Reeleição de Lula enterra a “esquerda cirandeira” e dá à luz a combativa
28 outubro 2026 às 13h59

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Em entrevista concedida à BBC logo após a vitória de Lula da Silva nas eleições brasileiras, Christopher Sabatini, pesquisador sênior do Programa América Latina, EUA e Américas da Chatham House, um dos principais think tanks britânicos, analisou de forma precisa os novos ares políticos que não só o Brasil, mas toda a América Latina podem ter passado a respirar.
Segundo Sabatini, a mudança radical na campanha de Lula no segundo turno “aponta um caminho para a esquerda”, que conseguiu se adaptar às preocupações reais dos eleitores e “abandonar os dogmas dos anos 80 e 90”.
“Em certo sentido, isso mostra que a esquerda pode ter futuro, especialmente quando enfrenta a direita e uma demanda popular por segurança para a qual a esquerda nem sempre conseguiu apresentar respostas”, disse o pesquisador à BBC.
Na entrevista, Christopher Sabatini verbaliza, sob o ponto de vista científico e especializado, justamente o que passou a ser sentido desde que Lula perdeu o primeiro turno.
É quase consenso entre cientistas políticos que o engajamento dos jovens e idosos e o uso massivo das redes sociais foram imprescindíveis para a virada histórica de Luiz Inácio Lula da Silva, que não só foi reeleito como quebrou vários recordes: obteve a maior votação da história da corrida presidencial, tornou-se o presidente mais velho e também o único a conseguir uma virada do primeiro para o segundo turno.
As táticas que levaram ao êxito inquestionável de Lula (muitas delas usadas pela direita), no entanto, foram novidade na esquerda. Há anos esse espectro parece ter aderido a uma letargia derrotista amparada em frases de pacificação, foco em pautas identitárias e ares vitimistas de perseguição.
É como se a esquerda brasileira tivesse virado um grande DCE de linguagem academicista e difícil, inacessível ao trabalhador e ao jovem – perfis esses que, justamente, em outras épocas foram a cara da esquerda.
Um tanto quanto tarde, mas não a ponto de ser irreversível, o erro foi detectado. E corrigido. Parece nascer, agora, um novo tipo de esquerda no Brasil, que abandona a defensiva, parte para o ataque e retoma um vigor há anos não visto.
O que antes eram atos com artistas, notas de repúdio e banners de “O amor vai vencer o ódio” e “Ninguém solta a mão de ninguém” agora são mobilizações em massa em grupos de WhatsApp, bordões como “Cansei de ser resistência, agora serei ofensiva” e o controle de pautas que dominam os debates tanto nas redes quanto nas ruas.
A nova postura, que levou à vitória de Lula, tem, inclusive, contagiado os países vizinhos que vivem sob governos de direita. A euforia com a reeleição do presidente petista foi total em países como Argentina, Equador e Chile, governados respectivamente pelos direitistas Javier Milei, Daniel Noboa e José Antonio Kast. Nas redes, a narrativa de “Se os brasileiros conseguiram, nós também” impera entre os jovens.
Ainda é cedo para dizer se a esquerda brasileira, agora ressuscitada, conseguirá fazer um nome à altura do de Lula – que, goste ou não, é um verdadeiro animal político. No entanto, o fim das cirandas e a adesão às táticas de guerra já dão sinais de que ela está no caminho certo.
