A tradição dos Congos e Taieiras em Monte do Carmo, no Tocantins, integra a Festa de Nossa Senhora do Rosário e remonta ao período da escravidão na região, sendo apontada por lideranças locais como uma manifestação de origem africana que atravessou gerações até chegar aos dias atuais. Embora atualmente esteja fortemente associada à Comunidade Quilombola Taboca, o presidente da associação, Juarês Carvalho de Oliveira, afirma que a prática não surgiu dentro do território quilombola, mas sim no contexto mais amplo da religiosidade negra do município.

“É uma festa religiosa de origem africana, porque aqui em Monte do Carmo tinha escravos. Tinha aproximadamente 800 escravos, sendo 400 na lavoura e 400 na mineração”, relatou, ao contextualizar o cenário histórico que deu origem à celebração.

Segundo ele, a devoção à santa estava diretamente ligada à vivência dos negros escravizados, que encontravam na fé uma forma de pertencimento e proteção espiritual diante das restrições impostas pela sociedade da época. “Eles cultuavam Nossa Senhora do Rosário porque diziam que ela era a protetora deles. Como não podiam participar da missa dos brancos, festejavam na igreja dos pretos”, afirmou, referindo-se ao templo localizado no distrito do Rosário, na região da Serra das Rolim, espaço historicamente associado às celebrações da população negra.

A festa ocorre duas vezes ao ano em Monte do Carmo, conforme explicou o presidente, sendo celebrada em julho e também em outubro, mês dedicado à santa, a programação reúne cortejos, cantos e danças tradicionais.

Estrutura simbólica do cortejo

Dentro da festividade, os Congos e as Taieiras desempenham papéis específicos e complementares. Os Congos são formados por homens; as Taieiras, por mulheres. De acordo com Juarês, a organização do cortejo carrega significados que remetem à estrutura social do período escravocrata.

“Os Congos são soldados que vão alegrar, cantar e acompanhar a rainha no cortejo até a igreja. Já as Taieiras vão em louvor, porque naquela época as rainhas tinham suas mucamas, que iam para servir, acompanhar e alegrar”, explicou, ressaltando que a representação atual ressignifica esses papéis dentro de um contexto cultural e religioso.

Ele observa que, embora a manifestação pertença à festa tradicional de Monte do Carmo, a maioria dos integrantes hoje é composta por moradores da Comunidade Taboca, que assumiram a responsabilidade de manter viva a tradição. “Às vezes as pessoas falam que o Congo e a Taieira são da comunidade Taboca. Não. É da festa de Monte do Carmo, de Nossa Senhora do Rosário. Hoje a maioria é do quilombo Taboca porque a gente vem segurando essa tradição para não deixar acabar”, afirmou.

Cores, dons e devoção

As vestimentas chamam atenção pelo colorido intenso, elemento que, segundo o presidente, possui fundamentação religiosa. As cores são escolhidas pela rainha do festejo a cada edição.

“A rainha escolhe a cor que quer usar. Azul, verde, amarelo, vermelho… Cada cor representa um dos sete dons do Espírito Santo. Fica a critério dela escolher o dom com que mais se identifica. Esse é o motivo das cores”, explicou

Apesar da relevância histórica, a manutenção dos grupos enfrenta dificuldades, especialmente relacionadas à renovação dos participantes. Juarês afirma que o principal desafio é garantir que as novas gerações assumam a continuidade: “O desafio maior é encontrar pessoas para dar sequência. Por isso eu estou fazendo oficinas. Já fiz duas, a última foi no ano passado, inclusive na área municipal Lauro da Silva, com cinco oficinas de Congos e Taieiras”, relatou.

Ele destacou que o trabalho conta com apoio institucional e colaboração voluntária de parceiros locais, mas que grande parte da mobilização ocorre sem remuneração. “Eu faço de forma voluntária. Quando tem projeto aprovado, a gente presta conta direitinho, mas fora isso é pela vontade de manter a tradição. Sempre tivemos apoio da Secretaria de Educação e de parceiros que ajudam a trabalhar com as crianças”, afirmou.

Atualmente, segundo ele, quatro a cinco adolescentes acompanham o grupo nas apresentações, resultado das oficinas e da articulação comunitária. “Aos poucos a gente vai conseguindo”, acrescentou.

Reconhecimento fortaleceu identidade

Em 2025, a Comunidade Taboca foi oficialmente reconhecida como quilombola pela Fundação Cultural Palmares. O presidente esteve na Serra da Barriga, em Alagoas, no Dia da Consciência Negra, para receber o certificado.

“Foi muito gratificante. Abriu um leque para a gente trabalhar nossa cultura dentro da comunidade. A partir do momento que começamos a ser reconhecidos como quilombolas, os descendentes passaram a acreditar mais. Hoje a gente marca reunião e eles estão presentes”, relatou.

Ele avalia que a preservação contínua dos Congos e Taieiras contribuiu diretamente para o reconhecimento oficial, ao evidenciar a permanência histórica e cultural do grupo. “Ajudou muito também. A preservação dessa tradição mostrou nossa continuidade”, afirmou.

Descendente de Damiana Carvalho, considerada matriarca do território, Juarês destaca que o envolvimento com a associação tem dimensão pessoal e coletiva. “Quando me descobri descendente, isso se tornou maior ainda. É muito gratificante estar à frente dessa cultura e dessa continuidade da minha geração escravocrata. É buscar direitos que nossos antepassados não tiveram”, concluiu.

Para a comunidade, manter os Congos e as Taieiras ativos significa preservar uma memória coletiva marcada por fé, resistência e identidade negra no Tocantins.