O crescimento de discursos radicais e a intensificação da polarização política têm ampliado o debate sobre os riscos do extremismo para a democracia brasileira. Em um cenário marcado pela atuação de diferentes grupos políticos com opiniões distintas, pela disseminação de desinformação, por conflitos nas redes sociais e por episódios que colocam em xeque instituições democráticas, compreender as raízes desse fenômeno tornou-se uma necessidade urgente.

Para compreender como a filosofia pode ajudar a identificar narrativas radicais, fortalecer o diálogo público e promover uma cultura democrática, o Jornal Opção Tocantins entrevista a advogada e professora de filosofia e oratória, Ana Paula Leobas, que analisa os mecanismos que alimentam o extremismo e discute caminhos possíveis para enfrentá-lo sem abrir mão das liberdades fundamentais.

A especialista atua desde 2012 na capacitação de pessoas para o desenvolvimento pessoal e profissional, ministrando cursos de oratória, filosofia, ética e desenvolvimento humano pela Organização Internacional Nova Acrópole. Com ampla experiência como palestrante em temas como qualidade de vida, simbologia, política e ética, ela promove ações culturais e filosóficas em Palmas e já participou de eventos do Ministério Público Federal, Feira do Livro, Naturatins, Tribunal Regional Eleitoral do Tocantins, Tribunal de Justiça do Tocantins, Ordem dos Advogados do Brasil, entre outras instituições.

Ana Paula também integra o projeto nacional da Nova Acrópole no YouTube, canal que reúne mais de um milhão de inscritos. Com sua atuação, busca aproximar a filosofia da vida cotidiana e ampliar o acesso ao conhecimento voltado ao desenvolvimento humano.

O que a filosofia entende por extremismo? Existem diferenças entre radicalidade política e extremismo antidemocrático?

Essa pergunta é muito boa, porque remete a diversos filósofos. Para falarmos de política, não tem como fugir de Platão, que descreveu muito bem a saúde da vida política, e Aristóteles também. Percebemos que o extremismo político e a radicalização andam juntos, não só na vida política, mas também na forma como o indivíduo se relaciona com a própria vida. O extremismo surge quando a política deixa de buscar o bem comum.

A partir do momento em que nos entrincheiramos do nosso ponto de vista e acreditamos que já temos a verdade, caímos nesse tipo de radicalismo que é prejudicial para a sociedade. O filósofo parte do princípio de que “não sabe”. Sócrates foi considerado o homem mais sábio de Atenas porque tinha a coragem de dizer que não sabia.

A partir do momento que nos identificamos com uma ideia fechada, que gera esse radicalismo, e não abrimos espaço para perceber que desconhecemos mais do que conhecemos, caímos nesse problema que se reflete na vida política com a polarização excessiva e com o radicalismo que culmina em violência, e também individualmente quando deixamos de nos ver de forma completa.

Hoje vemos bastante esse radicalismo, com duas frentes muito distintas que tendem a ir ao extremo. Nunca há uma opinião branda, sempre uma posição extremista. Há algo que explica isso na sociedade atual?

Tem várias questões. Não chegamos até aqui por acaso; isso tem relação com a forma como somos educados. A educação moderna não desenvolve realmente uma inteligência humana, mas simplesmente uma formação prática para sermos profissionais e exercermos um papel na sociedade, não para desenvolver o melhor do ser humano.

Dentro dessa questão da política e das polarizações, vemos o empobrecimento do ser humano. Somos 8 bilhões de pessoas no mundo; será que dá para reduzir isso a apenas duas visões? Perdemos a nuance da vida, como se ela fosse só preto e branco, quando na verdade é riquíssima em cores.

Se fôssemos realmente mais humanos, talvez encontraríamos 8 bilhões de posições políticas distintas, e não apenas duas. Isso é um empobrecimento muito grande que reflete a forma como estamos vivendo.

Isso é complicado, porque, como nos entrincheiramos no ponto de vista de que “meu ponto de vista é o certo”, consideramos que quem pensa diferente é o errado. Criamos amigos e inimigos, e isso é o oposto do objetivo da política. Aristóteles dizia que o objetivo da política é gerar amizade na cidade.

Foto: Jornal Opção Tocantins

A política deveria ser a ciência que faz com que consigamos conviver com a diversidade, buscando sempre uma unidade, porque, querendo ou não, todos somos Brasil, todos somos humanidade.

