Por: Fernando Maciel Vieira 

Não é à toa que a polarização política contemporânea não é um debate de ideias — é uma guerra de identidades. Você não discute mais a política econômica: você é a política econômica. Questionar a ideia é questionar a pessoa. E questionar a pessoa é declarar guerra à tribo inteira. O que deveria ser conversa virou trincheira. O que deveria ser pensamento virou pertencimento. “Cachorro que late muito, morde pouco.” E o barulho que fazemos com nossas certezas talvez seja, exatamente, o barulho do medo que não conseguimos nomear.

A humanidade sempre se definiu pela capacidade de viver no intervalo entre o que sabe e o que não sabe. A ciência nasce da dúvida. A arte nasce da dúvida. O amor — esse abismo sem mapa — é a dúvida na sua forma mais pura e mais corajosa. Toda grande virada da história humana começou com alguém que teve a audácia de dizer: “E se eu estiver errado?” Galileu duvidou. Darwin duvidou. Freud duvidou. Mandela duvidou do inevitável. E todos eles foram, em algum momento, perseguidos pelos que tinham certeza. O que estamos fazendo ao eliminar a dúvida não é nos tornar mais fortes. É nos tornar menos humanos. A psicóloga Brené Brown passou anos pesquisando vulnerabilidade e chegou a uma conclusão que parece simples e revoluciona tudo: a vulnerabilidade não é fraqueza. É a origem de toda coragem. E duvidar — assumir publicamente que não se sabe, que se pode estar errado, que o mundo é mais complexo do que o feed sugere — é o ato de vulnerabilidade mais corajoso que existe hoje. Mas coragem dá trabalho. Certeza é mais prática. Zumbi não cansa.

Há uma pergunta que você provavelmente não faz há muito tempo. Não porque ela não exista — ela existe, latente, incômoda, batendo devagar na porta dos fundos da sua consciência. Você não faz porque aprendeu, cedo e bem, que perguntar é fraqueza. Que duvidar é desvio. Que quem não sabe é porque não estudou, não se esforçou, não acreditou o suficiente. A certeza virou virtude cardinal da modernidade — e com ela, silenciamos a única coisa que nos fez humanos desde que descemos das árvores: a capacidade de olhar para o desconhecido e dizer, com honestidade radical, “não sei”.

Só que “não sei” virou palavrão. E numa sociedade que confunde convicção com inteligência, humildade epistêmica com incompetência, e dúvida com fraqueza de caráter, o resultado não poderia ser outro: produzimos, em escala industrial, seres humanos que sabem tudo, entendem tudo, têm opinião formada sobre tudo — e que entram em colapso silencioso diante de uma pergunta que não tem resposta no Google em menos de três segundos.

O filósofo Sócrates foi condenado à morte por fazer perguntas. Hoje ele seria cancelado antes do julgamento. A ironia é pesada demais para ser coincidência: o homem que fundou o pensamento ocidental com a frase “só sei que nada sei” seria, nos algoritmos contemporâneos, marcado como conteúdo de baixo engajamento. Afinal, quem curte uma postagem que termina em dúvida? A psicologia tem um nome técnico para o que fazemos quando a incerteza nos ameaça: intolerância à ambiguidade. Michel Foucault, por outro caminho, chamou atenção para como as sociedades constroem regimes de verdade — sistemas que decidem o que pode ser dito, o que deve ser calado e quem tem autoridade para falar. Hoje esse regime não está mais nos livros nem nas igrejas. Está no feed. E o feed não tolera ambiguidade porque ambiguidade não gera clique.

O sociólogo Zygmunt Bauman já havia diagnosticado: vivemos numa modernidade líquida onde tudo flui rápido demais para sedimentar — exceto o medo. O medo solidificou. E o antídoto que encontramos para o medo não foi a coragem de enfrentá-lo, mas a certeza de evitá-lo. Como diz o povo com uma sabedoria que a academia demora décadas para formalizar: “Santo de casa não faz milagre” — e a dúvida, que deveria ser nossa santa protetora, foi expulsa de casa faz tempo.

