Homicídios, extorsões e emboscadas no Tocantins mostram os riscos reais de encontros marcados por redes sociais
11 janeiro 2026 às 10h00

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Homicídios, emboscadas e crimes de extorsão registrados recentemente no Tocantins alertam sobre os riscos associados a encontros presenciais marcados por redes sociais e aplicativos de relacionamento. Os casos revelam como o uso desses ambientes digitais, somado à atuação de criminosos que se aproveitam da confiança construída online, pode resultar em situações de violência.
O caso mais recente ocorreu no início de janeiro este ano, em Araguaína. Rozália Gonçalves Pereira, de 36 anos, desapareceu no dia 1º após marcar um encontro com uma pessoa que conheceu pelas redes sociais, segundo familiares. Cinco dias depois, o corpo foi encontrado em avançado estado de decomposição em um terreno baldio no Setor Lago Sul, com perfurações no tórax. A Polícia Civil investiga o caso para identificar autoria e motivação.
Em dezembro de 2025, o jovem Klayver Pimenta Martins, de 22 anos, também foi vítima de um crime iniciado no ambiente virtual. De acordo com a polícia, o suspeito utilizou o perfil da própria namorada nas redes sociais para se passar por ela e marcar o encontro. O corpo foi encontrado três dias após o desaparecimento, na zona rural de Chapada da Natividade, escondido em um poço. A suspeita é de que a vítima tenha sido morta a facadas.
Já em outubro de 2025, em Palmas, uma jovem de 20 anos passou a ser investigada por extorsão após conhecer vítimas pelas redes sociais, marcar encontros e, posteriormente, ameaçá-las para obter vantagem financeira. Segundo a investigação, ela utilizava diferentes números de telefone, inventava gravidez e pressionava as vítimas com medo de exposição familiar e profissional.

Fragilidade emocional e padrões observados pelas investigações
A Secretaria de Estado da Segurança Pública do Tocantins (SSP) explica que, embora as estatísticas criminais não consigam classificar formalmente crimes originados em encontros virtuais, as investigações apontam padrões recorrentes.
“Infelizmente há muitos riscos quando se trata de encontros marcados/combinados em ambientes virtuais. Os criminosos têm a capacidade de analisar as vulnerabilidades das vítimas, identificando vítimas em potencial. É muito fácil manipular fotos e vídeos, de forma que uma pessoa pode, sem maiores dificuldades, passar por outra, inventando toda uma história como local de trabalho, carro, boa aparência física e boa condição financeira”, informou a secretaria.
Segundo a SSP, o perfil das vítimas e o local dos encontros costumam se repetir. “As vítimas, em regra, são pessoas fragilizadas emocionalmente, o que as torna mais facilmente ludibriadas e enganadas. Além disso, os encontros muitas vezes são marcados em locais ermos, o que facilita a ação do criminoso e dificulta qualquer possibilidade de resistência ou pedido de ajuda”, acrescenta o órgão.

Gratificação imediata e decisões impulsivas
Partindo do padrão identificado pela SSP-TO de que as vítimas de crimes relacionados a encontros virtuais costumam apresentar fragilidades emocionais, o Jornal Opção Tocantins buscou a opinião de um psicólogo para compreender melhor os riscos desse tipo de interação. Para Armando Machado, o funcionamento das redes sociais e dos aplicativos de relacionamento cria um ambiente propício a decisões impulsivas.
“Nós vivemos hoje um contexto sociocultural em que somos constantemente bombardeados por uma quantidade exagerada de informações e, com o tempo, vamos perdendo a capacidade de processar tudo isso. Dentro desse cenário, os aplicativos se beneficiam de um formato de gamificação, em que a pessoa recebe gratificação imediata. Cada like, cada match, gera uma liberação de dopamina, e isso acaba se tornando um vício”, explica.
Segundo ele, essa dinâmica favorece relações superficiais. “A gente troca qualidade por quantidade. O julgamento passa a ser raso, baseado em uma visão bidimensional da outra pessoa, quase sempre restrita a fotos e poucas informações. Você passa para a direita ou para a esquerda, valida ou descarta alguém como se fosse um objeto, e isso vai moldando a forma como nos relacionamos.”
Armando destaca que momentos de sofrimento emocional reduzem a capacidade de avaliação de riscos. “Quando a pessoa está passando por rejeição, luto, término de relacionamento, estresse intenso ou baixa autoestima, a emoção interfere diretamente no poder de julgamento. A emoção cria um conflito com a razão e impede que o indivíduo enxergue o contexto como um todo”, afirma.

Nesse cenário, a manipulação se torna mais eficaz: “A pessoa que manipula não está emocionalmente envolvida. Ela age de forma fria, racional, identifica essas fragilidades e se aproveita delas. A vítima, por outro lado, está fragilizada, ansiosa, empolgada ou carente, o que facilita esse processo.”
Segundo o psicólogo, isso explica por que sinais de alerta são frequentemente ignorados. “Mesmo quando aparecem comportamentos suspeitos, a vítima tende a justificar, minimizar ou negar, porque há uma idealização daquela relação. A razão até tenta alertar, mas quem prevalece são as emoções, especialmente quando existe dependência emocional.”
Vergonha, culpa e consequências duradouras
As consequências psicológicas desses episódios podem ser profundas e prolongadas. “Após um golpe ou uma situação de violência, o primeiro sentimento que costuma surgir é a vergonha. A pessoa se autojulga, se culpa e interioriza o sofrimento. Essa culpa reduz ainda mais a autoestima, que muitas vezes já estava fragilizada antes da relação”, explica Armando.
Ele alerta que esse processo pode evoluir para quadros graves: “Podem surgir isolamento, depressão, sentimento de traição, desesperança e, em casos extremos, pensamentos suicidas. A pessoa já não estava bem emocionalmente e, depois da experiência, acaba ficando ainda pior.”
Orientações para reduzir riscos
A SSP reforça que a prevenção exige cautela e verificação cuidadosa antes de qualquer encontro presencial. “As recomendações são para não marcar encontros de forma apressada. É importante conversar por alguns dias, realizar chamadas de voz e vídeo, confirmar informações fornecidas pelo interlocutor e pesquisar referências. O encontro deve ocorrer em locais públicos e movimentados, com familiares e amigos informados sobre o destino. Se houver qualquer sinal de risco, o encontro deve ser cancelado”, orienta a secretaria.
Em situações de ameaça ou desaparecimento, o acionamento das autoridades deve ser imediato.
“Não existe a necessidade de aguardar 24 horas para registrar ocorrência. Diante de um desaparecimento, a família deve procurar a delegacia mais próxima o quanto antes, fornecendo todas as informações disponíveis para que as investigações comecem com celeridade.”
Os casos registrados no Tocantins mostram que, embora as relações comecem no ambiente virtual, os riscos são concretos e podem ter consequências fatais. A orientação de especialistas e das forças de segurança é clara: informação, cautela e atenção aos sinais de alerta são fundamentais para evitar que encontros marcados pela internet terminem em tragédia.