Essas diferenças deveriam enriquecer nossa experiência, para juntos encontrarmos uma imagem para além delas. Mas, a partir do momento em que nos fechamos no nosso ponto de vista e consideramos o outro como inimigo, destruímos a sociedade, porque deixa de ser possível viver nela: cada um vira inimigo do outro, perde-se a confiança, perde-se tudo o que é necessário para uma sociedade harmônica.

Vemos muitos casos em que o extremismo político tem afetado famílias e relacionamentos. Qual sua opinião?

É muito triste. Confúcio dizia: “Se o indivíduo vai bem, a família vai bem. Se a família vai bem, a cidade vai bem. Se a cidade vai bem, o país vai bem.” Quando o indivíduo não está bem, isso se reflete em tudo.

Não somos mais um; sentimos que usamos máscaras. Sou um no trabalho, outro na família, outro no lazer. Essa divisão interna se reflete quando me relaciono com o outro. Se o outro — da minha família, do trabalho, um amigo — pensa diferente, não vou saber unificá-lo de alguma forma. As diferenças começam a se sobrepor ao que realmente nos une.
Isso parte do indivíduo e se reflete em tudo que fazemos.

Os discursos extremistas continuam sedutores, mesmo após crises, violência e retrocessos históricos. Por quê?

Porque é um atalho psicológico. Platão falava sobre isso na alegoria da caverna: existe a opinião e existe o conhecimento. O mundo da opinião é muito sedutor porque trabalha com nossas emoções, não com a razão.

Quando não temos um processo educacional que nos ensine a buscar a verdade, o que prevalece são nossos desejos e medos. Manipuladores se aproveitam disso para inflamar a população, que não quer pensar e nem sabe que deveria pensar.

Fica mais fácil viver achando que estou certa e que o outro é meu inimigo, sem buscar uma compreensão profunda da minha identidade humana ou me esforçar para compreender o outro. Isso empobrece nossa vida. Depois, nos sentimos vazios, como acontece hoje.

A vida foi esvaziada e os movimentos políticos exploram esse vazio, inflamam ainda mais, isolam as pessoas. O radicalismo nos isola; daqui a pouco ninguém presta, só eu estou certo. Não consigo mais conviver com ninguém.

Vemos isso em idosos que envelhecem mal: passam o tempo sem aprender a lidar com as diferenças e não conseguem conviver nem com os próprios filhos. Já quem envelhece bem tem brilho no olhar, gosta de todos juntos e busca unidade.

Mesmo com todo o acesso ao conhecimento e experiências, ainda existe essa barreira?

Sim, porque isso é essencial na filosofia platônica: conhecimento é diferente de opinião. Se Platão vivesse hoje, diria que temos pouquíssimos conhecimentos. Conhecimento tem a ver com ideias e não com informação.

O problema do mundo moderno é a supervalorização da vida intelectual como se fosse suficiente. Muita gente acha que ler um livro basta para aprender algo, quando sabemos intuitivamente que não. Você não quer fazer uma cirurgia com um médico que só leu um livro; você quer que ele tenha prática e experiência.

O verdadeiro conhecimento parte de uma vivência, de uma sabedoria diferente do conhecimento intelectual. Nossa educação valoriza apenas o técnico e perdemos a relação entre conhecimento e prática, distanciando-nos da sabedoria.

Há pessoas com títulos universitários que têm menos sabedoria do que uma pessoa analfabeta morando na roça. Sabedoria e conhecimento nem sempre andam juntos.

Foto: Rozeane Feitosa

É um reconhecimento público desse conhecimento que nem sempre vem de uma formação intelectual padrão. Também é possível adquirir conhecimento de outras maneiras.

Inclusive muitas descobertas científicas foram feitas assim. Einstein descobriu a teoria da relatividade fazendo a barba, não dentro de um laboratório.

Muitas coisas surgem de diferentes modos de percepção. Platão falava muito sobre isso: a mente humana é capaz de perceber a partir de diversos pontos de vista, não só do conhecimento racionalizado.

Perdemos a capacidade de perceber a vida por outros métodos: pela sensibilidade, pela beleza, pela bondade. Isso não é mais critério para definir o que é verdadeiro. Platão dizia que algo só pode ser verdadeiro se for bom, justo e belo. Se não tiver esses pontos, não pode ser verdadeiro.

A filosofia pode ajudar a identificar sinais precoces de radicalização? Quais são eles?

