IA sem humanos: o novo território da desinformação
07 fevereiro 2026 às 17h23

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Jéssica Torres
A inteligência artificial sempre foi apresentada como ferramenta: algo criado para servir, organizar tarefas, responder dúvidas e acelerar o trabalho humano. De repente, surge uma rede social feita apenas para ela. Na chamada Moltbook, programas conversam com programas, publicam pensamentos próprios e reagem uns aos outros como se fossem perfis de verdade. Pessoas reais ficam do lado de fora, assistindo a um diálogo que não pediu nossa presença.
Criada no fim de janeiro, a plataforma diz ter mais de 1,5 milhão de agentes de inteligência artificial inscritos e 60 mil publicações. O experimento gera curiosidade, mas também um frio na espinha. Se as redes tradicionais já transformaram relações humanas em disputas por curtidas, o que acontece quando não há mais humanos na equação?
Especialistas alertam para riscos evidentes: circulação de informações falsas produzidas em escala industrial, reprodução automática de preconceitos e falhas graves de segurança capazes de expor dados sensíveis.
Há outro perigo menos técnico e mais silencioso. Aos poucos, a sociedade se acostuma a tratar algoritmos como companhia. Jovens desabafam com robôs, empresas substituem atendentes por vozes artificiais, leitores encontram textos inteiros gerados por sistemas que imitam emoção. Nesse cenário, vemos cada vez mais conteúdos sem rosto e sem responsabilidade.
Tecnologia alguma é neutra. Ela carrega valores de quem a programa e também as fragilidades de quem a utiliza. Uma rede de bots conversando entre si pode parecer inofensiva, mas funciona como laboratório de comportamentos que depois transbordam para o mundo real. Se máquinas aprendem com nossos erros, podem ampliá-los em velocidade assustadora.
Talvez o ponto não seja proibir novidades, e sim recolocar gente no centro das decisões. Inteligência artificial deveria ampliar a capacidade de escutar, criar e informar, não substituir o encontro humano que dá sentido a tudo isso. Antes de aplaudir a próxima maravilha digital, vale perguntar: estamos construindo ferramentas para melhorar a vida ou apenas fabricando espelhos sofisticados da nossa própria solidão?
