A febre das canetas emagrecedoras: riscos e impactos emocionais por trás do novo “atalho” para perder peso
30 novembro 2025 às 11h14

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O nervosismo da passageira chamou a atenção dos policiais rodoviários federais. Durante uma fiscalização de rotina na BR-153, em Uruaçu (GO), o carro que seguia para Palmas transportava 316 unidades de tirzepatida, comercializada como Mounjaro, com indícios de falsificação. O casal que fazia o trajeto saíra de Ponta Porã (MS) e, segundo a apuração do Jornal Opção Tocantins, parte da carga seria entregue na capital tocantinense, onde já havia compradores encomendados.
O episódio não é isolado. Em setembro, outra abordagem, desta vez em Araguaína, encontrou 36 ampolas e quatro seringas da mesma substância sendo transportadas sem nota fiscal.
As apreensões se somam a uma tendência nacional: nunca se vendeu, buscou e se usou tanto as chamadas “canetas emagrecedoras” quanto agora, inclusive por vias ilegais.
A popularização explosiva de medicamentos como tirzepatida e semaglutida mudou a forma como milhões de pessoas enxergam o emagrecimento. O que antes demandava meses de dieta, rotina e acompanhamento multidisciplinar virou, para muitos, uma solução “de bolso”, acessível por redes sociais e vendedores informais.
O Jornal Opção Tocantins buscou especialistas para entender os riscos envolvidos. A reportagem ouviu uma médica e uma psicóloga, que explicam os impactos clínicos e emocionais do uso dessas medicações sem orientação adequada.
O que a Anvisa diz sobre o Mounjaro e como ele age
A Anvisa ampliou, em junho de 2025, a indicação do Mounjaro (tirzepatida) para o controle crônico do peso em adultos com IMC ≥ 30 ou IMC ≥ 27 com comorbidades como hipertensão, colesterol alto, apneia do sono ou pré-diabetes. O medicamento, antes usado apenas para diabetes tipo 2, agora pode ser prescrito para emagrecimento junto de dieta e atividade física.
O Mounjaro age combinando a ativação dos receptores GIP e GLP-1, hormônios envolvidos no controle da fome e do açúcar no sangue. Isso faz com que o paciente sinta mais saciedade, coma menos, libere insulina de forma mais eficiente e reduza a velocidade de esvaziamento do estômago, o que contribui diretamente para a perda de peso. Em estudos internacionais, os pacientes perderam entre 13% e 21% do peso corporal.
Apesar dos resultados, a Anvisa alerta para efeitos adversos como náuseas, vômitos, diarreia, desidratação, alterações na vesícula biliar e reações de hipersensibilidade, além de potenciais riscos ainda em estudo. O medicamento não é indicado para menores de 18 anos e exige acompanhamento médico contínuo.
A aplicação é subcutânea, com aumento gradativo de dose. A agência recomenda reavaliar o tratamento se, após seis meses, o paciente não atingir ao menos 5% de perda de peso.
Riscos clínicos, ilegalidades e os efeitos emocionais da corrida pelo emagrecimento
A médica com atuação em nutrologia Gleyssi Couto afirma que o cenário atual já ultrapassa qualquer sinal inicial de preocupação. “Eu já considero que lidamos com problema de saúde pública, sempre a automedicação foi uma causa de preocupação entre os médicos. Mas isso teve um crescimento muito acelerado com o uso das canetas. E com isso também aumenta o número de efeitos colaterais, compensações metabólicas e até internações medicamentosas”, explica.
Ela detalha que os riscos variam, mas há um conjunto de efeitos que se repete com frequência entre os pacientes que utilizam a medicação sem orientação. “Existe a queixa de sintomas gastrointestinais muito presentes com o uso dessas medicações. Então, quadro de náuseas, vômitos, algo que tem que ser acompanhado pelo risco de distúrbio e perda de minerais, desidratação”, aponta. Segundo ela, como as canetas reduzem o apetite, muitos usuários simplesmente deixam de se alimentar e as chances de um quadro de hipoglicemia são grandes.
Outro ponto ressaltado é a perda de massa magra, comum em tratamentos sem supervisão e o famoso efeito rebote: “O paciente passa a perder músculo quando não tem um ajuste alimentar adequado para o uso desse medicamento. Se não for feita uma dose indicada para aquele paciente, com tempo de desmame adequado, isso é tudo individualizado, essa pessoa pode reganhar em pouco tempo o peso perdido.”
A apreensão de produtos falsificados com destino a Palmas reforça, segundo Gleyssi, a necessidade de atenção: “Alguns indícios servem para alertar: compra de vendedor sem habilitação, sem nota fiscal, produto abaixo do preço praticado no mercado. Os produtos originais trazem QR Code, nota fiscal, número do lote. É preciso observar inconsistências, alterações do produto, do líquido, presença de conteúdos sólidos, eles podem vir com alteração muito grande da miligrama, da diluição. A falsificação ocorre em vários sentidos.”
Sobre a legislação, Gleyssi é enfática: “Esses produtos são medicamentos. Não é um produto que qualquer pessoa pode comprar de acesso livre. Tem que ter indicação médica e é feito através de receita de controle especial. A venda sem receituário é ilegal, é crime. A venda só deveria ser feita por farmácias e drogarias.”
Ela explica que a aplicação pode ser feita pelo próprio paciente, mas jamais sem supervisão. “Sim, o paciente pode aplicar sozinho, desde que seja orientado por um profissional, com todas as orientações sobre o produto, forma correta de uso, dosagem adequada para o seu caso e com acompanhamento regular. O que não pode acontecer é compra e uso com ajuste de doses de forma desacompanhada.”
Quando há indicação clínica, o processo exige cuidado e a médica defende um acompanhamento multidisciplinar: “A avaliação começa com a anamnese, levantamento do quadro, história clínica, doenças atuais, medicações usadas. A indicação tem que ser detalhada. O paciente se beneficia muito com nutricionista, com ajuste do padrão alimentar. Em alguns casos, transtornos psicológicos afetam o quadro; esse paciente se beneficia do psicólogo. A equipe também pode incluir treinador físico.”