A primeira coisa importante de perceber é: estou convivendo bem com as pessoas ou não? Estou achando que todo mundo está errado ou estou querendo compreender as pessoas?
Confúcio, que foi contemporâneo de Platão e falava coisas semelhantes, dizia: “Não se preocupe se as pessoas não te compreenderem. Se preocupe se você não estiver compreendendo as pessoas.” 

O filósofo deveria se preocupar mais em compreender o outro e não em ser compreendido. A nossa preocupação egoísta normalmente é essa: “Ninguém me compreende, ninguém consegue me entender.”

Mas isso não importa. O que importa é quando você convive com uma pessoa que pensa diferente de você e você não entende o porquê. Isso não significa que você tem que concordar com ela. É como uma criança: você vê uma criança chorando por causa de uma boneca e não fica com raiva. Você entende, porque sabe que aquele momento é natural para ela pensar assim.
Quando vemos uma pessoa que pensa diferente, deveríamos partir desse princípio: por que não entendo essa pessoa? Qual é o ponto de vista dela que me impede de entender por que ela pensa assim? Muitas vezes descobrimos que ela passou por questões de vida difíceis, teve uma formação completamente diferente da nossa. Aí você fala: “Agora sei por que essa pessoa fez isso, por causa disso, disso e disso.” A partir daí pode nascer um diálogo. Antes disso, não: vira só discurso e debate.

Você havia falado a respeito do diálogo e do debate. Qual é a diferença entre esses dois lados?

O debate acontece para vencer o outro. O diálogo, não. O diálogo acontece por causa de dois lógos, de duas ideias. São duas ideias que vão se unir para criar uma terceira ideia. No plano das ideias, a vida se multiplica: 1 + 1 não é igual a 2, é igual a 3.

É mais ou menos assim: você tem uma ideia, eu tenho outra. E o diálogo possibilita que, ao nos encontrarmos, criemos uma terceira ideia. Nem eu estou certa, nem você está certa. Eu tenho a minha percepção da vida, você tem a sua. E quando nos relacionamos, isso aumenta e enriquece a vida. Ao enriquecer a vida, você continua pensando o que pensa, e eu continuo pensando o que penso — só que ambas com uma possibilidade maior de visão de mundo.

Por exemplo: um átomo de hidrogênio com um átomo de oxigênio, quando conseguem se harmonizar, criam outro elemento, que é a água. Sozinho, o hidrogênio não pode ser isso; sozinho, o oxigênio não pode ser isso. O hidrogênio não deixa de ser hidrogênio; o oxigênio não deixa de ser oxigênio. Mas os dois, juntos, mantendo sua identidade, criam algo novo — um terceiro elemento, que é a água. Nesse caso, 1 + 1 não foi igual a 2; foi igual a 3.

O diálogo é isso: duas ideias que se encontram, não deixam de ser elas mesmas, mas descobrem, pela união, algo novo que sozinhas não são capazes de gerar. Por isso o diálogo enriquece — e o debate desgasta, porque um pretende vencer o outro. Se o oxigênio vencer o hidrogênio, nunca haverá água. Sem água, não há vida; e sem isso não conseguimos fazer nada, porque o ser humano é composto de 70% de água.

O extremismo nasce mais da ignorância, da frustração social ou da manipulação emocional? Como a filosofia lê essa situação?

Tudo isso que você falou é um tipo de ignorância. A ignorância tem relação com essa falta de contato com quem nós somos de verdade. No meio de toda essa educação problemática que comentei, nós não sabemos quem somos. Vamos nos identificando com aquilo que gostamos.

Se eu gosto de tal coisa e alguém confirma o meu viés, é muito mais fácil eu cair nisso. Essa ignorância, essa relação errada que temos conosco mesmos, vai gerando toda essa problemática.

Qual é o papel da educação filosófica na prevenção de comportamentos extremistas?

É crucial, e esse é o nosso grande problema, porque nós não temos mais educação.
Plutão, que foi um filósofo grego, dizia que “a mente não é uma vasilha para ser enchida, mas um fogo para ser aceso”. E hoje fazemos exatamente o oposto. Vemos a escola com esse papel: a criança senta e recebe um monte de informação, e isso seria educação. Não, isso não é educação. Educação tem muito mais a ver com tirar do que colocar.

