O Banco de Brasília (BRB) realizou a venda de aproximadamente R$ 5 bilhões em ativos considerados de alta qualidade como medida para enfrentar a saída de recursos registrada após a liquidação do banco Master e a deflagração da Operação Compliance Zero, que resultou no afastamento do então presidente da instituição, Paulo Henrique Costa, sob suspeita de irregularidades. A operação teve como finalidade atender aos resgates de correntistas e investidores e reforçar a liquidez do banco público.

Pessoas próximas ao BRB admitem que o episódio provocou uma crise de confiança, mas destacam que a instituição mantém uma carteira relevante de ativos valorizados, com boa aceitação no mercado, o que permite sua venda de forma relativamente rápida para conter a redução de caixa.

Além disso, o BRB negocia a alienação de cerca de R$ 1 bilhão em carteiras de crédito concedido a Estados e municípios, com garantias do Tesouro Nacional, para os bancos Itaú e Bradesco. A informação foi revelada pelo Estadão. Com a operação, o banco poderia levantar aproximadamente R$ 730 milhões, valor correspondente ao preço presente das carteiras. Segundo apurações, o Tesouro já sinalizou favoravelmente, restando apenas a formalização da troca de titularidade.

Paralelamente, a instituição tenta se desfazer dos ativos adquiridos do Master, em meio a dúvidas sobre o valor real desses investimentos em relação ao montante desembolsado. O atual presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, esteve em São Paulo na última quarta-feira, 4, onde manteve reuniões com bancos públicos e privados para tratar da possível venda desses ativos.

O conjunto dessas medidas busca aumentar a liquidez do banco e reduzir o seu porte, diminuindo, assim, a necessidade de novos aportes de capital por parte do controlador, o governo do Distrito Federal. Conforme apontado pelo Estadão, o Executivo distrital enfrenta restrições de caixa.

Nesta sexta-feira, 6, o BRB deve apresentar ao Banco Central um conjunto de alternativas para os aportes de capital necessários. Entre as propostas em análise estão a constituição de um fundo imobiliário com terrenos e imóveis do governo do Distrito Federal (GDF), que seria transferido ao banco; aportes diretos do Tesouro do GDF; e a contratação de empréstimo do governo distrital junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Todas essas medidas dependem de aprovação da Câmara Legislativa do DF.

A finalidade desses aportes é elevar o patrimônio líquido do banco, que corresponde aos recursos dos acionistas dentro da instituição. O BRB precisa divulgar o balanço referente ao exercício de 2025 até o dia 31 de março e pretende apresentar, nessa data, os números já contemplando uma solução para os efeitos da operação envolvendo o Master.

Consignado e saque-FGTS

De acordo com informações apuradas pelo Estadão, os R$ 5 bilhões obtidos recentemente tiveram origem na venda de carteiras de crédito consignado e de antecipação de saque do FGTS que integravam o balanço do BRB. Esses ativos são classificados pelo mercado financeiro como de baixo risco, o que garante elevada liquidez e facilita sua negociação.

Em situações de perda de confiança, quando há retirada de recursos por parte de clientes e investidores, as instituições financeiras recorrem à venda de ativos para honrar compromissos e cumprir as exigências prudenciais estabelecidas pelo Banco Central.

Relatos de pessoas próximas à alta administração indicam que o presidente Nelson Antônio de Souza avalia que o momento mais crítico da crise de confiança já foi superado, com a normalização das operações e o retorno de antigos clientes. Ainda assim, o banco aguarda a conclusão de uma auditoria externa para definir o valor exato da precificação dos ativos adquiridos do Master.

O BRB havia comprado R$ 12,2 bilhões em créditos considerados inexistentes do Master, mas, após negociações com o Banco Central, esses créditos foram substituídos por outros ativos, que totalizaram cerca de R$ 10 bilhões. Adicionalmente, o Master ofereceu R$ 10 bilhões em garantias extras ao BRB. Como o banco entrou em colapso sob suspeitas de fraudes, a auditoria ainda analisa a qualidade desses ativos.

Em depoimento à Polícia Federal, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, afirmou que o BRB pode apresentar um déficit de até R$ 5 bilhões em seu balanço em decorrência das operações realizadas com o Master.

Caso o BRB consiga concluir a venda desses ativos, a necessidade de novos aportes de capital tende a ser reduzida. Por esse motivo, a alienação desses papéis figura entre as principais prioridades da atual gestão. Fontes ligadas à cúpula da instituição informam que há tratativas com diferentes grupos financeiros, entre eles BTG Pactual, XP Investimentos, Bradesco, Itaú, além de Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil.

A orientação estratégica adotada a partir de agora prevê o reposicionamento do BRB como um banco de atuação regional, em contraste com o plano da gestão anterior, que buscava ampliar a presença da instituição em âmbito nacional, especialmente na região Nordeste. A fusão com o Master, posteriormente vetada pelo Banco Central, estava inserida nesse projeto de expansão.