Quando a dúvida dói demais, o ser humano faz o que sempre fez: procura a tribo. Não a tribo do afeto genuíno — a tribo da confirmação. O grupo que pensa igual, fala igual, consome igual e, principalmente, tem certeza das mesmas coisas. O psicólogo Jonathan Haidt chamou isso de raciocínio motivado: não pensamos para descobrir a verdade, pensamos para defender o que já acreditamos. A conclusão vem primeiro. O argumento vem depois, como assessor de imprensa da convicção já formada. Nas tribos digitais, isso ganhou nome científico — câmaras de eco — e alcance civilizatório. Você não precisa mais encontrar alguém que discorde de você. O algoritmo já providenciou isso. Ele sabe, com uma precisão que deveria nos envergonhar, que você prefere ser confirmado a ser desafiado. E ele entrega o que você quer com a generosidade de um traficante de certezas.

O resultado é uma sociedade que confunde concordância com verdade. Se todo mundo no meu grupo acredita nisso, então é verdade. Se alguém de fora questiona, é porque está enganado — ou, pior, é inimigo. O outro, aquele que pensa diferente, deixou de ser um interlocutor e virou uma ameaça existencial. Não porque o argumento dele seja perigoso. Mas porque ele tem o poder de instalar uma dúvida. E a dúvida, para o zumbi de certeza, é vírus. Como dizia os antigo, que nunca leu Haidt mas entendia de gente: “Quem não quer aprender, arranja motivo pra não ouvir.”

Aqui mora o paradoxo mais cruel desta história. O medo que sentimos do diferente — do outro partido, da outra religião, da outra cor, da outra geração — não é, no fundo, medo do outro. É medo de nós mesmos diante do outro. É o pavor de que o encontro genuíno com uma perspectiva diferente nos obrigue a revisar algo. A admitir que talvez não soubéssemos tanto assim. A sentar confortavelmente na cadeira desconfortável da incerteza. O filósofo Emmanuel Levinas passou a vida inteira falando sobre o rosto do outro como convite ético fundamental — olhar para quem é diferente e reconhecer nele uma humanidade que interpela a sua. Só que olhar de verdade para o outro exige que você primeiro olhe para si. E olhar para si, com honestidade, significa encontrar as dúvidas que você passou anos escondendo atrás das certezas.

E então chegou a Inteligência Artificial — e com ela, um pânico que vai muito além da tecnologia. O medo que sentimos da IA não é medo de ser substituído, embora seja isso que dizemos. É um medo mais antigo e mais honesto: o medo de ser confrontado com nossa própria superficialidade. Porque o grande segredo que ninguém conta sobre a Inteligência Artificial é que ela não funciona pela certeza. Ela funciona pela dúvida. O mecanismo central que comanda toda a sofisticação dos grandes modelos de linguagem tem um nome elegante e revelador: prompt. Uma palavra que em português simples significa uma pergunta bem feita, uma incitação, o que faz mover. A máquina que tanto nos amedronta é, na sua essência, um sistema que espera ser questionado. Quanto mais precisa, mais rica, mais honesta for a pergunta — melhor a resposta. A IA não tem ego para defender. Não tem tribo para proteger. Não entra em pânico quando não sabe. Ela simplesmente processa a dúvida e oferece um caminho. Enquanto nós, os seres supostamente superiores, fugimos da dúvida como o diabo fuge da cruz.

A ironia de toda essa história é que criamos uma máquina que opera melhor do que nós exatamente no ponto em que nos tornamos mais fracos: a arte de perguntar. A IA não nos venceu pela inteligência. Ela nos expôs pela rigidez. Ela é, sem querer, o espelho mais honesto que já construímos — e o que vemos nele nos incomoda profundamente, porque reflete não o que sabemos, mas o quanto esquecemos de duvidar.

Aqui seria o momento do artigo oferecer cinco dicas práticas com bullet points e um título otimizado para SEO. Não vou fazer isso. Porque a solução para uma sociedade viciada em respostas não é mais uma resposta. É o reaprendizado lento, desconfortável e necessário de conviver com a pergunta. Pergunte mais. Tenha menos certeza. Ouça quem pensa diferente sem a missão secreta de convertê-lo. Admita que não sabe — e descubra que isso não te mata, apenas te incomoda, que é exatamente o que deveria acontecer. Como disse Guimarães Rosa, que escrevia sobre sertão mas entendia de alma: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.” Viver é desinquietar. Quem não aguenta a desinquietação não está vivendo — está apenas administrando a certeza até o fim.

E no fim, a pergunta que fica — aquela que você talvez não faça há muito tempo — é simples e devastadora: você sabe quem você é quando tira a certeza?

Não precisa responder agora. Na verdade, é melhor que não responda. Fique um tempo com a pergunta. Deixe ela te incomodar. Deixe ela te mover.

Isso se chama pensar. E é, surpreendentemente, ainda permitido.