Educação vem de educar, de “eduzir”, tirar de dentro. Essa é a verdadeira educação: mostrar que já temos tudo dentro e que precisamos, através da educação, tirar o que nós não somos e lembrar quem somos. Platão chamava isso de reminiscência. Essa ideia de que já sabemos quem somos, que há algo dentro de nós que já sabe tudo.

A verdadeira educação é nos ajudar a olhar para isso e confiar mais nisso, e não olhar para fora tentando encontrar respostas para quem queremos ser, que é o que fazemos hoje. Olhamos para fora: para as pessoas que admiramos, para o que nossa família espera, para o que a sociedade espera, e tentamos cumprir essas expectativas sociais. Quando, na verdade, deveríamos, através da educação, aprender a olhar para nós mesmos e descobrir quem somos de verdade, o que nosso coração quer, e aprender a expressar isso. Provavelmente nossa família não sabe o que é isso, a sociedade não sabe, e nós também não temos uma forma, um método que nos ajude a encontrar isso dentro de nós. Esse é o papel da filosofia.

A educação filosófica tinha esse objetivo: ajudar cada um a encontrar dentro de si a sua verdade. Por isso a máxima grega: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo.”

A internet intensificou o extremismo? Como a filosofia enxerga a relação entre tecnologia e algoritmos?

Hoje vemos o algoritmo como novidade, mas percebemos que o que acontece agora sempre aconteceu na história em momentos de decadência. Sócrates foi morto pela democracia ateniense por conta de uma fake news. Hipátia de Alexandria, uma grande filósofa egípcia, também foi morta por causa de uma fake news.

Esse movimento sempre existiu. Giordano Bruno, Confúcio e vários filósofos que viveram em momentos de extremismo, de falta de conhecimento verdadeiro e de falta de sabedoria, sofreram consequências assim.

Hoje não se queima mais na fogueira, mas se queima na “fogueira” da internet, se cancela na internet. Os métodos mudaram. O algoritmo torna tudo mais acelerado porque é muito eficaz; tem todos os nossos dados e funciona com a tecnologia atual. Mas a essência sempre existiu, e a causa é a falta de sabedoria.

O extremismo se alimenta da falta de sentido. A ausência de pertencimento transforma as pessoas em alvos fáceis. Como podemos abordar isso?

Sim. Essa falta de identidade humana alimenta muito o extremismo. Como não sabemos quem somos, buscamos fora algo que dê sentido à vida.

Quando somos crianças, nossa identidade é a família. Quando começamos a conviver em sociedade, vamos para a escola e entramos em conflito com essa identidade anterior. A identidade da escola se choca com a identidade da família. Daqui a pouco, começamos a buscar nossa própria identidade.

Qual é a primeira coisa que o jovem faz? Rebele-se contra a família. Acha que o passado está errado. Os pais estão errados, a sociedade está errada. A pessoa se torna um rebelde dos padrões antigos, que percebeu que não são suficientes.

Foto: Arquivo pessoal/ Ana Paula Leobas

Como não temos uma educação adequada, chegamos à vida adulta muitas vezes ainda buscando identidade. Aí nos identificamos com algo que gostamos e começamos a nos rebelar contra tudo que não é aquilo que gostamos. Quando, na realidade, deveríamos buscar dentro de nós uma identidade que nos tornasse capazes de nos relacionar com tudo e com todos, porque não tem como viver isolado. Não tem como viver fragmentado do todo.

Essa falta de identidade causa esse tipo de extremismo. E os manipuladores, que querem ganhar com as pessoas sem identidade, usam todos os artifícios para manipulá-las, e elas nem percebem.

O ódio se tornou um capital político? Como a filosofia interpreta esse fenômeno?

Hoje existe até um termo nas redes sociais: o “hate bate”. Não existe nada que cause mais audiência hoje na internet do que o ódio. O ódio é um sentimento muito fácil, exige pouco de nós. Ele inflama, cega.

Os manipuladores sabem disso e tentam sempre alimentar essa audiência, que é o que se precisa para crescer na política e nas redes sociais. Utilizam esse ódio para crescer e manipular as pessoas.

Existe um documento, um estudo feito na época do nazismo. Isso é uma tática nazista, que se repete hoje, infelizmente. A melhor forma de crescer na internet é criar um inimigo em comum: criar “nós contra eles”. Hoje, se o mundo está dividido em dois, pelo menos 50% de audiência você terá. E 50% de 200 milhões de pessoas é muita gente.

