Dá pra viver com um salário mínimo em Palmas? Especialista aponta limite entre sobrevivência e dignidade
12 abril 2026 às 16h00

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Viver com um salário mínimo em Palmas está longe de garantir o básico para uma família. A constatação parte de estudos recentes sobre custo de vida no Brasil e pela análise do sociólogo Ian Prates, doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo (UPS), diretor do Anker Research Institute e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Segundo ele, embora o país tenha retomado a política de valorização real do salário mínimo a partir de 2023, após anos de interrupção, o valor atual ainda não cobre o custo de uma vida considerada digna.
Hoje fixado em R$ 1.621, o salário mínimo nacional segue distante das necessidades reais das famílias. Ian destaca que estimativas técnicas de “salário digno”, que levam em conta o custo de vida em diferentes regiões, mostram que mesmo nas áreas mais baratas do país o valor necessário já supera o mínimo legal: “Nas regiões de menor custo, esse valor gira em torno de R$ 1.800. Em Palmas, por exemplo, o salário digno estimado é de aproximadamente R$ 2.300”, afirma. Na prática, isso representa uma defasagem superior a 40%.

Essa diferença, segundo o sociólogo, está diretamente ligada à forma como cada indicador é construído. Ele explica que o salário mínimo é um piso legal, definido a partir de negociações entre governo, trabalhadores e empregadores, e que cumpre funções amplas, trabalhistas, previdenciárias e macroeconômicas. Já o salário digno é calculado com base no custo real de vida das famílias em um determinado território.
Ao fazer essa distinção, ele resume: “O salário mínimo responde à pergunta ‘qual é o piso legal?’, enquanto o salário digno responde ‘quanto é necessário para viver com dignidade?”
Essa distância se materializa no orçamento doméstico e aparece de forma mais intensa entre as famílias de baixa renda. Com base em dados da Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), especialmente da Pesquisa de Orçamentos Familiares, Ian explica que os gastos com moradia e alimentação concentram a maior parte da renda: “Isso não é uma particularidade do Brasil, é um padrão observado no mundo inteiro. Mas, no caso das famílias de menor renda, esses dois itens praticamente esgotam o orçamento.”
Ele detalha que despesas como aluguel, energia elétrica, gás de cozinha e alimentação acabam sendo priorizadas automaticamente: “Na prática, a renda é consumida antes mesmo de a família conseguir organizar outros gastos essenciais, como transporte, saúde, material escolar ou comunicação.”
Diante desse cenário, programas de transferência de renda entram como um mecanismo importante de proteção social, ainda que insuficiente por si só. O sociólogo ressalta que há um conjunto consistente de evidências sobre o impacto positivo dessas políticas no Brasil: “Estudos recentes, com bases estatísticas robustas e produzidos de forma independente, mostram que o Bolsa Família é uma das políticas mais progressivas do Estado brasileiro”, afirma.
Segundo ele, os dados indicam contribuição significativa para a redução da pobreza e da extrema pobreza entre 2023 e 2025. Além disso, Ia rebate uma crítica recorrente: a de que esses programas desestimulam o trabalho. “Isso não se sustenta à luz das evidências”, diz. Ele cita pesquisas de instituições nacionais e internacionais, incluindo o Banco Mundial, que apontam que o benefício não reduz a oferta de trabalho.
“O valor transferido é baixo quando comparado ao salário mínimo. Ao contrário do que se diz, os dados mostram aumento da ocupação entre beneficiários, inclusive com crescimento do trabalho formal”, explica. Ele também chama atenção para o papel social do programa, especialmente para mulheres com filhos, que enfrentam maiores dificuldades de inserção no mercado de trabalho: “Nesse caso, a transferência de renda cumpre uma função central de proteção.”
Apesar disso, ele frisa que essas políticas não substituem medidas estruturais: “A transferência de renda protege o piso social, mas não resolve sozinha os problemas de renda e trabalho.”
Para enfrentar, ele defende a valorização dos salários, o fortalecimento do mercado de trabalho, com incentivo à formalização, aumento da produtividade e negociação coletiva, e políticas que reduzam o peso dos custos essenciais no orçamento das famílias.
“É fundamental atuar sobre itens como moradia, alimentação, transporte e energia, porque são eles que mais pressionam o orçamento”, destaca. Na avaliação do sociólogo, não há solução simples. “Melhorar o poder de compra de forma duradoura não depende de uma medida isolada, depende de uma combinação entre salários adequados, emprego de qualidade e políticas sociais eficazes.”
Para a contadora Daniela Delmondes, que se mudou do Bico do Papagaio para Palmas em busca de melhores oportunidades, a rotina financeira exige constantes ajustes e, muitas vezes, sacrifícios.
“Eu vim pra Palmas pensando em crescer profissionalmente, e até consegui mais oportunidades, mas o custo de vida aqui pesa muito. O que eu vejo é que muita gente não consegue se manter só com um trabalho. Sempre tem colega pegando serviço por fora, fazendo freelance à noite, abrindo mão de final de semana pra dar conta das contas”, conta.
Segundo ela, essa dinâmica acaba se tornando comum entre profissionais de diferentes áreas. “Não é nem uma escolha, é necessidade. Às vezes a pessoa até tem um emprego fixo, mas precisa complementar renda pra conseguir pagar aluguel, mercado, essas coisas básicas”, afirma. Daniela também destaca que, para quem chega de outras regiões, o impacto pode ser ainda maior: “A gente vem com expectativa de melhorar de vida e percebe rápido que precisa correr muito mais pra se manter.”
