Quando a culpa é sempre dela: a engrenagem moral que protege agressores
13 fevereiro 2026 às 11h32

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Existe algo profundamente revelador na velocidade com que parte da opinião pública corre para perguntar “o que ela fez?” sempre que um homem comete um crime brutal dentro da própria família. Antes mesmo de os fatos serem esclarecidos, antes do luto se assentar, antes de qualquer reflexão mínima sobre responsabilidade individual, surge a necessidade quase automática de procurar falhas na mulher: traiu? provocou? abandonou? não cuidou? não vigiou?
Esse movimento não é ingênuo. Ele cumpre uma função social.
Culpar a mulher — inclusive pela morte dos próprios filhos — não é apenas uma opinião impensada em rede social. É um mecanismo cultural que protege estruturas de poder. Quando alguém afirma que “ela tem parcela de culpa”, está fazendo mais do que comentar um fato: está deslocando a responsabilidade de quem apertou o gatilho para quem não estava com a arma. Está relativizando a agência do agressor. Está, ainda que inconscientemente, preservando uma narrativa em que homens reagem e mulheres provocam.
Esse raciocínio é perigoso porque transforma violência em consequência “compreensível”. A frase “não justifica, mas…” é uma das mais perversas do vocabulário moral contemporâneo. O “mas” abre uma fresta por onde entra a normalização. Ele não absolve formalmente, mas suaviza. Não defende explicitamente, mas explica demais. E explicar demais, nesse contexto, é retirar centralidade do ato violento e transferi-la para o comportamento feminino.
Quando o crime envolve filhos, o julgamento moral se intensifica. A maternidade é tratada como vigilância permanente, como responsabilidade absoluta e ininterrupta. Se algo acontece, pergunta-se: onde estava a mãe? Quase nunca se pergunta com a mesma força: por que o pai fez isso? A lógica é cruel — a mulher deve prevenir a violência masculina, mesmo quando a violência é decisão deliberada de um adulto plenamente responsável por seus atos.
Esse tipo de comentário revela algo ainda mais profundo: a crença de que o homem perde o controle porque foi humilhado, traído ou contrariado. Trata-se de uma visão de masculinidade frágil, construída sobre honra, posse e centralidade emocional. Se a identidade masculina depende da obediência feminina, qualquer ruptura vira ameaça existencial. E, nessa narrativa, a mulher que rompe expectativas passa a ser vista como gatilho da tragédia — nunca como sujeito autônomo.
Há também uma dimensão simbólica perturbadora. Ao sugerir que uma suposta traição poderia explicar um assassinato, estabelece-se uma hierarquia implícita de valores: a honra masculina acima da vida das crianças. Não é isso que se declara explicitamente, mas é isso que se comunica quando se busca justificativa moral em comportamentos da mulher para um ato extremo cometido pelo homem.
Esses discursos não surgem no vazio. Eles são sustentados por séculos de naturalização da desigualdade, por uma divisão social que atribui às mulheres o dever do cuidado e aos homens o direito ao controle. Quando essa ordem é tensionada — seja por autonomia feminina, seja por mudanças culturais — parte da sociedade reage com ressentimento. E esse ressentimento aparece nas redes sociais travestido de opinião.
É preciso dizer com clareza: ninguém mata por causa de uma traição. Ninguém executa filhos por falta de vigilância materna. Ninguém é empurrado para a violência por escolhas afetivas alheias. A violência é uma decisão. É um ato. É uma escolha.
Culpar a mulher pela violência masculina é uma forma de manter intacta a ideia de que homens não são totalmente responsáveis por seus próprios atos emocionais. É tratá-los como incapazes de autocontrole e, paradoxalmente, como senhores da ordem familiar. É um paternalismo invertido: absolve-se o agressor ao mesmo tempo em que se pune simbolicamente a mulher.
Mais grave ainda: esse tipo de comentário reabre feridas para quem já sofreu. Mulheres que vivem relações abusivas leem essas mensagens. Crianças que crescem em ambientes violentos leem essas mensagens. Ao naturalizar a culpabilização feminina, a sociedade envia um recado claro: se algo acontecer, a responsabilidade pode ser sua.
Isso não é liberdade de opinião. É reprodução de uma cultura que transforma vítimas em rés e agressores em personagens trágicos.
O debate público precisa amadurecer. Não se trata de censurar opiniões, mas de reconhecer que palavras constroem realidades. Quando repetimos narrativas que relativizam a violência de gênero, contribuímos para um ambiente em que ela encontra justificativas simbólicas.
A pergunta não deveria ser “o que ela fez?”, mas “por que ainda insistimos em protegê-los?”. Enquanto a culpa continuar mudando de endereço, a violência seguirá encontrando abrigo moral na sociedade que diz condená-la.