É muito mais fácil fazer isso do que estimular as pessoas a pensarem e despertarem algo além do pensamento automático, porque trabalhar com consciência exige muito. É trabalhoso, é difícil, e nem todo mundo está disposto a crescer interiormente.

Esse ódio é muito usado para manipular e atacar de diversas formas. Mas isso também demonstra o vazio de quem usa.

Pós-verdade e a corrupção da confiança contribuem para um terreno fértil ao extremismo?

Com certeza. Hoje tudo se tornou uma questão de narrativa. A quantidade de informação disponível muitas vezes confunde mais do que orienta. Se a pessoa não possui discernimento para interpretar os fatos fora do campo emocional, torna-se muito mais vulnerável ao extremismo.

O medo — amplamente explorado por atores políticos — é um exemplo claro. Cria-se um grande espantalho para gerar pânico, repetindo insistentemente essa sensação. E, quando se está com medo, não se enxerga a realidade como ela é. Se alguém ouve um barulho em casa, pode imediatamente imaginar que é um bandido. O medo distorce a percepção.

Ódio, medo, desejo e interesses pessoais são ferramentas usadas pelos manipuladores. O desejo funciona como promessa: “você vai conquistar”, e a pessoa deixa de refletir.  Por isso as narrativas emocionais são utilizadas para manipular e empurrar indivíduos aos extremos, fazendo com que deixem de pensar de forma crítica.

Como promover diálogo com alguém radicalizado? A filosofia oferece estratégias reais para reabrir pontes?

Sim. Isso é possível quando se olha para a pessoa sem julgamento, com disposição para compreender com compaixão. Esse tipo de postura pode, eventualmente, retirá-la do radicalismo por meio do diálogo — algo que desaprendemos. Sabemos debater e discutir, mas não dialogar.

Se alguém parte do princípio de que não sabe tudo e encontra uma pessoa numa posição que considera equivocada, o sentimento não deveria ser rejeição, mas interesse. A reação comum é o afastamento, mas o ideal seria despertar curiosidade: “O que fez essa pessoa chegar a uma conclusão tão diferente da minha?”

Quando olho para você, vejo apenas uma parte. Não vejo o que está atrás. Talvez exista uma mecha loira que não enxergo. Se há curiosidade para ver o outro por inteiro, busco todos os ângulos. E posso me surpreender ao descobrir que aquela pessoa viveu experiências que geraram medo, e esse medo a tornou vulnerável a determinados discursos. Assim, ela foi dominada por esse pensamento.

Ao compreender isso, torna-se possível dialogar com base no ponto de vista do outro, mostrando de forma sutil — sem atacar — que aquele pensamento nasce de uma ferida ou experiência negativa, mas que a vida é maior do que isso.

Só é possível alcançar esse nível de diálogo se adotarmos a postura socrática: “Só sei que nada sei.”

Quando uma relação começa com julgamento — acreditando que o outro está errado e que apenas eu estou certo — o diálogo se torna impossível. A ponte não se constrói. E pode ocorrer o contrário: posso descobrir que o outro está certo em determinados aspectos, ou que sua percepção amplia a minha visão de mundo. Isso aumenta minhas possibilidades de compreensão.

 Esse processo só acontece quando aceito que não sei tudo e me coloco como buscador da verdade, que é a essência da filosofia.

O papel das emoções no extremismo é subestimado? Por que a política deixou de ser racional?


O motivo de a política ter deixado de ser racional tem relação com diversas questões que vêm de muito tempo. A nossa estrutura política e a nossa forma de educação contribuíram para que chegássemos a esse uso equivocado das emoções.

O que deveria nos unir — porque a única coisa que realmente nos une, como comentei no início, é que a política deveria ter como objetivo a união, a felicidade da cidade, a amizade da cidade — perdeu espaço para emoções usadas de forma superficial. Em vez de utilizarmos emoções profundas, utilizamos apenas dor e prazer, medo e desejo, ganância e interesses.

Deveríamos usar outro tipo de emoção, uma emoção mais humana: bondade, amor, harmonia, felicidade. Mas, devido a essa formação humana deficiente, caímos no que é mais fácil e passageiro. Nesse ponto, não há possibilidade de união. E os políticos, que por diferentes motivos estão hoje organizados dessa forma, sabem que as pessoas estão mais ignorantes, mais ligadas às emoções superficiais do que aos sentimentos profundos que realmente unem. E usam isso a seu favor.

Há risco de que o combate ao extremismo se torne ele próprio autoritário? Como evitar abusos?


