O que sentimos quando uma mulher sofre violência diante dos nossos olhos?
19 fevereiro 2026 às 10h41

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Há algo profundamente perturbador no caso de estupro de vulnerável de uma mulher investigado nas proximidades da Praia da Graciosa, em Palmas. O caso ocorreu em frente à base da Guarda Metropolitana de Palmas (GMP), com agentes no local. Alguém filmou o ato de dentro da corporação!
A vítima estava claramente embriagada, sem nenhuma chance de reação. E o homem tinha uma expressão de quem estava muito confortável, pois aparentava ter o aval do público que o assistia. Esse crime gravíssimo traz a sensação de que, enquanto uma mulher vivia um momento de vulnerabilidade extrema, o mundo ao redor seguiu observando e só reagiu depois que um vídeo começou a circular.
Antes de qualquer disputa de versões ou de responsabilidades administrativas, existe uma pergunta que precisa ser feita com honestidade: o que aquela mulher sentiu? Medo, desamparo, humilhação, confusão. Talvez tudo ao mesmo tempo.
Quando se fala em estupro de vulnerável, muitas vezes o debate público se concentra em detalhes jurídicos ou no destino do suspeito. Mas raramente se fala da dor concreta que acompanha esse tipo de violência. A vítima enfrenta o trauma do que aconteceu e ainda a exposição, os comentários, o julgamento e, muitas vezes, o silêncio das instituições no instante em que mais precisava de proteção.
A investigação conduzida pela Polícia Civil do Tocantins e a sindicância aberta pela Guarda Metropolitana de Palmas são necessárias. O afastamento de agentes e a apuração dos fatos são passos importantes. Mas isso não diminui o peso simbólico do que esse episódio representa para muitas mulheres: a sensação de que, mesmo em espaços públicos e próximos do poder público, ainda podem estar sozinhas.
O que mais dói nesse caso é a imagem que ele deixa: uma possível vítima em situação de vulnerabilidade e pessoas registrando a cena. Não sabemos ainda tudo o que aconteceu. Mas sabemos o suficiente para entender que algo falhou e falhou de forma dolorosa.
Porque a violência contra a mulher não começa no momento do crime. Ela se prolonga quando a sociedade transforma a dor em curiosidade, quando o vídeo vira assunto e quando a vítima vira quase um detalhe na narrativa.
Há muitas mulheres que assistiram às imagens e se reconheceram ali. Não necessariamente na mesma situação, mas no sentimento de fragilidade diante de um mundo que nem sempre reage a tempo.
O caso da Praia da Graciosa precisa ser investigado com rigor. Mas também precisa provocar algo mais profundo: empatia. Não a empatia superficial das redes sociais, mas aquela que incomoda, que nos faz perguntar se teríamos agido, se poderíamos ter feito algo, se estamos preparados para proteger alguém em um momento de vulnerabilidade.
Porque, no fim, o ocorrido não pode ser só um caso policial, pois é sobre a dor de uma mulher que precisou de ajuda e sobre o que nós fazemos quando essa dor acontece diante dos nossos olhos.
