Por Fernando Maciel Vieira

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Se você está lendo isso agora em vez de estudar aquilo que jurou começar hoje, parabéns: você é humano. Compartilhe com outro mentiroso profissional que você conhece.

Os antropólogos têm um nome bonitinho para isso: dissonância cognitiva. Os psicólogos chamam de autossabotagem. Eu chamo de “síndrome do eu-vou-mas-não-vou”, doença crônica que atinge 10 entre 10 brasileiros. O curioso é que somos campeões mundiais nessa modalidade olímpica de enganação própria.

A verdade nua e crua — aquela que os psicólogos falam baixinho nos consultórios — é que o ser humano é mestre em retórica e péssimo em prática. Somos uma espécie que evoluiu desenvolvendo a capacidade de criar narrativas incríveis sobre nós mesmos, enquanto nossas ações contam uma história completamente diferente. É tipo aquele amigo que diz “eu te ligo depois” e você sabe que não vai ligar. Só que fazemos isso com nossas próprias vidas, em escala industrial.

Existe uma piada cósmica acontecendo bem debaixo do nosso nariz, e nós somos simultaneamente os comediantes e a plateia. Toda segunda-feira, milhões de brasileiros acordam jurando que “hoje é o dia” — vão estudar, vão à academia, vão organizar a vida. Terça-feira chega, e o único exercício que fizemos foi rolar o feed do Instagram. A academia? Ah, a academia está ali, quietinha, cobrando a mensalidade como um sarcasmo automatizado.

Mas o engraçado — no sentido trágico da palavra — é quando escalamos isso para o coletivo. Aí a comédia vira teatro do absurdo. Dizemos que “educação transforma vidas” enquanto tratamos professor como profissão de quem “não deu certo na vida”. Choramos pela qualidade do ensino público enquanto votamos em quem promete cortar verba da educação. É quase poético: somos uma nação de poetas que não leem poesia, de educadores que desvalorizam a educação, de futuros brilhantes construídos sobre alicerces de “deixa para depois”.

Olha que interessante: quando a conta aperta, quando o orçamento grita por socorro, o que cortamos primeiro? O curso de inglês do filho. A faculdade que mal começamos. Aquele livro que ia “mudar nossa vida”. Mas o parcelamento da TV de 65 polegadas? Esse é sagrado. O financiamento do carro que custa metade do salário? Intocável. A mensalidade da escola? “Ah, mas é cara demais, vamos ver uma mais barata” — como se educação fosse picanha, que a gente compra a de segunda quando a de primeira está cara.

E tem mais: sobra dinheiro para pagar juros estratosféricos dos bancos (aqueles mesmos que lucraram bilhões enquanto você reclamava do PIX), mas falta para comprar cadeiras decentes nas escolas públicas. Tem orçamento para estádio de futebol para Copa do Mundo que já passou, mas não tem para laboratório de ciências nas escolas. É uma matemática fascinante: conseguimos ser um país que investe mais em entretenimento do que em cérebros. Deve ser por isso que somos tão bons em carnaval e tão ruins em PISA.

Quer saber por que mentimos tanto para nós mesmos e o que fazer com isso? Continue lendo. Ou não. Afinal, você provavelmente disse que ia fazer outra coisa mesmo.

* Fernando Maciel Vieira é professor da rede pública estadual.