Carlos Velozo: “Não podemos ter paixões maiores que o compromisso com a cidade. Tudo que for bom para Palmas será feito”

09 julho 2025 às 15h56

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Na manhã de quarta-feira, 9 de julho, o prefeito interino de Palmas, Carlos Eduardo Velozo (Agir), recebeu a reportagem do Jornal Opção Tocantins em seu gabinete, no Orquidário Municipal. A entrevista estava marcada para logo após um compromisso pessoal, ele havia acabado de sair do velório de um amigo. Chegou ao local em silêncio, visivelmente comedido. Apesar do semblante fechado, sua fala, durante toda a conversa, foi marcada por firmeza e convicção.
No comando da Prefeitura de Palmas desde o afastamento de Eduardo Siqueira Campos (Podemos) por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), no final de junho, Carlos Velozo detalhou como se deu sua entrada na política ao lado do ex-prefeito, comentou as especulações sobre influência do grupo Monte Sião na gestão, respondeu sobre alianças políticas, orçamento das principais pastas e relação com a Câmara Municipal, inclusive as críticas à condução do ex-chefe de gabinete Carlos Júnior.
Ao longo da entrevista, ele ressaltou que não tem receio de tomar decisões impopulares e que está disposto a conduzir uma gestão de forma autônoma, com foco nas áreas da saúde e da educação. “Ninguém tem o CPF aqui na Prefeitura. Quem responde por qualquer erro sou eu”, ressatou.
“A entrada na chapa com Eduardo começou com um pedido de perdão”
Carlos Velozo afirma que sua aproximação com Eduardo Siqueira Campos teve início a partir de um encontro entre o ex-prefeito e seu tio, o pastor Amarildo Martins, líder da Assembleia de Deus Madureira. “Eduardo perguntou ao pastor para que servia o perdão. Depois, pediu perdão. Não sei o motivo. A partir dali, começaram os diálogos”, relatou.
O convite para ser vice-prefeito partiu de um acordo político entre o Podemos e o Agir, selado em março de 2024. Segundo Carlos, houve compromisso de autonomia administrativa e participação na indicação de secretários. Hoje, além de prefeito interino, ele preside o Agir no Tocantins.
Foi uma construção política com liberdade na gestão.
O interino comentou ainda que, durante o afastamento de Eduardo Siqueira, só o visitou uma vez, logo após sua prisão. Depois disso, não conseguiu mais, devido às obrigações da gestão, que consomem tempo, segundo ele.

Pastor Amarildo, Monte Sião e a autonomia nas decisões
Sobre as especulações de que o grupo Monte Sião, ligado ao pastor Amarildo, teria influência direta na Prefeitura, Carlos Velozo nega vínculos formais e diz que seus conselheiros não interferem nas decisões. “Meu tio é meu tio desde que nasci. É natural que me aconselhe, mas eu ouço tudo e retenho o que é bom”, disse, citando um versículo bíblico.
Tenho contrariado mais quem me aconselha de perto do que quem está longe.
Ele também afirma não ter relação com a empresa Monte Sião, embora reconheça que o nome tem sido associado à sua gestão, principalmente por causa de uma das sócias do grupo, a advogada Dalide Corrêa, tia da nova procuradora-geral do Município, Priscila Alencar Veríssimo, escolhida por Velozo pelo perfil técnico. O prefeito interino ressalta ainda que Dalide é presidente nacional do Agir Mulher, ou seja, ambos integram o mesmo partido, mas afirma que a relação entre eles não vai além disso.
Relação com Filipe Martins: “Não somos tão próximos”
O prefeito interino comentou ainda sobre a relação com o primo, o deputado federal Filipe Martins (PL-TO), filho do pastor Amarildo. “Admiro muito, é um dos mais trabalhadores que conheço. Mas não temos proximidade, não conseguimos nem nos falar por celular”, afirmou.
Carlos também explicou que a nomeação do secretário de Habitação, Jandir Cardoso de Vasconcelos, não foi uma indicação de Filipe, mas sim um compromisso feito ainda na pré-campanha com Eduardo.

Troca no gabinete: “Sentimento não pode interferir na gestão”
Carlos Velozo não fugiu da pergunta sobre a saída do então chefe de gabinete, Carlos Júnior, considerado homem de confiança de Eduardo Siqueira Campos. Ele fez questão de reforçar o respeito que sempre teve pelo ex-chefe de gabinete e disse que mantinha uma relação cordial e frequente com ele, especialmente por reconhecê-lo como alguém muito próximo do prefeito e da família.
“Eu sempre dizia: cuida bem do prefeito, da Polyanna, dos meninos. Ele mesmo dizia que já estava há quase 20 anos ao lado de Eduardo, era praticamente de dentro de casa”, contou. Apesar disso, reconheceu que o relacionamento institucional entre os dois esbarrava em limitações. Como vice-prefeito, era cobrado por respostas e encaminhamentos da gestão, mas os pedidos, segundo ele, não avançavam. “O pedido chegava, mas parava”, resumiu.
Após assumir a Prefeitura, Velozo conta que passou a solicitar informações diretamente a Carlos Júnior, pela confiança e acesso que ele tinha ao prefeito. No entanto, não obteve retorno. Preferiu interpretar a falta de resposta como um reflexo do momento delicado. “Entendi que ele estava abalado emocionalmente. E precisei trocar. Troquei por essa razão”, emendou.
A decisão, segundo ele, não foi tomada com pesar. Reforçou que, como gestor, não pode permitir que sentimentos individuais atrapalhem o funcionamento da administração.
Quem se nega a passar informação não está dificultando a minha vida, está atrapalhando a cidade. Cada decisão pode trazer benefício ou prejuízo para 320 mil pessoas. E não posso permitir que questões pessoais pesem na gestão. Se precisar tomar essa decisão de novo, eu tomo.

