Por Fernando Maciel Vieira

Ou: Como Construímos a Sociedade Mais Informada da História… Que Não Sabe Ler

Comente se você já disse “educação é prioridade” mas acha o professor do seu filho um problema. Compartilhe se já reclamou da qualidade do ensino mas votou em quem prometeu cortar investimento em escola.

Mas calma, fica melhor. Porque a grande narrativa da nossa época é essa: tecnologia ia nos libertar. Com computadores, internet, inteligência artificial, ia sobrar tempo pra gente estudar, pensar, evoluir. E o que aconteceu? A avaliação realizada em 2022 indicou um desempenho abaixo da média em todos os recortes de renda — ricos, pobres, classe média, todos igualmente incompetentes em matemática. A tecnologia que ia nos salvar virou a nossa maior distração. Criamos máquinas inteligentes para que humanos pudessem ser mais burros em paz.

Sabe o que é realmente fascinante? A gente vive na sociedade do conhecimento onde apenas 1% dos brasileiros atingiu alto desempenho em matemática. Um por cento! Tem mais gente que acredita em terra plana do que gente que sabe matemática decentemente no Brasil. E eu não sei se rio ou choro quando vejo que 55% registraram baixo desempenho em ciências. Mais da metade dos nossos jovens não entende ciência básica, mas todos têm opinião formada sobre vacinas, mudança climática e física quântica baseada em vídeo de três minutos no YouTube.

A antropologia e a psicologia sempre souberam disso: o ser humano é campeão em dizer uma coisa e fazer outra. Nossa verdadeira comunicação nunca esteve na oratória — está nas nossas ações. E nossas ações gritam: educação não importa de verdade. Importa no discurso, no palanque, no post de Facebook. Na prática? Na prática, quando o orçamento aperta, cortamos a educação. Quando precisamos escolher, escolhemos qualquer outra coisa.

Vivemos num paradoxo tão absurdo que parece roteiro de comédia stand-up cósmica: nunca tivemos tanto acesso à informação e nunca soubemos tão pouco. Estamos na “era do conhecimento”, dizem por aí. Pois então, alguém esqueceu de avisar ao conhecimento que ele deveria aparecer.

O PISA 2022 — aquela prova internacional que mede se os jovens de 15 anos sabem o básico para serem cidadãos — revelou uma piada de mau gosto: 73% dos estudantes brasileiros registraram baixo desempenho em matemática, não atingindo sequer o nível considerado mínimo pela OCDE para exercer plenamente sua cidadania. Traduzindo do educacionês: sete em cada dez adolescentes brasileiros não conseguem fazer um cálculo simples ou converter preço de dólar pra real. Mas todos sabem fazer montagem no TikTok.

Ah, mas você acha que é só problema de escola pública? Sinto muito estragar sua narrativa de meritocracia educacional, mas nem mesmo os alunos mais ricos ou as escolas particulares alcançaram a média da OCDE. Isso mesmo: até quem paga mensalidade que custa um salário mínimo por mês está produzindo gente que não sabe o básico. É democracia na ignorância — todos igualmente perdidos, só que alguns perdidos com ar-condicionado.

E o melhor? Não somos os únicos nessa comédia de erros. A média dos países da OCDE caiu 10 pontos em leitura e quase 15 pontos em matemática — uma queda sem precedentes. Alemanha, Noruega, Polônia: países que a gente achava que tinham descoberto o segredo da educação estão despencando também. O mundo inteiro está ficando mais burro em tempo recorde, e a gente nem percebe porque está ocupado demais scrollando.

Aqui vai a ironia deliciosa: o Brasil foi o país onde as escolas passaram mais tempo fechadas em razão da covid-19, contabilizando 279 dias, e mesmo assim nossas notas se mantiveram estáveis. Tradução: a gente já estava tão ruim que não tinha como piorar muito. É tipo estar no fundo do poço e descobrir que lá tem porão. Outros países caíram porque tinham de onde cair. Nós? Já estávamos sentados no chão da história educacional há décadas.

Quer um exemplo concreto dessa esquizofrenia coletiva? A gente reclama que o país não vai pra frente, que falta inovação, que a economia não cresce. Aí investimos menos em educação do que em juros da dívida pública. Sobra dinheiro pra pagar banco, falta pra pagar professor. Sobra pra estádio, falta pra laboratório escolar. É uma escolha. Sempre foi. A gente escolheu ser o país do futebol, do carnaval, do improviso genial — e abdicou de ser o país da educação, da ciência, do pensamento crítico.

E agora? Agora temos a geração mais conectada da história que não consegue interpretar textos simples ou fazer cálculos com algoritmos básicos. Temos acesso ilimitado à informação mas capacidade limitadíssima de processá-la. Somos ricos em dados e pobres em sabedoria. Multitarefa? Sim, somos excelentes em fazer dez coisas ao mesmo tempo — todas mal feitas.

O mais engraçado — no sentido trágico da palavra — é que continuamos falando em “investir no futuro” enquanto desinvestimos no presente. Falamos em “sociedade do conhecimento” enquanto produzimos em massa cidadãos que não sabem pensar. Prometemos que “educação transforma” enquanto tratamos educação como gasto, não como investimento.

Então fica a pergunta: será que somos uma espécie que mente para si mesma como estratégia de sobrevivência? Será que é mais fácil viver na ilusão de que valorizamos educação do que enfrentar o fato de que não valorizamos? Porque os dados não mentem. As ações não mentem. Só a gente mente — principalmente pra gente mesmo.

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