Por Luiz Adriano Lucena

33 milhões de brasileiros não compareceram às urnas no primeiro turno das eleições. Um número extraordinário em se tratando de uma das maiores eleições do país após a redemocratização. A abstenção, que alcançou cerca de 21% do eleitorado, revela mais do que um dado estatístico: evidencia o distanciamento de uma parcela significativa da população do processo eleitoral. Em um período recente, o país vivenciou uma tentativa de ruptura da ordem democrática, materializada nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, cujos envolvidos vêm sendo responsabilizados judicialmente. Um episódio grave, desastroso e mal planejado, mas que não pode ser compreendido apenas como um acontecimento isolado. Diante desse cenário, a desistência de participar da escolha dos representantes pode significar também o enfraquecimento da capacidade de intervenção da sociedade nas decisões políticas que definem seus próprios caminhos.

O contexto é diferente de quatro anos atrás, porém semelhanças e ressentimentos permanecem latentes nos dois lados que disputam o segundo turno. A filtragem do projeto político para governar a décima maior economia do mundo, em uma perspectiva mais profunda, permite retomar a reflexão do historiador José Murilo de Carvalho sobre os chamados “bestializados”. Em Os bestializados, Carvalho problematiza a relação entre a população e a política na Primeira República, mostrando que a aparente distância dos cidadãos em relação aos mecanismos formais de participação política não pode ser interpretada simplesmente como apatia ou incapacidade de compreensão. A discussão ajuda a pensar o presente: as abstenções, somadas aos votos brancos e nulos, podem indicar um afastamento significativo de parte da população do processo eleitoral, mas também exigem que se investiguem as razões desse distanciamento. Nesse sentido, a reflexão de Norberto Bobbio sobre democracia, participação e poder político contribui para compreender que a democracia não se reduz ao momento do voto, mas pressupõe a participação dos cidadãos na vida pública. Afinal, se todo poder emana do povo, como estabelece a Constituição Federal de 1988, o afastamento da população da política representa um problema que ultrapassa o resultado de uma eleição.

Não se pode olhar para a política no Brasil sem colocar em primeiro plano o fator desigualdade social. Dela, sem exagero, decorrem ou se aprofundam muitos dos problemas que afligem a sociedade brasileira, e responsabilizar o indivíduo pela própria condição de desigualdade não é uma postura política digna. Essa realidade também precisa ser considerada na corrida eleitoral que se encerra em três semanas. Tornar o país produtivo não significa submeter trabalhadores a jornadas extensas e reduzir o tempo destinado ao descanso, à convivência familiar e ao lazer. As mudanças no mercado de trabalho não podem estar atreladas apenas à lógica de produtividade de uma máquina capitalista que, em determinadas condições, transforma o trabalhador em mera força de produção. Essa situação é particularmente relevante entre trabalhadores de baixa renda, frequentemente inseridos em ocupações informais, atividades por conta própria ou múltiplas ocupações, condições que podem ampliar significativamente o tempo dedicado ao trabalho e reduzir o espaço destinado à vida social.

Pensar em mudanças na estrutura ministerial é legítimo, mas quando se trata de um Ministério da Educação criado em 1930 e consolidado ao longo de décadas, qualquer alteração significativa precisa estar acompanhada de um projeto educacional claro e de um processo de discussão com a sociedade e as instituições envolvidas. Desvincular ou reposicionar suas atribuições sem apresentar um plano que assegure a participação social pode representar mais um desmonte institucional do que uma política educacional. E sem educação como prioridade, compromete-se qualquer projeto sério de nação. A instabilidade provocada por sucessivas mudanças na condução da política educacional, associada às disputas em torno do financiamento das universidades e dos institutos federais, demonstra que a educação não pode ser tratada apenas como objeto de disputa política. É necessário discutir financiamento, gestão, diálogo institucional e qualidade educacional como partes de um projeto de país, especialmente em uma sociedade marcada por profundas desigualdades sociais.

A política polêmica é incivilizatória. Nos recortes produzidos e compartilhados nas bolhas digitais, acontecimentos complexos são frequentemente transformados em disputas instantâneas que mais ocultam os problemas do país do que contribuem para compreendê-los. No universo da cibercultura, a circulação de fotografias, vídeos, mensagens, memes e postagens ocorre em grande velocidade, inclusive com conteúdos manipulados ou retirados de seu contexto original. Diante desse cenário, a capacidade de verificar fontes, confrontar informações e compreender o contexto dos acontecimentos torna-se fundamental. Nem sempre, porém, os usuários conseguem ou se dispõem a realizar essa verificação, o que favorece a circulação de conteúdos enganosos e de desinformação. Na campanha atual, esse mecanismo se manifesta na produção e no compartilhamento de conteúdos sobre os adversários, podendo alimentar medo, hostilidade, desconfiança e, consequentemente, distanciamento do debate eleitoral.

É lamentável admitir que existem propostas de um dos lados que já foram experimentadas e amplamente criticadas, mas que podem voltar ao debate sob novas circunstâncias, enquanto outras pautas apresentam maior aproximação com a garantia dos direitos humanos e com o reconhecimento da diversidade social brasileira. Populações historicamente submetidas à exploração, à exclusão e à desigualdade — entre elas populações negras, quilombolas e povos indígenas — continuam demandando políticas públicas de inclusão, proteção de direitos e superação de condições de vulnerabilidade. Uma sociedade mais justa também precisa reconhecer sua própria trajetória histórica e discutir formas de reparação diante de desigualdades construídas ao longo do tempo. As críticas são bem-vindas, assim como a pluralidade de posições em um governo democrático, mas negar processos históricos ou propor alterações constitucionais sem discutir seus impactos sobre os direitos e as instituições republicanas exige atenção. A Constituição não é apenas um documento a ser alterado conforme as circunstâncias políticas: ela estabelece os fundamentos do Estado Democrático de Direito e também impõe limites às mudanças que possam comprometer direitos e garantias fundamentais.

A crise envolvendo as instituições de Justiça acrescenta outra camada de tensão a esta eleição. As relações entre a política e o Supremo Tribunal Federal também fazem parte das disputas institucionais que atravessam o país, mas não se resolve uma crise com outra. A mudança de governo é legítima dentro da democracia; o que não pode ser aceito é que a mudança política seja utilizada para enfraquecer os próprios fundamentos democráticos. É na democracia, na luta coletiva e na expressão da vontade política que uma sociedade demonstra sua força, sua identidade e sua maturidade. O povo precisa recuperar sua voz ativa e compreender que a política não se resume à polêmica das redes, às disputas eleitorais ou à circulação de informações fragmentadas. Participar da vida pública significa também compreender os projetos em disputa, confrontar informações, cobrar instituições e reconhecer que as escolhas políticas produzem consequências para toda a sociedade. Talvez seja esse o maior desafio diante da mudança política em curso: não permitir que a população se afaste novamente da política a ponto de parecer “bestializada”, mas construir uma participação cidadã capaz de compreender, questionar e transformar a realidade.