Do ponto de vista emocional, a psicóloga Eulália Anne Rodrigues relata que cresce o número de pessoas que chegam ao consultório angustiadas com a pressão para emagrecer rapidamente. “Cada vez tem aparecido, sim, mais pessoas procurando atingir esse padrão idealizado de beleza. Nós seres humanos sempre nos comparamos, é uma tendência natural, mas é importante pensar nesse excesso. Se a comparação está sempre relacionada a eu me ver inferior, isso gera sofrimento.”
Para ela, a pressão estética se enraizou profundamente na cultura contemporânea. “A ditadura da beleza vem sendo construída ao longo da nossa história. Desde a industrialização, com o capitalismo, isso é cada vez mais fomentado.”
Segundo Eulália, as pessoas acabam caindo “nessa cilada, nessa construção de uma beleza inexistente, de uma perfeição inexistente.” E hoje, afirma, o padrão se sofisticou: “Parece que todo mundo tem que estar da mesma forma: magra. Agora não é só magro, agora tem que ser musculoso.”
Os impactos emocionais do emagrecimento acelerado são inúmeros: “A ansiedade é uma delas. A pessoa idealiza um corpo perfeito e busca isso com tanta força que o organismo não entende por que ela está nisso com tanta veemência.” Quando o padrão idealizado não é alcançado, surge a frustração. Ela explica também o aumento da compulsão: “A pessoa acredita que determinadas comidas vão impedir que ela alcance aquele corpo, então pode ficar muito seletiva ou comer compulsivamente.”
A psicóloga descreve como identificar quando a busca pelo emagrecimento se torna adoecida. “Quando a pessoa não se vê dentro desses padrões, quando idealiza demais um padrão e se vê sempre distorcida. A pessoa não se vê como verdadeiramente é.”
O alerta vem quando isso toma a vida: “Quando a vida está sendo comprometida, quando tarefas cotidianas não são mais realizadas, quando o sono fica comprometido, quando a pessoa fica ruminando aquilo. É a autopercepção que passou da conta.Gosto de dizer que, se tivermos de comparar, devemos comparar conosco mesmos, de como éramos e como estamos agora.”
A psicoterapia, segundo ela, oferece caminhos de reconstrução. “Pode ajudar a pessoa a se aceitar, trabalhar a autoestima, mostrar que o corpo ideal não existe. Muitas vezes a pessoa está se massacrando por uma coisa que não existe, é só uma ideia.” Além disso, ajuda o indivíduo a reconhecer emoções: “Quanto mais consciente das próprias necessidades emocionais, mais saudável a pessoa é.”

O que diz a Saúde do Tocantins
A Secretaria de Estado da Saúde do Tocantins (SES-TO) informou que não possui registros oficiais relacionados ao uso de canetas emagrecedoras, já que esse tipo de informação não integra a lista de notificações compulsórias e, portanto, não é monitorado pelos sistemas da Pasta.
Diante do aumento do interesse por medicamentos para perda de peso, o órgão reforça que qualquer medicação deve ser utilizada exclusivamente mediante prescrição médica, respeitando as orientações e o acompanhamento profissional.
A SES-TO ainda destaca que o controle de peso deve ter como base hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada e prática regular de atividade física
O crescimento do uso das chamadas canetas emagrecedoras evidencia mais do que um fenômeno de mercado: revela uma sociedade que busca soluções rápidas para questões complexas de saúde e autoestima.
No fim, as apreensões, os relatos clínicos e o aumento da pressão estética se juntam para um mesmo alerta: a busca por atalhos no emagrecimento tem custado caro. Entre riscos reais à saúde, mercados paralelos cada vez mais ativos e um ideal corporal que se afasta da vida comum, especialistas continuam defendendo que não existe solução mágica, e que o caminho seguro continua sendo o acompanhamento profissional, a informação de qualidade e a consciência de que cuidar do corpo também passa por cuidar da mente.
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