O caso de um jumento encontrado sozinho, ferido e aparentemente abandonado em uma chácara de Taquaruçu, distrito de Palmas, gerou repercussão nas redes sociais e desencadeou uma disputa pela posse do animal. O caso veio à tona após o trabalhador rural Jair dos Reis publicar vídeos mostrando o estado em que o encontrou e, posteriormente, a rotina de cuidados.

Segundo Jair, o encontro ocorreu ao final de um dia de serviço, ele trabalhava em uma propriedade cercada quando avistou o animal à distância: “Nós estávamos trabalhando nessa chácara de diária. Quando deu o horário de ir embora, eu vi ele de longe. Não deu para perceber se estava com sela ou não, porque eu estava meio distante. Quando cheguei mais perto e vi a situação, comecei a filmar”, relatou.

As imagens mostram o jumento com lesões extensas na região do dorso e da lateral do corpo. Jair afirma que decidiu registrar a cena por considerar incomum a presença do animal naquela área isolada. Na mesma noite, publicou o vídeo com o objetivo de identificar o possível responsável e, principalmente, verificar se poderia haver alguém desaparecido: “Nós ficamos com medo de ter acontecido alguma coisa com o peão. Pela reação que o burro estava, a gente ficou preocupado. Vai que tinha alguém perdido ou machucado”, explicou.

A repercussão foi imediata, os vídeos ultrapassaram milhares de visualizações e geraram uma onda de comentários. No dia seguinte, um homem entrou em contato afirmando que o animal havia fugido após um acidente durante o manejo de gado.

Segundo Jair, o homem que entrou em contato afirmou que estava tocando o gado quando caiu do burro e o animal saiu correndo. Ele contou que, no dia seguinte, chegaram a procurar, mas não conseguiram encontrá-lo. “Depois deixaram de lado, acharam que ele já estava morto”, relatou Jair.

Ainda conforme o que ouviu, o jumento estaria desaparecido havia “um mês e quatro dias”. “Ele me disse que já tinha mais de um mês que o burro estava sumido e que pensaram que estivesse morto”, afirmou.

Jair diz que estranhou a situação porque, ao procurá-lo, o homem queria o animal de volta. “Se já tinham dado como morto, por que agora queriam de volta?”, questionou.

Após a identificação do suposto proprietário, houve um impasse: “Eu falei que queria ficar com o animal para zelar, porque estava em situação de maus-tratos, muito ferido. Ele disse que ia fazer um boletim de ocorrência contra mim. Eu respondi: ‘Pode fazer. Nós vamos para a Justiça, porque eu não vou entregar não’”, relatou.

Jair cuidando dos ferimentos do animal | Foto: Arquivo Pessoal

Com a repercussão crescente nas redes sociais e orientação jurídica, as partes chegaram a um acordo e o animal foi vendido a Jairo: “No outro dia ele veio aqui e me cobrou R$ 400. Eu acabei comprando. Hoje ele é meu, graças a Deus. Estou cuidando e zelando”, disse.

Seguidores chegaram a sugerir a criação de uma vaquinha para custear tratamento e alimentação. “Eu falei que não precisava, mas muita gente pediu o Pix para ajudar. Foram os próprios seguidores que organizaram tudo”, afirmou.

Jumento sendo alimentado pós resgate | Foto: Arquivo Pessoal

Jair já mantém outros animais e costuma compartilhar a rotina nas redes sociais, incluindo vídeos com seu porco de estimação, Gabriel, e sua cadela Pandora.

A atitude de Jair repercutiu nas redes sociais e ele ganhou milhares de seguidores | Foto: Arquivo Pessoal

Jairo acabou batizando o animal com o nome de Guerreiro, o que segundo ele, é para mostrar a força que o jumento teve enquanto estava machucado.

Avaliação técnica aponta indícios de uso contínuo e falta de manejo adequado

A partir dos vídeos divulgados, o médico veterinário Hugo Feitosa analisou as lesões e apontou que as marcas são compatíveis com uso constante de sela sem proteção adequada: “Essas lesões são muito características de sela e de arreio. Quando não se utiliza o ‘baxeiro’, que é uma manta macia colocada entre a sela e a pele do animal, acabam surgindo essas feridas. A sela e as cordas ficam em contato direto com a pele”, explicou.

Segundo ele, o padrão das lesões torna improvável que tenham sido causadas por vegetação ou por uma queda isolada: “São lesões exatamente na região onde vai a sela e as cordas. A lateral e a coluna estão atingidas. É muito coincidente que, se fosse vegetação, machucasse justamente nesses pontos e não houvesse lesão em cabeça, pernas ou outras áreas expostas”, avaliou.

O veterinário destaca que, pelas imagens, as feridas não são recentes.

“Elas não aconteceram de um dia para o outro. São lesões que evoluíram ao longo do tempo, pela falta de cuidado e pela prática de continuar usando sela mesmo com a região já machucada”, afirmou.

Hugo também observou sinais de desnutrição e comportamento de estresse: “O animal está assustado e apresenta grau de desnutrição. Isso levanta a hipótese de que ele não estava em condição ideal. Quando um equino se sente ameaçado, ele pode percorrer quilômetros. Eles têm muita resistência, conseguem saltar cercas, passar sob arame farpado e andar longas distâncias”, explicou.

Veterinário Hugo Feitosa | Foto: Arquivo Pessoal

Para ele, caso as lesões tivessem sido tratadas no início, o quadro poderia ter sido diferente.

“Se tivesse sido retirado do trabalho ao identificar as primeiras feridas e iniciado um protocolo terapêutico com antibióticos, anti-inflamatórios e pomadas cicatrizantes, o prognóstico seria melhor. As lesões não teriam atingido essa proporção”, afirmou.

O veterinário alerta ainda para o risco de infecções secundárias. “Feridas abertas deixam o animal exposto a fungos, bactérias e vírus. Podem gerar sequelas musculares e cicatrizes permanentes. Pelo que aparenta, atingiu musculatura, mas não há indícios claros de comprometimento mais profundo. Com tratamento adequado, a tendência é recuperação, embora cicatrizes devam permanecer.”

Ele conclui que considera “muito pouco provável, quase zero”, que os ferimentos tenham sido provocados apenas durante a fuga.

O que diz a legislação

Na avaliação da advogada Sara, o caso pode configurar crime de maus-tratos por omissão, nos termos do artigo 32 da Lei nº 9.605/98. Ela explica que a lei não pune apenas agressões diretas, mas também a negligência e o abandono.

Segundo a advogada, ainda que a versão de fuga seja verdadeira, isso não exclui automaticamente a responsabilidade dos antigos proprietários. “O dever de cuidado é inerente a quem detém a posse do animal”, afirma, destacando que deixar um jumento ferido por mais de 30 dias sem assistência pode caracterizar conduta criminosa.

Advogada Sara Carvalho | Foto: Arquivo Pessoal

Sara pontua que a eventual venda por R$ 400 não afasta possível responsabilização por fatos anteriores. De acordo com ela, “a venda não apaga um ilícito já consumado”, caso fique comprovado que houve omissão ou negligência.

Em relação a Jairo, a advogada entende que ele agiu de forma legítima. Ela ressalta que houve demonstração de boa-fé ao divulgar o caso para localizar o responsável e que, diante de um animal aparentemente abandonado e ferido, a atitude de prestar socorro é juridicamente amparada. “Não há elementos que indiquem crime por parte dele”, conclui.