Do patriarcado ao homem alfa em crise: o masculino no século XXI
18 março 2026 às 10h14

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Fernando Maciel Vieira
O patriarcado sempre foi vendido como aquele plano premium do ser homem: poder, respeito, cadeira cativa na cabeceira da mesa. Só esqueceram de avisar a parte das letras miúdas — tipo contrato de operadora de celular — em que o preço da assinatura é pago em saúde mental, baixa expectativa de vida, dificuldade de falar sobre sentimentos e, ultimamente, em ressentimento.
Sim, o patriarcado fez mal às mulheres, e muito. Mas a ironia da história é que ele também não poupou os homens. Deu-lhes o trono, mas retirou o direito de levantar para ir ao banheiro sem parecer fraco. A prisão é dourada, mas continua sendo prisão.
No Brasil, esse modelo começa a mostrar rachaduras. Basta olhar os números: segundo o IBGE, as mulheres já são maioria nas universidades e têm avançado de forma consistente no mercado de trabalho, especialmente nas camadas médias urbanas. Enquanto isso, muitos jovens homens brasileiros parecem presos num limbo: estudam menos, concluem menos cursos superiores e, não raro, manifestam mais ressentimento. É como se, no jogo da mobilidade social, as mulheres estivessem subindo de elevador, e parte dos homens tivesse escolhido a escada… só que parou no terceiro degrau para fumar um Marlboro e reclamar que o sistema é injusto.
Richard Reeves, em Of Boys and Men (2022), aponta que essa crise masculina não é só um fenômeno
cultural, mas estrutural. A economia do conhecimento e a ascensão educacional favoreceram justamente
habilidades — comunicação, cooperação, capacidade de adaptação — que o patriarcado nunca ensinou aos meninos. Eles foram treinados para ser guerreiros num mundo que já não tem tantas batalhas para travar. Resultado: ressentimento, evasão escolar e, em casos extremos, flerte com discursos autoritários que prometem resgatar uma “masculinidade perdida”.
Francisco Bosco, no programa “Segunda Chamada”, já disse sem rodeios: o patriarcado é ruim também
para os homens. É um sistema que cobra deles virilidade inabalável, enquanto os priva de experimentar
fragilidade, afeto e cuidado sem culpa. No fundo, é uma cilada digna de pegadinha: o homem acredita que manda, mas não percebe que obedece a um script rígido, um roteiro que não escreveu. E o público, cansado, já mudou de canal.
A crise do masculino brasileiro tem ainda outro efeito colateral: interfere na democracia. Uma sociedade que se pretende livre e igual não pode funcionar se metade de seus jovens não encontra sentido no estudo, nem lugar no futuro. O vácuo educacional masculino não é só um problema individual — é um problema coletivo. Menos estudo significa menos inserção no mercado formal, mais vulnerabilidade à precarização e maior suscetibilidade a narrativas simplistas, muitas vezes populistas ou extremistas.
Robert Putnam, em Our Kids, mostrou como o capital social — aquelas redes de confiança e reciprocidade — é essencial para a mobilidade social. Só que, no Brasil, esse capital é distribuído como ingresso de camarote: poucos têm acesso, enquanto a maioria assiste de longe. E quando o ressentimento masculino encontra essa exclusão estrutural, temos uma combinação perigosa: jovens que se sentem traídos pela promessa da meritocracia, mas que não sabem traduzir essa frustração em cooperação democrática.
Vale lembrar: enquanto homens se debatem no ressentimento, as mulheres avançam. Elas descobriram que estudar é uma forma de mobilidade, de autonomia, de reinvenção. Já os homens que resistem a esse movimento parecem se agarrar à ideia de que “isso não é coisa de macho”. É quase engraçado — se não fosse trágico — que, em pleno século XXI, uma das maiores barreiras à democracia brasileira seja um punhado de rapazes que acham que abrir um livro ameaça sua testosterona.
O desafio é grande. Ou o homem brasileiro percebe que sua liberdade não está em reafirmar o patriarcado, mas em se libertar dele — abraçar estudo, afeto, vulnerabilidade, parceria — ou continuará preso numa caricatura de si mesmo. O macho-alfa virou piada de stand-up. O problema é que muitos ainda não riram.
No fim, talvez caiba aqui um conselho: o patriarcado foi a versão 1.0 da masculinidade. Cheio de bugs,
travado e incompatível com o século XXI. A atualização já está disponível. Não requer senha nem login. Só coragem.
Fernando Maciel Vieira é professor da rede estadual do Tocantins.
