Levantamento da Prefeitura indica que 85% da população trans em Palmas já sofreu violência ou discriminação
30 janeiro 2026 às 11h00

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Um levantamento preliminar da Prefeitura de Palmas revela que a violência e a discriminação fazem parte da realidade da maior parte da população trans e não binária da Capital. De acordo com dados do CensoTrans, 85,3% das pessoas que participaram da pesquisa afirmaram já ter sofrido algum tipo de agressão ou tratamento discriminatório no município.
Os números foram apresentados na noite de quarta-feira, 28, durante evento realizado no Espaço Cultural José Gomes Sobrinho, e fazem parte de um mapeamento das condições de vida dessa população. Até o momento, 76 pessoas responderam ao formulário, que permanece aberto para novas participações.
Entre as situações relatadas, a violência verbal aparece como a ocorrência mais frequente, mencionada por 65,3% dos participantes, geralmente em ambientes públicos ou privados. Também foram apontadas violências de natureza psicológica (44%), física (24%) e sexual (21,3%).
A pesquisa evidencia ainda um cenário de insegurança e baixa confiança institucional. Segundo o levantamento, 81,3% das pessoas trans não se sentem seguras de forma constante em Palmas, enquanto 70,7% afirmam não se sentir à vontade para denunciar episódios de violência. Entre essas, 77,4% dizem não enxergar a família como uma rede de apoio efetiva.
No campo social e econômico, os dados mostram contrastes. Mais de 60% das pessoas que responderam ao censo concluíram o Ensino Médio ou tiveram acesso ao Ensino Superior e à pós-graduação. Em sentido oposto, 36% relataram trajetórias educacionais interrompidas, o que indica dificuldades de permanência no ambiente escolar associadas a fatores estruturais e à discriminação.
A inserção no mercado de trabalho formal foi declarada por 46,1% dos participantes, mas a renda segue concentrada nas faixas mais baixas: 61,3% vivem com até um salário mínimo ou não possuem renda. Na área da saúde, pouco mais da metade afirma conseguir atendimento quando necessita, enquanto quase metade relata dificuldades ou impossibilidade de acesso. O uso dos serviços ocorre, majoritariamente, em situações de urgência, o que aponta fragilidades no acompanhamento pela atenção básica.
Durante a apresentação dos dados, o professor da rede pública Cássio Alexandre Bernardelli destacou que o levantamento contribui para direcionar políticas públicas. Segundo ele, o fortalecimento da comunidade trans passa pela construção de ações que atendam diretamente quem enfrenta maior vulnerabilidade.
O secretário extraordinário de Igualdade Racial e Direitos Humanos, José Eduardo de Azevedo, afirmou que os resultados expõem entraves persistentes no acesso a direitos e na relação com as instituições. Ele citou ações em andamento, como a ampliação de formações para servidores e a participação da secretaria na elaboração do novo Procedimento Operacional Padrão da Guarda Metropolitana de Palmas para o atendimento de pessoas LGBT.
Medidas propostas
Com base nas informações levantadas pelo CensoTrans, a Secretaria Extraordinária de Igualdade Racial e Direitos Humanos apresentou um conjunto de encaminhamentos administrativos e políticos. Entre as propostas estão a publicação de portaria municipal sobre o uso do nome social, a criação de um canal específico de escuta para a população trans, a formação de um grupo de trabalho intersecretarial e a realização de mutirões informativos sobre retificação de registro civil.
Também foram mencionadas ações voltadas à capacitação de servidores públicos, ao fortalecimento do Ambulatório Trans, à criação de rodas mensais de apoio, à articulação de iniciativas de empregabilidade e à inclusão das demandas da população trans no planejamento orçamentário do município, além da preparação de projetos para captação de recursos externos.
Desenvolvido sem custos diretos para a administração municipal, com apoio de organizações e ativistas locais, o CensoTrans segue aberto à participação de pessoas trans e não binárias interessadas em contribuir com o mapeamento.
