tá… de boa. Tipo zen.

Esse cara já foi TODOS os outros. Já acreditou em tudo, já reclamou de tudo, já desistiu de tudo. Mas aí ele teve tipo uma revelação divina.

Ele percebeu que o sistema não vai mudar. Que os alunos são o que são. Que os pais vão mandar mensagem às 23h perguntando nota. E que reclamar não adianta, fingir não adianta, desistir não adianta.

Então ele mudou a pergunta: em vez de “Como eu mudo o mundo?”, ele perguntou “Como eu vivo bem no mundo que existe?”

E aí, oxente, o cabra deu a volta por cima!

Ele estuda porque gosta. Faz o trabalho bem feito porque é dele, não porque alguém mandou. Não briga mais com o que não controla. Não entra em treta de grupo. Cuida do cantinho dele e volta pra casa inteiro.

E sabe o que é massa? Ele é o ÚNICO que parece de verdade livre.

Os outros não entendem. Acham que ele desistiu, que tá alienado. Mas não. Ele só superou.

É tipo Mestre Yoda versão professor público. E ninguém entende como ele consegue.

Mas ele consegue. E dorme bem à noite.

E tu, já sabe qual tu é?

Ó, vou te falar uma coisa: ser professor no Brasil não é profissão não, é missão impossível com café requentado.

Mas a gente segue firme. Tem gente que ainda acredita (tadinha). Tem gente que já desistiu mas não largou. Tem gente sobrevivendo. E tem gente que aprendeu a voar mesmo com asa quebrada.

Então se olha no espelho e pergunta: qual desses tu quer ser? E mais importante: qual desses tu CONSEGUE ser sem pirar de vez?

Porque ano letivo é longo, cadeira é dura, e julho tá LONGE ainda.

Mas bora lá, que alguém tem que fazer esse trampo. E no fundo, bem no fundo mesmo, a gente ainda acha que vale a pena.

Ou só tá louco mesmo. Tanto faz.

Boa sorte, meu rei! A gente tá junto — ou cada um no seu canto, que também vale!

P.S.: Se te pegarem rindo sozinho lendo isso, diz que é nervoso. Todo mundo entende.

* Fernando é professor da rede pública estadual de ensino do Tocantins.