A violência contra a mulher vai acabar quando os homens decidirem que ela os diz respeito
08 março 2026 às 10h12

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Por Fernando Maciel Vieira
Existe uma forma de violência que não aparece nas estatísticas. Que não tem fotografia, não tem boletim de ocorrência, não tem nome no processo. Uma violência que não grita, não empurra, não ameaça — mas que sustenta, com eficiência brutal, tudo aquilo que grita, empurra e ameaça.
É o silêncio do homem.
Não o silêncio de quem não sabe. O silêncio de quem sabe, vê, ouve — e escolhe não se mover. O silêncio confortável, estratégico, covarde, vestido de “não é da minha conta”, “ela que resolve”, “eu não me meto em briga de marido e mulher”. Esse silêncio tem textura. Tem cheiro. E tem consequência de sobra.
Todo homem que já assistiu a um amigo humilhar a companheira na frente de todo mundo — e riu junto para não quebrar o clima — participou. Todo homem que ouviu o vizinho gritar com a mulher pela parede fina do apartamento e pensou deve ser coisa deles antes de virar o volume da televisão — participou. Todo homem que ficou quieto no grupo de WhatsApp quando a piada sobre “dar porrada em mulher chata” apareceu — participou.
Não participou como o agressor. Mas participou como o chão que sustenta o agressor. Como o ar que ele respira. Como a plateia sem a qual o espetáculo da dominação não faz sentido.
A violência doméstica não é um fenômeno privado. É um fenômeno coletivo com endereço privado. E ela prospera exatamente porque ao redor de cada homem violento existe um círculo de homens silenciosos que, com sua omissão, constroem uma muralha de proteção ao redor dele.
Pense bem. Pense devagar.
Você já viu um amigo mudar quando está com a namorada perto — um olhar de controle, um tom que não é bem um pedido, uma forma de responder por ela antes que ela fale? Você reconheceu aquilo. Algo dentro de você nomeou. E então você desviou o olhar, pediu outra rodada, mudou de assunto.
Por quê?
Porque confrontar outro homem sobre como ele trata uma mulher é, na cultura que nos formou, uma afronta à masculinidade dele — e, por extensão, à sua. Porque fomos ensinados que entre homens existe um pacto tácito: não se julga, não se questiona, não se interfere. A solidariedade masculina, como foi construída, é a solidariedade do silêncio. E esse silêncio tem um preço. Quem paga é sempre ela.
O dado que deveria nos manter acordados à noite: segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher é espancada no Brasil a cada 12 segundos. Doze segundos. O tempo que você levou para ler essa frase. Enquanto você estava aqui, alguém apanhou.
E em boa parte dessas histórias, havia um homem que sabia. Um amigo, um irmão, um colega de trabalho, um vizinho. Alguém que tinha a informação e optou pelo conforto do não envolvimento.
Omissão não é neutralidade. Omissão é escolha. E toda escolha tem um lado.
Mas há algo mais profundo ainda, e é aqui que o artigo deixa de ser confortável para qualquer um.
O silêncio masculino diante da violência não é apenas covardia situacional. Ele é o produto de uma masculinidade que aprendeu a terceirizar a responsabilidade emocional, a responsabilidade relacional, a responsabilidade moral. Fomos criados para agir no mundo externo e nos omitir no mundo interno — o das relações, dos afetos, das dinâmicas de poder que vivemos todos os dias dentro de casa, dentro do grupo, dentro de nós mesmos.
E essa omissão crônica do homem no campo do humano — no campo de olhar para dentro, de questionar o que aprendeu, de se responsabilizar pelo que reproduz — é o solo fértil onde a violência cresce.
O agressor não surgiu do nada. Ele foi formado em algum lugar onde ninguém disse que estava errado. Onde ninguém nomeou o que ele fazia. Onde o silêncio ao redor dele foi interpretado, por ele, como aprovação.
Então o que se pede ao homem que não bate, que não controla, que não ameaça, e que lê este texto com a sensação de que isso não é com ele?
Que pare de achar que não bater é suficiente.
Não bater é o mínimo. É o chão, não o teto. A pergunta que importa não é eu faço isso? A pergunta que importa é o que eu faço quando vejo isso? O que você diz — ou não diz — quando está na roda. O que você tolera em nome da amizade. O que você ensina, com o seu exemplo, para os meninos que te observam.
Porque os meninos te observam. Sempre. E aprendem com o que você faz. Mas aprendem também — e talvez com mais força — com o que você deixa passar.
O silêncio masculino diante da violência contra a mulher não é ausência de posição. É uma posição. É dizer, sem palavras, que aquilo tem espaço. Que aquilo é tolerável. Que aquilo não é grave o suficiente para romper o conforto de um jantar, de uma amizade, de um grupo.
E enquanto essa posição for a mais comum entre os homens que se consideram bons, as estatísticas continuarão a ser o que são. Não porque os monstros são maioria — eles nunca foram. Mas porque os silenciosos são.
A violência contra a mulher vai acabar quando os homens decidirem que ela os diz respeito. Não como agressores. Como responsáveis. Como parte do tecido social que pode, a qualquer momento, puxar um fio diferente.
O silêncio foi escolhido. Isso significa que a fala também pode ser.
Central de Atendimento à Mulher: 180 — gratuito, 24 horas, sigiloso. Porque quem liga também salva.
