Quem vai ensinar nossos filhos em 2040? Boa pergunta. Alguém deveria ter pensado nisso antes.”E o salário, ó!”
22 fevereiro 2026 às 14h15

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Por Fernando Maciel Vieira
O Chico Anísio já havia entendido tudo. Na Escolinha do Professor Raimundo, o personagem encerrava cada episódio falando em voz alta: “E o salário, ó!”. E a expressão que se instalava no rosto dele depois — aquela mistura de constrangimento, resignação e humor de velório — dispensava qualquer comentário adicional. A plateia gargalhava. O Brasil inteiro gargalhava. E então mudava o canal e votava nos mesmos candidatos. Isso foi nos anos 80 e 90. Estamos em 2025. O Professor Raimundo está aposentado. O salário, não.
O Brasil acaba de receber uma notícia e reagiu da única forma que sabe: ignorando. O Instituto Semesp projetou que em 2040 o país terá um déficit de 235 mil professores na educação básica. Duzentos e trinta e cinco mil. Para quem teve uma boa educação, é um número assustador. Para quem não teve — bem, aí está parte do problema. A conta é simples, o diagnóstico é antigo, a solução é conhecida, e a vontade política de executá-la é, digamos, caracteristicamente brasileira: existe no papel, no discurso e em nenhum outro lugar mensurável.
Antes que o leitor se pergunte com genuína inocência “mas por que os jovens não querem ser professores?”, é necessário um exercício de empatia básica. Você passaria cinco anos estudando, faria estágio em escola sem janela, se formaria com diploma na mão e aceitaria um salário que, dependendo do município, não paga aluguel, não paga plano de saúde, mas garante — com folga — uma conta de luz em atraso? Se a resposta for sim, o Brasil te quer. Se a resposta for não, parabéns: você tomou a mesma decisão que 235 mil pessoas tomarão antes de 2040.
O que era sátira virou política educacional consolidada. O que era piada de programa de auditório virou projeto de nação — um projeto no qual o professor é peça essencial que, por razões misteriosas que nada têm a ver com remuneração, insiste em desaparecer. Os três fatores apontados para o apagão são: jovens que não querem a licenciatura, professores veteranos se aposentando em massa e professores ativos abandonando a profissão. Três causas distintas. Uma raiz só. Mas diagnosticar a raiz exigiria enfrentá-la, e isso, convenhamos, daria muito mais trabalho do que lançar um programa federal com nome esperançoso e dotação orçamentária constrangedora.
A “valorização do professor” é, sem dúvida, o maior clássico da retórica brasileira. Supera o samba, rivaliza com o futebol e é muito mais consistente do que qualquer política pública já implementada. Cada eleição ela reaparece — jovem, vibrante, cheia de promessas — e cada gestão a enterra discretamente, sem funeral, sem nota de pesar. O professor é chamado de herói em campanha e tratado como voluntário em exercício. E herói, como todos sabemos, não precisa de piso salarial digno: herói trabalha pelo amor à pátria, pela vocação, pelo olhar das crianças. Se o olhar das crianças pagasse conta de luz, a profissão estaria lotada.
As condições de trabalho entram na equação como um bônus não solicitado. Turmas com quarenta alunos onde deveriam ter vinte e cinco. Salas de aula que em qualquer outro contexto seriam autuadas pela vigilância sanitária. Violência que vai do desrespeito cotidiano à agressão física documentada. Ausência de suporte psicológico para profissionais que passam o dia inteiro gerindo conflito, frustração e a ansiedade coletiva de uma geração. E, ao final de tudo isso, a nobre expectativa social de que o professor seja paciente, criativo, inovador, presente, inspirador e grato. Grato, principalmente. Porque poderia estar desempregado.
A síndrome do abandono — professores pedindo exoneração, migrando para o setor privado ou simplesmente adoecendo até não poder mais continuar — não é fraqueza de caráter. É matemática comportamental. Nenhum ser humano sustenta indefinidamente uma relação em que dá tudo e recebe, em troca, aplauso retórico e parcelamento do piso em três vezes. O esgotamento não é surpresa — é o desfecho lógico de um sistema que exige excelência e oferece precariedade com sorriso na face.
E enquanto o corpo docente envelhece sem reposição, enquanto as licenciaturas esvaziam e os concursos públicos atraem cada vez menos candidatos, o Brasil segue produzindo documentos extraordinários sobre a importância da educação. Planos decenais. Metas nacionais. Diretrizes curriculares de fazer inveja. O país nunca foi tão bom em escrever sobre educação. É uma pena que escrever sobre ela seja, curiosamente, mais valorizado do que ensiná-la.
Em 2040, quando a conta chegar — e ela virá, com juros e correção monetária —, o Brasil vai olhar para o buraco de 235 mil professores com aquela cara de espanto que reserva para as tragédias que ajudou a construir tijolo por tijolo. Vai montar uma força-tarefa. Vai criar um grupo de trabalho. Vai fazer um seminário com coffee break e folders coloridos. E alguém, do alto de um púlpito qualquer, vai perguntar com toda a sinceridade do mundo:
“Mas por que ninguém quer ser professor?”
A resposta vai ser a mesma que o Professor Raimundo já dava — sem precisar de texto, sem precisar de argumento. Só falando o número em voz alta: “E o salário, ó!”.
E fazendo aquela expressão.
