Estudo mostra que 26% da produção de carne para exportação no Brasil depende da bacia Tocantins-Araguaia
02 fevereiro 2026 às 11h20

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O agronegócio brasileiro responde por um volume expressivo do uso de água doce no país, com impactos diretos sobre bacias hidrográficas importantes para o Tocantins. Uma análise recente da iniciativa Trase indica que a pecuária e a produção de soja estão entre as atividades que mais demandam recursos hídricos, ampliando a pressão sobre rios, aquíferos e ecossistemas do Cerrado.
De acordo com o levantamento, a pecuária brasileira consome entre 10,1 bilhões e 10,4 bilhões de metros cúbicos de água por ano. O volume é superior ao total utilizado, somadas, pelas populações de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná e do Distrito Federal. Grande parte dessa água é retirada de bacias como a Tocantins–Araguaia, uma das principais fontes hídricas do Norte e Centro-Oeste e fundamental para o desenvolvimento econômico tocantinense.
No caso da soja, principal grão exportado pelo país, o consumo anual varia entre 188 bilhões e 206 bilhões de metros cúbicos de água. Embora cerca de 92% desse total provenha da chuva, a irrigação ainda responde por até 1,7 bilhão de metros cúbicos por ano. A produção está fortemente concentrada em áreas do Cerrado, bioma predominante no Tocantins e já afetado por redução de chuvas e diminuição da vazão dos rios.
Os dados utilizados no estudo têm como base informações do MapBiomas e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), referentes ao período de 2015 a 2017, considerado o mais consistente em termos de qualidade e compatibilidade estatística. A pesquisa também avalia a dependência hídrica das cadeias produtivas de carne e soja nas 12 regiões hidrográficas do país.
Segundo a análise, os maiores exportadores de carne bovina, JBS, Minerva, Marfrig e Mataboi, concentram parte relevante de sua produção em três grandes bacias: Paraná, Amazônica e Tocantins–Araguaia, que responde por cerca de 26% da dependência hídrica dessas empresas.
A maior parte da água associada à pecuária não é ingerida diretamente pelos animais, o estudo aponta que dois terços do volume utilizado se perdem por evaporação em pequenos reservatórios usados para dessedentação do gado, reduzindo a quantidade de água disponível a jusante para consumo humano, geração de energia, ecossistemas aquáticos e atividades produtivas.
No setor agrícola, os pesquisadores alertam que a concentração da produção em áreas da Amazônia e do Cerrado torna essas cadeias mais vulneráveis à escassez hídrica. No Cerrado, bioma que cobre grande parte do Tocantins, estudos recentes indicam redução de 27% na vazão dos rios desde a década de 1970, além de queda de 21% no volume de chuvas.
Crise climática e o avanço do desmatamento
O cenário tende a se agravar com a intensificação da crise climática e o avanço do desmatamento. Alterações nos regimes de chuva, aumento das temperaturas e diminuição das reservas superficiais e subterrâneas elevam o risco tanto para a pecuária quanto para a soja irrigada, especialmente em regiões onde há competição crescente pelo uso da água.
Para os pesquisadores, a gestão dos recursos hídricos é um ponto crítico. O estudo aponta falhas na concessão e fiscalização de outorgas de captação, além da existência de reservatórios construídos sem autorização, o que compromete o planejamento e a sustentabilidade do uso da água no campo.
Como resposta, a Trase defende ações coordenadas entre exportadores, governos e financiadores, com metas claras de uso da água, maior transparência nas cadeias produtivas e alinhamento de políticas públicas e crédito ao uso sustentável dos recursos hídricos. A proposta inclui incorporar indicadores de consumo de água aos critérios ambientais já adotados no comércio de commodities, ampliando o controle para além do desmatamento.
