Johann Wolfgang von Goethe, ao escrever “Os sofrimentos do jovem Werther”, não tinha como objetivo discutir política. No entanto, a força simbólica do romance ultrapassa o campo da literatura e nos permite refletir sobre a vida pública e as estruturas sociais que moldam o comportamento humano.

Werther é um jovem que se entrega por completo às paixões e aos impulsos. Sua incapacidade de se adaptar às convenções sociais e de encontrar equilíbrio entre emoção e razão o conduz a um estado de isolamento e desesperança. Esse percurso revela não apenas um drama individual, mas também uma crítica às instituições e às regras que regem a sociedade.

A política, nesse sentido, aparece como um jogo social. Werther tenta se inserir no mundo do trabalho e nas relações da alta sociedade, mas logo percebe que tudo lhe soa artificial e opressor. Sua revolta contra as “tramas da alta sociedade” é uma denúncia contra a política entendida como mera encenação, em que interesses particulares se sobrepõem ao bem comum.

O romance também nos mostra o choque entre o indivíduo e as instituições. Werther não consegue amar de forma saudável nem participar das regras sociais estabelecidas. Essa incapacidade de conciliar vida privada e vida pública reflete um dilema político: até que ponto as instituições devem moldar os indivíduos, e até que ponto os indivíduos podem resistir sem se destruir?

Outro ponto importante é a crítica ao fatalismo. Werther se entrega à ideia de que não há saída, de que sua dor é insuperável. Essa postura lembra sociedades que, diante de crises políticas, acreditam que nada pode mudar. O fatalismo, seja pessoal ou coletivo, conduz à autodestruição. A lição política aqui é clara, sem esperança e sem ação, a sociedade se paralisa e implode.

Por fim, Werther é o retrato de um homem dominado pela emoção. Sua tragédia mostra que a política não pode ser conduzida apenas por impulsos passionais. Ao mesmo tempo, também não pode ser reduzida a uma racionalidade fria que ignora os sentimentos humanos. O equilíbrio entre emoção e razão é essencial para que a política não se torne nem tirânica nem caótica.

“Os sofrimentos do jovem Werther” nos ensina que a política é, em última instância, uma arte de convivência. Quem, como Werther, não consegue se inserir no jogo social, acaba esmagado pelas engrenagens coletivas. Mas o romance também denuncia a crueldade de uma sociedade que não abre espaço para a autenticidade e para a sensibilidade.

Goethe nos convida a pensar a política não apenas como gestão de poder, mas como construção de um espaço em que os indivíduos possam viver sem serem destruídos por suas paixões ou pelas instituições. Werther nos alerta que quando a política ignora o humano, o resultado é tragédia.