Quem poderá nos salvar, o professor? Diante de tantas violências, dor e sofrimento, isso é educação?
16 abril 2026 às 15h24

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Por: Fernando Maciel Vieira
O primeiro rosto é o da violência física — a mais visível, a mais fotografada, a que gera nota de repúdio e esquecimento em quarenta e oito horas. São as agressões diretas a professores, as brigas que viram facada, os ataques que chegaram a resultar em massacre, como o de Aracruz, no Espírito Santo, em 2022, que matou quatro pessoas dentro de uma escola e feriu dezenas. A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar do IBGE mostra que o envolvimento de adolescentes em brigas com armas brancas no ambiente escolar não é episódio isolado — é dado de série histórica.
O segundo rosto é o da violência verbal e psicológica — aquela que não deixa marca na pele, mas que tritura por dentro. O professor humilhado na frente da turma, xingado, filmado em momento de fragilidade, ridicularizado nas redes. Essa violência é silenciosa o suficiente para não virar manchete, mas intensa o suficiente para adoecer. Dados da CNTE apontam que mais de 68% dos professores brasileiros já sofreram algum tipo de violência no exercício da profissão. Mais de dois terços. Se isso fosse em qualquer outra categoria profissional, já teríamos CPI.
O terceiro rosto é o mais perverso porque usa terno e usa PowerPoint: é a violência simbólica do Estado. A negligência elegante. O teto que cai, o banheiro que não funciona, o salário que não chega ao piso legal — que, segundo o Todos Pela Educação, ainda é descumprido em centenas de municípios brasileiros. É a política pública que chama o professor de “herói” no dia do professor e de “gasto” no dia do orçamento. É exigir missão de santo com salário de estágio.
E no meio de tudo isso está um ser humano.
Um ser humano que acorda cedo, enfrenta ônibus lotado, entra numa sala onde às vezes tem medo — medo real, não metáfora —, e ainda assim abre o livro. Que leva trabalho para casa não por escolha romântica, mas porque não teve tempo de corrigir durante a aula em que precisou separar briga, ligar para a mãe de um aluno e improvisar cadeira porque as três do fundo estão quebradas há dois meses. Que chora no carro depois de um dia particularmente brutal e no dia seguinte volta, porque tem trinta e oito rostos esperando — alguns com fome, alguns com medo, alguns carregando em casa um nível de violência que a escola nem sequer consegue imaginar direito.
Parece roteiro de filme de herói de baixo orçamento: a sociedade está em chamas, a civilidade descendo pelo ralo e, de repente, todos olham para uma figura exausta, segurando um pincel atômico seco e um plano de aula feito às três da manhã. “Ei, professor, resolve aí!”, grita a multidão. É fascinante como a escola virou o SAC do Apocalipse. Tem briga no trânsito? Falta educação. O jovem não sabe lavar louça? A escola não ensina o que importa. O mundo está um caos de ódio? Culpa do currículo. Pedir ao professor que salve a humanidade enquanto ele tenta explicar a diferença entre “mas” e “mais” para trinta adolescentes movidos a dancinhas não é esperança. É sadismo com diploma.
Mas o que ninguém gosta de dizer em voz alta é o seguinte: esse professor está sendo espancado.
Não metaforicamente. Fisicamente. Com soco, chute, cadeira arremessada, faca mostrada, ameaça gravada em vídeo e postada com emoji de risada. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 registrou crescimento expressivo de agressões em ambiente escolar — e o professor está no centro disso, não como testemunha, mas como alvo. A OCDE, no seu levantamento TALIS, já colocou o Brasil entre os países onde os professores mais sofrem ameaças de alunos no mundo. Paramos para pensar nisso? Somos líderes globais em bater em quem nos ensina a não bater.
Paulo Freire escreveu que sem a escola, a sociedade não muda. Mas ele também sabia que a escola não aguenta mudar o mundo sozinha, enquanto o mundo insiste em entrar nela pelas janelas quebradas, pelos celulares filmando, pelos corredores sem luz.
No fim, se o que vemos hoje — medo nos corredores, professores adoecidos, mentes jovens sem perspectiva — ainda se chama educação, então precisamos urgentemente de um dicionário novo. E de um espelho. Porque enquanto a sociedade terceirizar para a escola o conserto do que ela mesma quebrou, continuaremos todos sentados no fundo da sala, esperando por um salvador que, honestamente, só queria que o salário caísse em dia e que o respeito voltasse a ser a nota mínima para a convivência.
Fontes: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024; OCDE, TALIS — Teaching and Learning International Survey; IBGE, Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE); CNTE, Pesquisa Nacional sobre Violência nas Escolas, 2023; Todos Pela Educação, Anuário 2023; Freire, Paulo, Pedagogia da Autonomia, Paz e Terra.
