Cessar-fogo entre EUA e Irã é considerado instável em meio à mobilização militar no Oriente Médio
08 abril 2026 às 17h24

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Anunciado em meio a uma ampla mobilização militar dos Estados Unidos no Oriente Médio, o acordo de cessar-fogo com o Irã é avaliado por especialistas como instável e de caráter temporário, com possibilidade de preparação para novos ataques. A análise foi feita por estudiosos de geopolítica e assuntos militares ouvidos pela Agência Brasil.
O diretor do Instituto de Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos (GSEC), Rodolfo Queiroz Laterza, afirmou que o formato do cessar-fogo indica uma estratégia para ganhar tempo por parte do ex-presidente Donald Trump.
“Estamos vendo é uma pausa operacional para finalidades de possível reabastecimento de munições e das unidades da Força Aérea norte-americana para um bombardeio massivo e/ou também um desembarque terrestre. Esse cessar-fogo é bastante precário”, disse o historiador de conflitos armados.
Segundo o especialista, a movimentação aérea na região é de grande escala, com cerca de 500 aeronaves dos Estados Unidos em operação, o que representa aproximadamente um quarto da frota militar aérea do país.
Rodolfo também mencionou o aumento da logística militar e a mobilização da brigada de artilharia de Washington.
“Isso não indica paralisia ou acordo. Os EUA têm um padrão para se retirar dos conflitos. Eles promovem uma operação de bombardeio massivo, para gerar uma verdadeira terra arrasada, declaram vitória e se retiram. Isso aconteceu antes, no Vietnã do Norte, em 1972”, explica Laterza.
A centésima onda de ataques do Irã, informada nesta quarta-feira (8), contra 25 alvos em Israel e outros países do Oriente Médio, incluindo a Arábia Saudita, reforça a avaliação de fragilidade do cessar-fogo, segundo o diretor do GSEC.
O cientista político e especialista em geopolítica Ali Ramos destacou que os Estados Unidos têm capacidade de produzir cerca de 90 mísseis Tomahawk por ano e entre 500 e 600 mísseis Patriot, o que indicaria redução nos estoques desses armamentos.
“Só na primeira semana foram gastos 800 mísseis Patriot. Eles estão com estoques baixos. Esses mísseis também são fornecidos ao Reino Unido, Japão, Austrália, Canadá e outros países. Existe um problema de estoque muito grande e, por isso, os ataques iranianos estavam, cada vez mais, passando pelas defesas aéreas”, destacou.
Estudioso de Ásia, Teoria Militar e Defesa, Ramos também afirmou que o cessar-fogo pode representar uma pausa operacional antes de um novo ataque em larga escala.
Ele citou ainda o envio de munições para o Oriente Médio por meio de aviões C-130, mas ponderou que os Estados Unidos não teriam condições de sustentar um conflito prolongado.
“Eles estão muito desgastados. Só que podem fazer um mega ataque, proclamar vitória e tentar fazer com que o Irã ceda mais. Tentaram isso no Vietnã também”, recordou.
Ali Ramos também avaliou que o Irã vem sofrendo pressão da China e de países do Golfo para aceitar o cessar-fogo.
“A China fez pressão para o Irã aceitar. Os países do Golfo provavelmente também. Nesse cenário, o Irã está mirando uma nova realidade estratégica na região para se posicionar como um ator moderado. Acredito que por isso que o Irã aceitou”, disse.
No contexto regional, o especialista afirmou que um ataque em larga escala de Israel contra o Irã, realizado nesta quarta-feira, teria como objetivo afetar o acordo de cessar-fogo.
“Israel torpedeou todos os cessar-fogo até o momento na região, foi contra todos eles. Existe uma questão de sobrevivência na política doméstica israelense para [Benjamin] Netanyahu, que depende, por conta das acusações de corrupção contra ele, permanecer em guerra. Acredito que Israel vai fazer tudo para que essa guerra retorne”, completou.
O Irã, por sua vez, ameaça romper o cessar-fogo diante de ataques de Israel contra o Líbano, exigindo que a trégua seja aplicada a todas as frentes de combate.
Em entrevista à PBS News, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o Líbano não integra o acordo “por causa do Hezbollah”.
