A quebra do sigilo dos dados telemáticos do empresário Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, revelou que ele mantinha em seu celular uma lista extensa de contatos de autoridades dos Três Poderes, integrantes do mercado financeiro e pessoas ligadas a figuras públicas. Entre os nomes identificados está o do senador pelo Tocantins, Irajá Abreu (PSD). O Jornal Opção Tocantins solicitou posicionamento ao parlamentar e aguarda um retorno.

As informações constam na análise do material apreendido pela Polícia Federal e divulgadas pelo portal Poder360. Segundo o levantamento, a agenda do empresário reúne ao menos 55 contatos considerados sensíveis.

Entre os números registrados estão os de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), integrantes do Superior Tribunal de Justiça (STJ), parlamentares, assessores, autoridades do Banco Central, nomes do mercado financeiro e integrantes ou ex-integrantes do Poder Executivo.

Ministros

A lista inclui os seguintes ministros e ex-ministros:

  • Nunes Marques, ministro do Supremo Tribunal Federal;
  • Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal;
  • Dias Toffoli, ministro do Supremo Tribunal Federal;
  • Benedito Gonçalves, ministro do Superior Tribunal de Justiça;
  • Ricardo Lewandowski, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal.

Parentes de autoridades

Também aparecem na agenda pessoas ligadas a ministros e autoridades:

  • Viviane Barci de Moraes, advogada e esposa do ministro Alexandre de Moraes;
  • Roberta Rangel, advogada e ex-esposa do ministro Dias Toffoli;
  • Leonardo Mantega, filho do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.

Congressistas e assessores

Entre parlamentares e assessores registrados no celular de Vorcaro estão:

  • Ciro Nogueira, senador (PP-PI);
  • Eduardo Braga, senador (União Brasil-AM);
  • Carlos Viana, senador (Podemos-MG);
  • Irajá Abreu, senador (PSD-TO);
  • Pablo Almeida, indicado como assessor do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG);
  • Victor Freitas, indicado como assessor de Ciro Nogueira.

Funcionários do Banco Central

A agenda também inclui autoridades e servidores da instituição responsável por supervisionar o sistema financeiro:

  • Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central;
  • Ailton Aquino, diretor de fiscalização;
  • Daniela Torres de Mesquita, chefe adjunta do gabinete de Galípolo;
  • Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização.

Nomes do mercado

Entre empresários e executivos do mercado financeiro e empresarial aparecem:

  • Fernando Freiberger, diretor executivo do Bradesco;
  • Roberta Mariano, superintendente executiva do Bradesco;
  • Nelson Tanure, investidor e dono da Docas Investimentos S.A.;
  • Alex Allard, fundador da Cidade Matarazzo;
  • Joesley Batista, dono da JBS;
  • Roberto Viana, dono da Petra Energia.

Integrantes e ex-integrantes do Executivo

Também constam na agenda:

  • José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil;
  • Silvio Costa Filho, ministro de Portos e Aeroportos;
  • Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro;
  • Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal;
  • Maxwell Borges, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo;
  • Bruno Bianco, ex-ministro da Advocacia-Geral da União.

Segundo as informações divulgadas, a presença dos números na agenda confirma apenas que os contatos estavam armazenados no celular do empresário, sem indicar necessariamente conversas ou qualquer envolvimento das autoridades nas investigações.

Entenda a investigação

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou no dia 4 de março de 2026 a terceira fase da Operação Compliance Zero, após pedido da Polícia Federal. A investigação apura a atuação de um grupo que, segundo os investigadores, seria responsável por monitorar e intimidar adversários de Daniel Vorcaro.

A decisão menciona mensagens trocadas entre Vorcaro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, nas quais aparecem referências a ordens de intimidação contra concorrentes empresariais, ex-empregados e jornalistas que poderiam prejudicar interesses ligados ao Banco Master.

Foram presos preventivamente:

  • Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master e apontado como líder da organização investigada;
  • Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, pastor e empresário investigado por realizar pagamentos e orientar o núcleo responsável por intimidações;
  • Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado investigado por participar do grupo responsável pelo monitoramento de adversários do empresário;
  • Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado como integrante de um grupo chamado “A Turma”, que buscaria obter informações clandestinas e monitorar pessoas consideradas adversárias do Banco Master.

Suspeitas envolvendo servidores do Banco Central

A decisão do ministro André Mendonça também cita funcionários do Banco Central que, de acordo com a Polícia Federal, teriam sido cooptados por um núcleo organizado por Vorcaro.

Entre eles está Paulo Sérgio Neves de Souza, que era chefe-adjunto de Supervisão Bancária do Banco Central e mantinha contato próximo com o empresário. Segundo a decisão, os dois trocavam mensagens e o servidor teria orientado Vorcaro sobre ofícios e até sobre uma reunião com o presidente da autoridade monetária.

Na decisão, Mendonça afirma que, mesmo sendo servidor do Banco Central, Paulo Sérgio teria atuado como uma espécie de consultor informal do empresário para assuntos de interesse privado.

Outro nome citado é o de Belline Santana, que à época era chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central. De acordo com a Polícia Federal, ele teria mantido uma relação semelhante com Vorcaro, atuando de forma informal em favor dos interesses do Banco Master.

Segundo a investigação, Belline Santana teria recebido proposta de contratação simulada por parte de Fabiano Zettel, com objetivo de formalizar um vínculo contratual fictício.

Estrutura investigada

A decisão também menciona auxiliares ligados à estrutura investigada.

Leonardo Augusto Furtado Palhares, conforme a Polícia Federal, atuaria na formalização de documentos relacionados às contratações entre Vorcaro, Zettel e funcionários públicos. As empresas de fachada teriam sido utilizadas para realizar pagamentos classificados como propina.

Já Ana Cláudia Queiroz de Paiva, funcionária de Vorcaro, seria responsável por realizar movimentações financeiras para o grupo investigado, participando da estrutura que executaria pagamentos vinculados às iniciativas do empresário.

Empresas suspensas

Atendendo a outro pedido da Polícia Federal, o ministro André Mendonça também determinou a suspensão, por tempo indeterminado, das atividades das seguintes empresas:

  • Varajo Consultoria Empresarial Sociedade Unipessoal Ltda.;
  • Moriah Asset Empreendimentos e Participações Ltda.;
  • Super Empreendimentos e Participações S.A.;
  • King Participações Imobiliárias Ltda.;
  • King Motors Locação de Veículos e Participações Ltda.

Caso chegou ao STF

A investigação passou a tramitar no Supremo Tribunal Federal por envolver autoridades com prerrogativa de foro.

Durante as apurações da Operação Compliance Zero, a Polícia Federal encontrou um envelope com o nome do deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA) em um endereço ligado a Daniel Vorcaro.

Inicialmente, a relatoria do caso estava com o ministro Dias Toffoli, mas o processo foi posteriormente redistribuído ao ministro André Mendonça após questionamentos e discussões internas no Supremo sobre a condução do caso.