Quatro anos depois da chacina que marcou Miracema do Tocantins, a 80 quilômetros de Palmas, o tempo não trouxe respostas — apenas tornou o sofrimento permanente. Para dona Maria do Carmo Paula, de 68 anos, cada dia repete o trauma vivido em fevereiro de 2022. “Parece que foi tudo hoje de novo. Amanhã é a mesma coisa. Não tem como esquecer”, disse em entrevista ao Jornal Opção Tocantins.

Em menos de 24 horas, ela perdeu o marido, Manoel Soares da Silva, e os dois filhos, Edson Marinho da Silva e Valbiano Marinho da Silva. Desde então, desenvolveu um quadro grave de ansiedade, passou a fazer uso contínuo de medicação e afirma que não consegue mais permanecer sozinha à noite. “Eu fiquei muito doente. É muito ruim. Só Deus mesmo para me manter em pé.”

Após a chacina, dona Maria deixou Miracema. A mudança, no entanto, não amenizou o impacto. “Tanto faz eu estar aqui ou em outro lugar. A tristeza e a solidão são as mesmas.”

A sequência de mortes

Os crimes ocorreram nos dias 4 e 5 de fevereiro de 2022, após a morte do sargento da Polícia Militar Anamon Rodrigues de Sousa, de 38 anos, durante um confronto armado no setor Novo Horizonte II. Ele integrava a Agência de Inteligência da PM e realizava levantamento para uma operação prevista para o dia seguinte. O policial foi atingido por um disparo de calibre 22, chegou a ser socorrido, mas não resistiu.

Além do policial militar, seis civis foram assassinados em um intervalo inferior a 24 horas: Valbiano Marinho da Silva, Manoel Soares da Silva, Edson Marinho da Silva, Aprígio Feitosa da Luz, Pedro Henrique de Sousa Rodrigues e Gabriel Alves Coelho.

Parte das mortes ocorreu em circunstâncias cercadas de questionamentos sobre possíveis execuções e graves violações de direitos humanos.

Manoel Soares da Silva e Edson Marinho da Silva, pai e filho, foram mortos dentro da delegacia da Polícia Civil de Miracema, após homens encapuzados e armados invadirem a unidade durante a madrugada. Laudos apontaram múltiplos disparos de diferentes calibres.

Horas antes, Valbiano Marinho da Silva havia sido morto dentro da própria casa, na frente da família. À época, a Polícia Militar informou que ele era suspeito de ter atirado contra o sargento. Familiares, no entanto, afirmam que ele estaria algemado no momento em que foi assassinado, versão que nunca foi oficialmente esclarecida.

No dia seguinte, três jovens foram encontrados mortos no loteamento Jardim Buriti, com perfurações provocadas por arma de fogo. Um quarto jovem sobreviveu após ser baleado nas costas.

Até hoje, as investigações não concluíram oficialmente se todas as mortes fazem parte de uma mesma sequência criminosa.

Mortos durante a chacina | Foto: Montagem/g1

Medo, deslocamento e silêncio

Segundo dona Maria, parentes de outras vítimas deixaram Miracema por medo e para tentar reconstruir a vida longe do local dos crimes. “Tem mãe que não tem coragem nem de falar. Evita reunião, evita tudo”, relata.

O único sobrevivente da chacina precisou sair da cidade, mudar de endereço e identidade. Ele vive atualmente sob proteção, com acompanhamento do Ministério da Justiça.

Quatro anos sem presos, denúncias ou respostas

Passados quatro anos, não há presos, não há denúncia apresentada à Justiça e não há informações públicas sobre a conclusão do inquérito.

As investigações estão sob responsabilidade da Polícia Civil do Tocantins, por meio da Diretoria de Repressão ao Crime Organizado (Dracco), com acompanhamento do Ministério Público.

Em junho de 2022, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) cumpriu 25 mandados de busca e apreensão em Miracema, Palmas e Lajeado. Foram alvos residências de policiais militares, batalhões da PM e o Quartel do Comando Geral, na capital. Nenhuma prisão foi realizada.

Questionada pelo Jornal Opção Tocantins, a Secretaria de Segurança Pública do Tocantins (SSP-TO) informou que “continua empreendendo todos os esforços na investigação” e que o caso corre em segredo de justiça. A pasta não informou em que fase o inquérito se encontra, quantas vezes foi prorrogado ou se houve conclusão parcial ou arquivamento de linhas investigativas.

A SSP-TO também não esclareceu se foram instauradas ou concluídas sindicâncias ou processos administrativos disciplinares contra agentes públicos eventualmente envolvidos.

O Ministério Público do Tocantins (MPTO) informou que o procedimento também está sob sigilo e que, por isso, não pode fornecer detalhes sobre as providências adotadas.

Já o Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO) afirmou que “o processo mencionado tramita sob sigilo”, sem informar se há ações penais em curso, quantos processos existem, em quais varas tramitam ou se há previsão de julgamento.

A Polícia Militar do Tocantins declarou que eventuais investigações relacionadas ao caso são de competência da SSP-TO.

Caso chegou à Anistia Internacional

O caso passou a ser acompanhado por entidades de direitos humanos e foi levado à Anistia Internacional pelo Movimento Estadual de Direitos Humanos (MEDH/TO), que classifica a chacina como uma grave violação de direitos humanos, especialmente pela suspeita de participação de agentes do Estado, pela execução de pessoas sob custódia e pela ausência de responsabilização ao longo dos anos.

“O MEDH foi a única entidade que teve coragem e  levantou a voz na época por justiça divulgamos o caso nas instâncias nacionais de Direitos Humanos, pedimos a exumação dos corpos para exame de balística, atendemos as famílias, exigimos o inquérito policial, ofícios para vários órgãos e produzimos um documentário sobre o caso em parceria com a Universidade Federal do Tocantins (UFT)”, disse a presidente da entidade, Maria Vanir Ilídio. Veja documentário abaixo.

Para dona Maria do Carmo, a ausência de respostas, aprofunda o sofrimento. “O desprezo da justiça é o mesmo. A gente não sabe de nada até hoje.” Apesar disso, afirma manter a fé. “Quem faz, tem que pagar. Eu acredito em Deus.” Quatro anos depois, o pedido segue simples e inalterado: “O que eu preciso é justiça. Só isso.”