A Comunidade Quilombola Kalunga Ouro Fino, localizada em uma região de divisa entre Paranã (TO) e Cavalcante (GO), tem vivido sob medo. Moradores denunciaram ao Jornal Opção Tocantins uma escalada de invasões por grileiros e madeireiros, com desmatamento intenso do Cerrado, uso contínuo de tratores e motosserras e ameaças diretas à população.

Fotos e vídeos encaminhados à reportagem mostram áreas que antes eram cobertas por vegetação nativa, agora completamente abertas, transformadas em pastagens e áreas de extração de madeira. Segundo os relatos, a situação ocorre há muito tempo, mas se agravou nas últimas duas semanas.

“Os tratores e as motosserras ficam ligados o dia todo. É desmatamento sem parar”, relatou um morador. “As ameaças são constantes. A gente vive com medo”, disse. Por medo de represálias, ninguém quis se identificar. 

Além da devastação ambiental, os quilombolas afirmam que a invasão ameaça diretamente a sobrevivência da comunidade, afetando plantas, animais e áreas tradicionalmente utilizadas pelos moradores. A comunidade, que está no território há pelo menos 250 anos, foi certificada como quilombola pela Fundação Palmares ainda em 2014.

Madeira retirada da Comunidade Quilombola | Foto: Arquivo pessoal

Área em disputa entre estados

A comunidade está inserida em uma área de litígio territorial entre os estados de Tocantins e Goiás, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF). A disputa envolve cerca de 12,9 mil hectares na divisa entre Paranã (TO) e Cavalcante (GO) e tem origem em um erro cartográfico antigo, que teria provocado confusão sobre os limites oficiais entre os dois estados após a criação do Tocantins.

Enquanto o impasse não é resolvido judicialmente, moradores relatam uma espécie de vazio de fiscalização e de responsabilidade do poder público, o que acaba favorecendo a atuação de invasores. “A gente nem sabe direito a quem recorrer. Um empurra para o outro”, diz um quilombola.

Segundo a comunidade, denúncias já foram feitas à Polícia Federal, mas não houve retorno até o momento. Sem a presença efetiva do Estado, os moradores afirmam se sentir desprotegidos e vulneráveis.

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Proximidade com área citada em investigação da PF

A região onde vive a Comunidade Quilombola Kalunga Ouro Fino também veio à tona em reportagens recentes do Jornal Opção Tocantins relacionadas à Operação Nêmesis, da Polícia Federal. Um relatório da PF menciona uma chácara localizada no povoado Campo Alegre, zona rural de Paranã, que é utilizada pelo governador do Tocantins, Wanderlei Barbosa, e por sua companheira, Karynne Sotero. De acordo com a PF, a propriedade está registrada em nome de um terceiro e fica próxima à área em disputa entre Tocantins e Goiás.

Chácara usada por Wanderlei Barbosa e Karynne Sotero citada pela PF fica próxima à área em disputa entre Tocantins e Goiás

Posicionamentos

Sobre o caso, o Jornal Opção Tocantins questionou a Polícia Federal, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), do Ministério Público Federal (MPF), os governos de Tocantins e Goiás, a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (Coeq-TO), e os órgãos ambientais responsáveis sobre as denúncias de invasão, desmatamento e ameaças à comunidade quilombola.

À reportagem, a PF informou que no momento não pode repassar informações sobre o caso, visto que as investigações estão em andamento.

A Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (Coeq-TO) informou que está em contato com a comunidade para compreender a situação e trabalhar estratégias de atuação.

O Jornal Opção Tocantins aguarda retorno das demais instituições.