Trocamos o professor pelo algoritmo e viramos uma sociedade de ilusões
31 março 2026 às 10h07

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Por Fernando Maciel Vieira
A chamada “sociedade do conhecimento” é o maior golpe de marketing do século XXI. Ela não produziu pessoas mais sábias — produziu pessoas mais convictas. E existe uma diferença abissal entre essas duas coisas. Saber exige humildade, método, tempo, revisão, dúvida. Convicção exige apenas um algoritmo bem calibrado e um ego razoavelmente inflado. O resultado é uma civilização inteira de especialistas de sofá, cada um com sua própria realidade personalizada, entregue em notificações, completamente convencido de que os outros é que estão sendo manipulados.
Vivemos na era em que qualquer pessoa com Wi-Fi e uma opinião forte acredita ser um intelectual. Nunca a humanidade teve acesso a tanto conteúdo e, ao mesmo tempo, entendeu tão pouco do que consome. Você assiste a um documentário de 40 minutos no Netflix e de repente tem “uma visão crítica sobre geopolítica”. Você lê três posts no Instagram e já se considera apto a debater epistemologia, vacinas, economia e o colapso do Ocidente — tudo antes do café da manhã. Parabéns. Você não aprendeu nada. Você apenas se sentiu aprendendo, que é exatamente o produto que estão te vendendo.
Neil Postman já avisava nos anos 1980, no seu livro Amusing Ourselves to Death, que o grande perigo não seria uma ditadura que proíbe a informação, mas uma cultura que afoga o pensamento em entretenimento. Ele estava certo, e com folga. O que Postman não previu é que o entretenimento vestiria terno e gravata e se apresentaria como jornalismo, educação e consciência política. Hoje, a alienação tem podcast, tem estética minimalista e usa palavras como “desconstrução” sem saber o que o Derrida quis dizer com isso — mas tudo bem, porque o Derrida também dificilmente saberia explicar em 15 segundos com uma trilha sonora motivacional.
O problema não é a tecnologia em si. A imprensa de Gutenberg também assustou a Igreja porque democratizava a palavra escrita. A diferença é que a imprensa criou leitores. O algoritmo cria consumidores. E consumidor não questiona — ele clica, compartilha e se sente engajado. Estudos do Instituto Reuters apontam que a maioria das pessoas compartilha notícias sem ler além do título. Não é preguiça. É que o título já entregou o que o cérebro queria: a confirmação do que já acreditava. O resto é detalhe, e detalhes são chatos.
Confundimos opinião com análise, narrativa com fato, e indignação com pensamento crítico. A indignação, aliás, virou a moeda mais valiosa da internet. Ela é rápida, contagiante, dispensa argumentação e gera engajamento fenomenal. Não é coincidência que as plataformas digitais tenham sido projetadas para amplificá-la — um estudo publicado na revista Science em 2018 mostrou que notícias falsas se espalhavam seis vezes mais rápido do que notícias verdadeiras no Twitter. Seis vezes. A mentira não ganhou da verdade por acidente. Ela ganhou porque é mais dramática, mais simples e, acima de tudo, mais palatável.
E aqui está a ironia suprema que deveria nos envergonhar coletivamente: nunca tivemos tanto acesso a bibliotecas inteiras, a universidades abertas, a textos científicos gratuitos, a obras completas de filósofos mortos há séculos — e escolhemos, democraticamente, consumir vídeos de três minutos explicando “tudo o que você precisa saber sobre a consciência humana”. A liberdade de escolha virou a liberdade de escolher a ignorância com mais eficiência do que qualquer ditador sonhou em impor.
Não vivemos numa sociedade do conhecimento. Vivemos numa sociedade da ilusão do conhecimento — o que é infinitamente mais perigoso. Porque o ignorante que sabe que é ignorante ainda pode aprender. O ignorante convicto de que sabe não tem mais para onde ir. Ele já chegou. E está no Instagram explicando isso para você agora mesmo.
