Por Fernando Maciel Vieira

Ah, o Tocantins! Terra onde a inovação educacional acontece com a mesma previsibilidade de um raio em dia de sol: você nunca sabe quando vem, mas quando vem, vem pra detonar tudo. E desta vez, meus caros, a novidade atende pelo pomposo nome de Itinerário Formativo. Chegou agora, com ano letivo andando, porque planejar é coisa de quem tem tempo sobrando, e aqui no Estado do Tocantins, como todos sabem, professor vive nadando em ócio, tomando chá de camomila entre uma aula e outra.

Aliás, ainda estamos oficialmente em “recomposição curricular” da pandemia. Sim, aquela pandemia de 2020. Estamos em 2026, mas no Tocantins o tempo é relativo — Einstein que o diga. Aqui a gente vive simultaneamente no pós-pandemia, no durante-implementação-de-mil-coisas e no pré-colapso-nervoso-coletivo. É uma espécie de buraco negro temporal pedagógico.

Morrer de tédio no Tocantins? Jamais! Aqui a gente morre é de surpresa pedagógica. Mal acabamos de processar a última “revolução educacional” — aquela que veio embrulhada para presente mas esqueceram de colocar as instruções de montagem —, e já chega outra, fresquinha, com aquele cheirinho de improviso que a gente já conhece tão bem.

Veja bem: o Itinerário Formativo é maravilhoso no papel. Os alunos poderão escolher entre as áreas do conhecimento nas quais desejam se aprofundar. Lindo! Emocionante! Quase poético! É como oferecer um banquete de cinco estrelas numa cozinha sem fogão, sem panela e, ah sim, sem comida. Mas o cardápio está impecável, pode conferir.

Porque, convenhamos, em escolas onde falta quase tudo — não, pera, onde sobra criatividade para improvisar espaços —, onde a estrutura física mais parece cenário de filme pós-apocalíptico, onde os professores já fazem malabarismo para dar conta do básico, agora vamos implementar um sistema de escolhas personalizadas. É simples: basta cada professor se multiplicar por quatro, criar projetos pedagógicos inovadores nas horas vagas (aquelas entre sonhar e acordar), e voilà! Problema resolvido.

E o timing? Ah, o timing é impecável. Implementar Itinerário Formativo com o ano letivo já em curso é o equivalente educacional a trocar o pneu com o carro andando. Na contramão. Da BR-153. À noite. Sem pisca-alerta. Mas tudo bem, professor é tipo MacGyver: resolve tudo com um clipe, uma caneta e muita, mas muita força de vontade.

Ah, e teve aquele encontro grandioso! Sabe como é, aqueles eventos com coffee break, PowerPoint cheio de gráficos coloridos, gente bonita falando palavras bonitas. Foi lindo, inspirador, quase catártico. Só esqueceram de um pequeno detalhe: mencionar que o tal do IF ia começar tipo… agora. Amanhã. Ontem. Enfim, organize-se aí, professor. Você é profissional, dá seu jeito.

E tem o Documento Orientador. Ah, sim, essa obra-prima da literatura técnico-burocrática que nos orienta… dessorientando. É tipo GPS que te manda entrar à direita num rio. Mas se você não entendeu, o problema é seu, professor. Faltou interpretação de texto na sua formação, claramente. O documento está cristalino: claro como água de barranco.

Darcy Ribeiro, profeta educacional que foi, já avisava: a crise da educação no Brasil não é crise, é projeto. E que projeto bem executado, diga-se de passagem! Décadas de sucesso absoluto em fazer tudo dar errado certinho.

Mas espera, tem mais! Porque no Tocantins a gente gosta de caprichar. Agora temos também figuras religiosas gastando tempo de sermão para falar mal de professor. Curioso, não? Em vez de evangelizar os jovens, orientá-los para os estudos, pregar respeito e disciplina, preferem usar o púlpito para fazer chacota da categoria. Porque, né, professor é alvo fácil. Está ali, trabalhando feito condenado, ganhando salário de estagiário, levando a culpa de tudo que não funciona no sistema. Por que não chutar mais um pouco?

Claro, não somos todos perfeitos. Como em qualquer profissão, tem gente que não presta. Mas nivelar toda uma categoria pelos piores exemplos é estratégia interessante. Tipo julgar toda a medicina por causa daquele médico que você viu no noticiário. Ou toda a religião por causa daquele pastor picareta. Ah, não, pera…

Então fica aqui meu apelo, meu grito desesperado lançado ao vento (ou seria ao WhatsApp da Secretaria?): nos ajude, secretário! Planeje com antecedência. Converse com quem está na linha de frente. Forneça estrutura antes de cobrar resultado. Trate professor como profissional, não como super-herói que tira solução da cartola.

Porque no fim das contas, quando tudo der errado — e historicamente sempre dá —, já sabemos de quem será a culpa: nossa, professores, que não entendemos a proposta revolucionária. Nunca da proposta que chegou atropelada, malfeita e sem estrutura.

Mas está tudo bem. Estamos acostumados. Afinal, no Tocantins, a vida vai nos levando. E a educação? Bem, a educação vai sendo levada.