O crescimento dos casos de feminicídio e de tentativas de feminicídio no Brasil não pode ser interpretado como uma sequência de episódios desconectados. Há um padrão claro, repetido com variações mínimas: mulheres são ameaçadas, perseguidas, agredidas e, por fim, mortas por homens que não aceitam limites, rejeição ou autonomia. Não é surpresa. É continuidade.

O Feminicídio é a etapa final de um processo. Antes dele, quase sempre há sinais evidentes: controle excessivo, ciúmes patológicos, violência psicológica, agressões físicas e ameaças. Em muitos casos, há registros formais, boletins de ocorrência, pedidos de ajuda, medidas protetivas. Ainda assim, o desfecho extremo acontece. Isso revela não apenas falhas individuais, mas um problema sistêmico.

Parte desse sistema é a forma como a sociedade ainda interpreta, ou tenta suavizar, esse tipo de crime. Expressões como “crime passional” ou “perdeu a cabeça” continuam circulando, como se fossem capazes de explicar o que, na prática, é uma decisão violenta baseada em domínio e punição. Não há impulso irracional que sustente a repetição desse padrão. Há uma lógica: a de que a mulher não pode decidir sobre a própria vida sem enfrentar consequências.

Quem tenta ou comete feminicídio não está agindo em um vazio. Está inserido em uma cultura que, historicamente, naturalizou a desigualdade de poder entre homens e mulheres. O machismo estrutural não é uma abstração, ele se manifesta na dificuldade de aceitar o fim de um relacionamento, na ideia de posse, na necessidade de controle. Quando esse comportamento encontra ausência de limites concretos, o resultado pode ser fatal.

Há também um problema de resposta institucional. Medidas protetivas são, muitas vezes, insuficientes ou mal fiscalizadas. A reincidência é alta. A sensação de impunidade persiste. E, em alguns casos, o sistema só reage depois que a violência já atingiu seu ponto máximo. A prevenção, que deveria ser o foco, acaba sendo substituída por uma resposta tardia.

Mas reduzir o problema à falha do Estado também é insuficiente. Existe uma tolerância social difusa que permite que sinais evidentes sejam ignorados. A violência psicológica é minimizada, o controle é confundido com cuidado, o ciúme é romantizado. Esse ambiente cria as condições para que o ciclo avance sem interrupção.

É preciso romper com essa lógica de forma direta. Isso passa por responsabilização rigorosa de quem agride, mas também por mudança cultural. Não há espaço para relativização. Não há justificativa possível. A tentativa de explicar o feminicídio como reação emocional apenas mascara o que ele de fato é: violência dirigida, previsível e evitável.

O aumento dos casos não é casual. É um indicativo de que o enfrentamento ainda está aquém do necessário. Enquanto a sociedade continuar tratando o problema como exceção e não como regra, a tendência é de repetição.

Feminicídio não começa no momento da morte. Começa muito antes. E é nesse início, ainda visível e evitável, que a resposta precisa acontecer. Caso contrário, o país seguirá acumulando números que, na prática, são histórias interrompidas por uma violência que já deveria ter sido enfrentada com mais rigor.