Condução da gestão e relação com secretários
Um dos principais desafios enfrentados na condução da gestão, segundo ele, tem sido fazer as pessoas entenderem que os secretários não estão ali para representar o prefeito, e sim para atender aos anseios da população. A escolha de cada nome, afirma, não foi feita para agradar aliados ou seguir recomendações políticas, mas para compor um time comprometido com as demandas do povo.
Ele admite, inclusive, que tem contrariado mais os que estão por perto do que os que estão longe, justamente por não seguir todas as orientações que recebe. Garante que ouve todo mundo, mas quem dá a palavra final é ele mesmo, com base no que considera certo. “Nenhum deles tem o CPF registrado na Prefeitura. Sou eu quem vai responder pelo que estiver certo, e também pelo que estiver errado, se acontecer”, disse reforçando que a responsabilidade é exclusivamente sua.
Câmara Municipal: cobrança por espaço e alívio das emendas
O prefeito confirmou ter participado de reuniões com os vereadores e reconheceu a insatisfação de parte deles. “Oito vereadores querem resolver questões de emendas. Outros querem participar mais da gestão, fazer indicações. Isso é legítimo. Eles estão na ponta, ouvem a população”, relatou. Reiterou, porém, que está há poucos dias no cargo e precisa de tempo para dar respostas.
Eles passaram seis meses pleiteando coisas com Eduardo. Não dá para me cobrarem tudo em sete dias.
Sobre liderança na Câmara, manteve o vereador Walter Viana (PRD) na função, nome escolhido por Eduardo e que deve ter uma reunião com o parlamentar em breve.
Sobre impeachment de Eduardo Siqueira Campos
Questionado se tem ouvido de vereadores sobre um possível impeachment do prefeito Eduardo Siqueira, o gestor interino afirma que não teria essa conversa dentro do parlamento, mas que as pessoas na rua o abordam sobre o tema.
“Na rua eu já escutei algumas pessoas falando, inclusive: ‘É hora de fazer o impeachment por causa de processos que estão sendo mostrados aí’. Eu não vejo, porque eu não sou jurista, eu não entendo. Eu sei que o impeachment é um ato político, mas no meu entendimento deve ter alguma denúncia… Na Câmara, não. Não vi vereador, ninguém ali falando, não”, pontuou.
Posicionamento ideológico, grupos políticos e respeito às diferenças
Durante a conversa, o prefeito interino também tratou do viés ideológico de sua gestão, um tema sensível, sobretudo pelo histórico conservador da família e dos aliados próximos, como o pastor Amarildo Martins e o deputado Filipe Martins (PL), ambos ligados à bancada evangélica e à direita cristã.
“Eu não vejo problema de partido, não vejo problema de bandeira, de ideologia. Eu vejo uma cidade que cabe todos nós. Tudo que for bom para Palmas, nós vamos fazer. Nós não podemos ter essas paixões maiores do que o compromisso com a cidade. Palmas me acolheu há 23 anos. Aqui eu constituí família. Então eu me sinto responsável por isso, não só pelos pioneiros, mas por quem chegou e por quem virá”, comentou.

Alianças políticas e ausência de divisões partidárias
Perguntado sobre estratégias de articulação, Carlos Velozo preferiu não falar de grupos e nem sobre eleições futuras, mas destacou que tem buscado apoio de parlamentares federais, estaduais e senadores. “Todos são importantes. A Prefeitura quer ser parceira de todos”, reforçou.
Relatou também que já teve contato com o ex-governador Mauro Carlesse, filiado ao Agir, em um café casual. “Não temos proximidade política, mas ele me disse que continua no partido”, disse.
Saúde e educação: os gargalos e os projetos
Ao abordar a gestão propriamente dita, Carlos falou com detalhes sobre os problemas orçamentários, principalmente nas áreas de saúde e educação. “O orçamento da educação é de cerca de R$ 750 milhões, mas R$ 600 milhões vão para a folha. Na saúde, o problema é ainda maior: temos 320 mil habitantes, mas quase meio milhão de cartões do SUS”, detalhou.
Disse que pretende buscar emendas parlamentares e parcerias para atacar esses gargalos, com projetos já em andamento. Entre as metas estão a zerar filas de procedimentos como vasectomia e cirurgias de catarata, ampliar o atendimento nas UBS e iniciar a construção de um hospital e maternidade na região sul de Palmas.
Visita ao TCE e pedido de ajuda
Carlos relatou ter visitado o Tribunal de Contas do Estado (TCE) logo após assumir o comando da capital, onde pediu orientação ao conselheiro Wagner Prachetes. “Fui pedir ajuda. Disse que não quero errar. Quero fazer o certo e de forma legal. Ele me colocou à disposição a equipe técnica do Tribunal. Eu vou ouvir”. Explicou.
O que move Carlos Velozo?
No fim da entrevista, ao ser questionado sobre o que pretende deixar como marca de sua gestão, independentemente de quanto tempo permaneça no cargo. Carlos foi direto: educação, saúde e tecnologia. Mas também fez questão de mencionar o aspecto humano de sua proposta.
Palmas me acolheu há 23 anos. Aqui construí minha vida. Quero deixar uma contribuição para os pioneiros, para os que chegaram depois e para os que ainda virão. A cidade não é só prédios, lago ou serra. O que Palmas tem de melhor é o seu povo.