Por Fernando Maciel Vieira 

Quando Bernardinho, técnico multicampeão de vôlei, confessa publicamente que está sofrendo para tirar resultados da geração atual e se diz “preocupado”, um professor de escola pública no interior do país se pergunta: “Se ele, com toda estrutura e títulos, fala assim, o que dizer de mim?”

A pergunta não é retórica. É o grito silencioso de milhares de educadores que enfrentam diariamente o maior desafio da profissão: transformar alunantes em estudantes. Não é apenas uma questão semântica — há quem assiste aula e há quem estuda. A diferença entre essas duas posturas define o abismo que separa a educação ideal da educação real.

O problema que ninguém quer admitir

Nas escolas públicas, especialmente aquelas que atendem comunidades vulneráveis, o professor não lida apenas com déficits de aprendizagem. Lida com alunos em luta pela sobrevivência, onde estudar é luxo diante de questões mais urgentes: fome, violência, ausência familiar, falta de perspectiva.

Como convencer um jovem a sair da posição passiva para a ativa quando sua realidade ensina justamente o contrário? Como falar de futuro para quem mal tem presente?

O carrossel das soluções mágicas

A cada dia, surge uma nova receita: seja mais rígido, coloque disciplina. Ou então: seja mais leve, faça aulas diferentes, transforme a sala em circo. Leve tecnologia — até os alunos cansarem e voltarem ao mesmo ponto. Fale para as paredes enquanto todos dormem.

O professor tenta tudo. E quando surge um “projeto de sucesso”, com fotos e vídeos nas redes sociais, a pergunta crucial é evitada: qual foi a porcentagem real de alunos engajados? A resposta, honesta, raramente ultrapassa 10 a 15%.

Mas ninguém quer ouvir isso. Prefere-se a narrativa do sucesso, mesmo que ele atinja apenas uma pequena parcela. Os demais? Seguem invisíveis.

A solidão do professor realista

Existe uma solidão particular em ser o professor que enxerga essa realidade. Enquanto formações pedagógicas vendem metodologias infalíveis e palestrantes motivacionais celebram casos isolados como regra, o educador que está na trincheira sabe: não há fórmula mágica.

Pior que isso é o peso da culpa. Se Bernardinho, com atletas de alto rendimento, infraestrutura de primeiro mundo e salários milionários, admite dificuldade com esta geração, por que o professor — numa escola sucateada, com salário que mal paga as contas, em cidades que não são nem Goiânia nem Palmas — deveria sentir que o fracasso é só dele?

A pergunta que fica

Como dar o melhor na sala de aula quando a estrutura desmorona? Como manter a esperança sem cair na ilusão? Como distinguir o que é possível do que é propaganda?

A resposta talvez esteja em admitir a verdade: não sabemos. E está tudo bem não saber. O professor que reconhece seus limites não é fracassado — é honesto. Aquele que continua tentando, mesmo sem garantias, não é ingênuo — é corajoso.

Porque entre as ilusões vendidas e as mentiras contadas, há uma verdade inconveniente: educar nunca foi fácil. E nesta geração, com seus desafios particulares, talvez seja a tarefa mais difícil que já enfrentamos.

A questão não é se temos respostas. É se temos coragem de fazer as perguntas certas — e de parar de fingir que sabemos tudo.

Nota do autor: Este artigo nasce de um desabafo real, de quem vive a educação pública por dentro. Não traz soluções prontas porque elas não existem. Traz, porém, a urgência de um debate honesto sobre o que realmente acontece nas salas de aula brasileiras — longe dos holofotes e das estatísticas maquiadas.

Fernando Maciel Vieira é professor da rede pública estadual de ensino.