Ler como prática cotidiana: saiba como construir e manter o hábito da leitura ao longo da vida
07 janeiro 2026 às 08h00

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Criar o hábito de leitura raramente é um processo linear. Ele começa, muitas vezes, por incentivo externo, passa por fases de intensidade e interrupção e, quando se consolida, se transforma em necessidade pessoal. No dia 7 de janeiro, quando se celebra o Dia do Leitor, experiências individuais e reflexões pedagógicas ajudam a entender por que ler ainda é um desafio para grande parte da população brasileira.
Jornalista, Karoliny Santiago conta que o contato com a leitura começou antes mesmo da vida escolar. Segundo ela, o incentivo veio de casa. A mãe, que cursava magistério, a alfabetizou ainda na infância. “Quando eu fui para a escola com 4 anos, eu já sabia ler e escrever”, relata. A presença de gibis e livros pequenos fez parte da rotina familiar, mas foi na escola que a leitura ganhou outro significado.
Karoliny lembra que, nos primeiros anos do ensino fundamental, o contato com a biblioteca foi decisivo. Um dos marcos desse período foi a leitura de A professora muito maluquinha, de Ziraldo, ainda na primeira série. “Aquele livro foi a porta de entrada para a minha vida de leitura”, afirma.
Durante a infância e a adolescência, o hábito se manteve constante. Nas férias escolares, a biblioteca municipal de Taquaralto se tornou um espaço frequente. “Eu sempre estava com o livro do lado”, diz. Ao longo dos anos, estabeleceu metas variadas: ler todos os livros de um autor específico, explorar determinados gêneros e, em um período, chegar à marca de 100 livros lidos em um ano.
Apesar da regularidade, Karoliny reconhece que houve momentos de afastamento da leitura, especialmente em fases de maior sobrecarga, como a faculdade, o trabalho e a preparação para concursos. Ainda assim, afirma que sempre buscou retomar o hábito. “Quando eu vejo que estou deixando a leitura de lado, eu dou um jeito de voltar.”
Atualmente, ela diz que o interesse por livros de suspense e, principalmente, a leitura compartilhada foram fundamentais para intensificar o ritmo. Desde, 2019, participa do Clube do Livro Girassol do Cerrado, que se reúne mensalmente. Além disso, criou parcerias informais de leitura com amigas. “De agosto para cá, eu e uma amiga lemos de 10 a 15 livros juntas”, conta. Para ela, a troca de impressões e a expectativa de conversar sobre a obra funcionam como estímulo.
A rotina de leitura é distribuída ao longo do dia. Karoliny costuma ler ao acordar, por cerca de 20 minutos, no horário de almoço ou antes de dormir. O Kindle facilita a leitura noturna, com as luzes apagadas. Mais recentemente, ela passou a incorporar audiobooks à rotina, ouvindo capítulos durante deslocamentos e atividades físicas. Com essa dinâmica, afirma conseguir concluir livros de 200 a 300 páginas em poucos dias.
Entre as obras que ajudaram a “destravar” períodos de bloqueio leitor, cita autores como Nicholas Sparks, Colleen Hoover e o livro A menina que roubava livros. Mais recentemente, destaca a série A Empregada, de Freida McFadden, lida em poucos dias, no fim de, 2024. Em, 2025, seguiu priorizando livros de suspense, além de leituras de autoajuda e filosofia.
Karoliny também fala sobre abandono de livros. Para ela, se a obra não engaja, a leitura pode ser interrompida, exceto quando há compromisso com clubes do livro. O cansaço e o uso do celular aparecem como principais obstáculos, especialmente por causa das notificações. Ainda assim, acredita que o tempo não é um impeditivo absoluto. “Se a gente quiser encaixar pelo menos 10 minutos por dia, dá.”
Mais do que quantidade, ela associa a leitura a um espaço de silêncio e autocuidado. “É uma coisa que eu faço comigo, para mim mesma”, define. Para quem deseja criar o hábito, recomenda começar por livros de interesse pessoal, preferencialmente mais curtos, estabelecer metas pequenas e buscar companhia para ler. “A leitura em conjunto incentiva a continuidade.”
“A leitura começa como obrigação e pode se tornar fruição”, explica professor

Para o professor Thiago Soares, docente dos cursos de graduação e pós-graduação em Letras da Universidade Federal do Tocantins (UFT), câmpus de Porto Nacional, a formação do hábito de leitura começa, muitas vezes, como uma obrigação. Com o tempo e a frequência, essa obrigação pode se transformar em fruição e, posteriormente, em necessidade. Segundo ele, isso depende do que se lê, de como se lê e da forma como a leitura é apresentada.
O incentivo, de acordo com o professor, é fundamental nos primeiros anos da alfabetização, especialmente entre os 5 e 6 anos. Nesse período, o contato com livros ilustrados e narrativas simples contribui para dar sentido ao aprendizado das primeiras letras. Quadrinhos e obras com forte apelo visual ajudam a estabelecer conexões entre imagem, linguagem e escrita.
Entre os fatores que afastam alunos da leitura, Thiago aponta a ideia de que ela precisa ser apenas divertida. Para ele, nem toda leitura é prazerosa no sentido imediato. Muitas obras têm caráter reflexivo e exigem esforço cognitivo. Quando a leitura é tratada apenas como entretenimento, ou como uma tarefa mecânica de responder perguntas, o aluno tende a se afastar.
O professor destaca que ler envolve um processo complexo, que demanda tempo, energia mental e interpretação. Na escola, esse processo costuma ser reduzido ao rastreamento de informações no texto, em vez de estimular a relação entre a obra e a experiência do leitor. Para ele, a leitura deveria ser compreendida como experiência formativa, não apenas como atividade avaliativa.
Sobre a falta de livros, Thiago afirma que o problema não é a ausência de material, já que há abundância de obras físicas e digitais. O maior desafio está no tempo disponível e na mediação adequada. Ele explica que algumas obras exigem repertório de experiências para serem compreendidas, o que torna certos clássicos pouco acessíveis a adolescentes.
Obras como Crime e Castigo ou Dom Casmurro, segundo o professor, apresentam densidade filosófica e social que nem sempre dialoga com a vivência de estudantes do ensino médio. Essa inadequação pode tornar a leitura distante e desestimulante. Em contrapartida, livros com narrativas mais próximas da realidade juvenil tendem a facilitar a aproximação inicial.
Thiago também avalia que o currículo escolar pode tanto ajudar quanto atrapalhar a formação do leitor. A escolha de obras muito complexas, sem mediação adequada, cria barreiras linguísticas, históricas e existenciais. Para ele, iniciar por romances de leitura fluida, crônicas e textos mais curtos pode favorecer a continuidade.
A leitura digital, na avaliação do professor, é uma aliada importante e amplia o acesso a obras que, de outra forma, seriam inacessíveis. No entanto, ela não deve ser vista como substituta do livro físico. O excesso de estímulos nos dispositivos eletrônicos tende a fragmentar a atenção e favorecer leituras superficiais.
Por fim, Thiago ressalta que a leitura é, essencialmente, um ato solitário, enquanto a escola é um espaço de socialização. Essa contradição torna difícil transformar a leitura em experiência plena no ambiente escolar. Para ele, compreender essa característica é um passo importante para repensar a forma como a leitura é apresentada aos alunos, deixando de ser apenas uma obrigação e se aproximando de uma experiência formativa.
