A repercussão das declarações da diretora da Escola Municipal Odair Lúcio, em Gurupi, dominou os debates da sessão ordinária da Câmara Municipal realizada nesta quarta-feira, 4. O caso, envolvendo falas consideradas capacitistas sobre crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), mobilizou vereadores, familiares de alunos e representantes do Instituto Via Autismo, que acompanharam a discussão no plenário.

A então diretora da unidade, Carla Martins de Barros, havia publicado vídeos nas redes sociais nos quais classificou o autismo como transtorno “da moda” e afirmou que todas as crianças devem receber o mesmo tipo de tratamento. Em outro trecho, declarou que “limite todo ser humano precisa ter” e que não sairia de casa “para apanhar”, ao comentar supostos episódios de agressividade envolvendo alunos. As falas geraram forte reação de pais e de entidades ligadas à defesa dos direitos das pessoas com TEA.

Durante a sessão, vereadores manifestaram repúdio às declarações e afirmaram que o conteúdo é incompatível com a função pública e com a legislação federal que assegura direitos às pessoas com autismo. Parte dos parlamentares defendeu que a gestora apresente pedido público de desculpas às famílias e ressaltou que o ambiente escolar deve ser pautado pelo acolhimento e pela inclusão.

O presidente da Casa, Ivanilson Marinho, anunciou a criação de uma comissão de vereadores para acompanhar a sindicância instaurada pela Prefeitura. Declararam-se disponíveis para compor o grupo os vereadores Débora Ribeiro, Célia Lima, Rodrigo Maciel e Pedro Moraes. Também foi encaminhado ao gabinete da prefeita Josi Nunes um ofício do Instituto Via Autismo solicitando a abertura imediata de Processo Administrativo Disciplinar (PAD) e o afastamento da diretora.

A sessão também contou com o relato da mãe Alessandra, que afirmou que o filho teria chegado machucado da escola e que, ao buscar esclarecimentos, ouviu da diretora que a criança “seria presa” caso agredisse alguém. O presidente determinou que o depoimento fosse formalmente registrado e anexado à apuração.

Além da comissão temporária para acompanhar o caso, vereadores propuseram a realização de audiência pública para debater o autismo e ouvir as famílias, bem como a criação de uma comissão permanente de educação no novo regimento interno da Câmara, com o objetivo de monitorar situações semelhantes.

O líder da prefeita na Casa afirmou que a gestão municipal não compactua com as declarações e que as providências administrativas já estavam em curso. A Secretaria Municipal de Educação confirmou a instauração de sindicância e informou que a diretora solicitou afastamento voluntário para que a apuração ocorra com isenção.

Novo vídeo da professora

Após a repercussão na Câmara, Carla Martins divulgou novo vídeo em suas redes sociais. Na gravação, afirmou que desenvolve um projeto de acolhimento na unidade escolar, classificado por ela como projeto piloto da Secretaria Municipal de Educação, e que todas as crianças são atendidas independentemente de laudo.

Dirigindo-se a um vereador, declarou que, ao ser cobrada por um pedido de desculpas, reconhece que “tem razão”, mas atribuiu a controvérsia à “má interpretação” e à forma como sua fala foi editada. “Quem convive comigo, quem está dentro da unidade a qual eu faço a gestão, sabe perfeitamente do acolhimento que eu dou”, afirmou.

O caso segue sob apuração administrativa, enquanto a Câmara Municipal acompanha os desdobramentos e aguarda a conclusão da sindicância para avaliar eventuais medidas adicionais.

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