Sim. Esse é justamente o problema. Platão trata disso na República, ao explicar como uma democracia pode entrar em decadência até se transformar em tirania. Isso acontece quando o controle passa a ser exercido pela violência, e não pela verdadeira educação ou pelo despertar do que há de melhor no ser humano.

É possível cair nesse caminho, porque a educação é necessária — assim como um pai precisa educar um filho. Mas essa educação pode ocorrer de forma violenta ou por meio da compreensão. Na sociedade, como não buscamos essa compreensão, a tendência é escorregarmos para a violência, e isso aumenta a ignorância e o descontentamento. É uma bomba prestes a explodir, como sempre ocorre em contextos de opressão: toda opressão gera algum tipo de rebelião.

A energia humana não deveria ser reprimida, e sim canalizada. Combater o extremismo não significa reprimir comportamentos, e sim direcionar essa energia para algo maior. O ser humano não foi feito para ser adestrado; foi feito para ser educado. Quando não entendemos isso, o resultado é mais violência — e é o que se observa no mundo atual: guerras, rupturas familiares e relações destruídas. Nada disso é por acaso.

O extremismo nasce nos líderes ou nas bases sociais? O que a filosofia política ensina sobre essa dinâmica?

O extremismo nasce de dentro do ser humano. Platão afirma que a sociedade é um indivíduo ampliado. A conhecida frase “cada povo tem o governo que merece” reflete essa ideia. O que acontece externamente é apenas um reflexo do que existe internamente. A vida de cada pessoa é um espelho do que ocorre dentro dela, porque as ideias são o que movem o mundo.

Se algo externo não ressoa com o que está dentro de cada indivíduo, não há impacto social. Portanto, tudo começa no interior humano. Se desejamos uma sociedade harmônica, capaz de dialogar e de compreender o outro, precisamos de pessoas harmônicas e compreensivas. É um trabalho simultaneamente interno e externo. Influências externas existem, mas também existe uma força interior que precisa ser desenvolvida. A harmonia nasce do equilíbrio entre esses dois movimentos.

Como cultivar pensamento crítico em tempos de polarização? A filosofia ainda disputa espaço com narrativas extremistas?

Sim. E há casos concretos que mostram isso. A Nova Acrópole tem experiência nesse sentido: o canal no YouTube reúne mais de 1,5 milhão de inscritos e a instituição conta com mais de 10 mil alunos no Brasil. Isso demonstra que existe um público disposto a buscar reflexão, consciência e harmonia fora das polarizações.

A filosofia ensina que, quando alguém acredita que sua visão é absolutamente correta e que a do outro está totalmente errada, já existe ignorância. O diálogo verdadeiro exige reconhecer que nenhuma pessoa é detentora da verdade completa.

Se as polarizações produzissem algo fecundo, a sociedade estaria melhor. Hoje existe liberdade total para criticar, apontar falhas e expressar indignação nas redes sociais — mas isso não gerou mais fraternidade. Pelo contrário: a ignorância aumentou, o vazio existencial cresceu, o conflito se intensificou.

Apontar o erro do outro não transforma a sociedade. É preciso admitir que há muitos problemas a serem enfrentados, mas também reconhecer que ninguém possui a verdade inteira. O pensamento crítico nasce da disposição de ouvir, conversar e construir respostas conjuntas — respostas que ainda não temos, mas que só podem surgir quando aceitamos que não sabemos tudo.

Gostaria de acrescentar algo que não foi perguntado?

Agradeço a oportunidade de abordar esse tema. Hoje a política é tratada como um mal necessário, mas ela é uma ciência dedicada à unidade. O ser humano é, por essência, um ser político. Precisamos retomar a política como campo científico.

Em qualquer área da ciência, ninguém aprende por tentativa e erro. Um cirurgião não aprende assim. Ele busca tradição, conhecimento, métodos. Na política, porém, abandonou-se essa noção. Passou-se a acreditar que a sociedade pode ser conduzida por improviso, quando, na verdade, já existem reflexões profundas deixadas por estadistas, filósofos e pensadores ao longo da história — reflexões que podem nos ajudar hoje.

Infelizmente, essa visão foi perdida, e isso gera prejuízos que afetam todos. É essencial cultivar fraternidade, reconhecer a necessidade de união e aprender a lidar com a diversidade humana. A filosofia, mãe de todas as ciências, é o caminho para resgatar a política como ciência da convivência e da construção de um bem comum.