Representante indígena do Tocantins no Miss Brasil Mundo atua na prevenção ao suicídio nas aldeias da Ilha do Bananal
27 janeiro 2026 às 10h23

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A representante do Tocantins no Miss Brasil Mundo 2026, Tainá Marrirú Karajá, de 25 anos, leva ao concurso nacional uma trajetória que combina esporte, pesquisa acadêmica e atuação direta em aldeias indígenas, com foco na prevenção do suicídio e na promoção da saúde mental. A 64ª edição do concurso será realizada no sábado, 31, em Brasília.
Formada em Educação Física pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Tainá atuou como pesquisadora no Distrito Sanitário Especial Indígena Tocantins (DSEI/TO) e desenvolve ações junto à comunidade da aldeia Santa Isabel, na Ilha do Bananal. Embora tenha nascido e sido criada em São Paulo, ela afirma que sempre teve o retorno ao Tocantins como objetivo. Segundo a miss, a formação acadêmica foi pensada justamente para que pudesse contribuir com o próprio povo.
Inserida em concursos de beleza desde os 16 anos, Tainá construiu uma carreira contínua como miss, com títulos estaduais e participação em disputas nacionais e internacionais. Ela relata que, ao avançar nesses espaços, passou a perceber a ausência de mulheres indígenas e decidiu transformar a participação em uma forma de representação. “Quando cheguei a concursos maiores, entendi que estar ali também era uma missão”, afirma.
A escolha pelo Miss Brasil Mundo ocorreu, segundo ela, pela proposta da franquia, que adota o lema Beleza com Propósito. Para Tainá, o concurso exige que a candidata tenha atuação social concreta e voz ativa na defesa das causas que representa, o que dialoga diretamente com o trabalho que já desenvolvia antes da competição.
É nesse contexto que surge o Projeto Ahandú, iniciativa criada por Tainá a partir da vivência nas aldeias e da observação das dificuldades enfrentadas por crianças e jovens indígenas. A miss explica que o projeto tem como objetivo promover a saúde mental e física por meio da educação física, do esporte e da articulação com a área da saúde.
Dados do Ministério da Saúde mostram que, em ,2023, a taxa de suicídio entre pessoas indígenas chegou a 18,2 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional. Para Tainá, esse cenário reforça a urgência de ações preventivas. Ela defende que a educação física, quando integrada a equipes multidisciplinares, pode atuar como ferramenta de cuidado, fortalecimento de vínculos e pertencimento comunitário.
O Projeto Ahandú atua com oficinas, práticas corporais e rodas de conversa nas aldeias, especialmente na Ilha do Bananal, e vem sendo expandido para outras regiões. A iniciativa foi criada em memória do pai de Tainá, que sempre esteve envolvido em ações sociais, influência que, segundo ela, foi determinante para sua atuação comunitária desde a adolescência.
A preparação para o Miss Brasil Mundo envolve acompanhamento em áreas como comunicação, oratória e saúde mental, além da parte estética. Tainá afirma ter consciência da responsabilidade de representar o Tocantins e o povo Karajá em um espaço de grande visibilidade nacional, especialmente pelo fato de nunca ter havido uma Miss Brasil Mundo indígena.
Segundo ela, mais do que a disputa por um título, a participação no concurso é uma oportunidade de ampliar a visibilidade das mulheres indígenas. “Não é só sobre mim”, afirma, ao destacar que espera que sua trajetória sirva de referência para meninas indígenas que, como ela na infância, nunca se viram representadas nesses espaços.
Após a etapa nacional, a vencedora poderá representar o Brasil no Miss World, concurso internacional da franquia. Independentemente do resultado, Tainá Marrirú Karajá afirma que seguirá atuando com o Projeto Ahandú e com ações voltadas à promoção da saúde mental e do esporte em comunidades indígenas.
